segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

João e Maria nas aragens de um sonho




Conheci João ainda menina e nunca mais parei de viajar ao seu lado pelo interior mineiro, abraçada nas palavras que eu já conhecia, mesmo antes de aprender a ler. Pois elas mostram o jeito do caipira cangar os bois de carro, tocar o gado pelas estradas, rios e serras encascalhadas. Palavras que descrevem a incansável lida dos cavaleiros que atravessavam o sertão, protegidos do sol por dias nublados ou se molhando nas chuvas de primavera.
A fala de João é calma como o enrolar de um cigarro de palha, gostosa igual comer pão de queijo com café ou pescar no corguinho ao entardecer. Ele sempre soube do meu amor, não precisei falar que ao ler seus livros escalei a Lua, cheguei ao céu para dormir sonhos...
Naquele dia ele voltou a Minas. Estava vivo, encantado!  Era nosso primeiro encontro assim de perto. Pedi que me acompanhasse numa visita à Serra da Canastra. Assentiu e caminhamos os dois em silêncio pelo Chapadão afora. Tudo estava verde e florido; as sempre-vivas, as canelas-de-ema e até mesmo os lírios. Na concha das mãos, bebemos água fria da nascente do Velho Chico. Margeamos o rio até sua primeira queda, a Cachoeira Casca D'anta.
Ele quem puxou prosa primeiro, excelente companhia. Aos poucos se apresentou pra mim como um matuto sonhador, me confidenciou que em Minas sentia-se livre, longe da rotina dura do mundo urbano e fumacento. Eu bebia suas palavras, onde descrevia a vida em retalhos de céu, pedras de serra, pingos de sereno e frutas do cerrado amoitadas no capim rasteiro. Assim, Guimarães Rosa me ensinava que nem sempre se precisa de presença física para se amar alguém. A certa altura do caminho, me olhou e disse:
— Maria... Alguns sentimentos não se perdem na ausência quando se possui afinidade de alma. O comum que temos é o nosso jeito de espiar o mundo aqui do alto da Serra, sentindo o cheiro, a cor e o gosto da vida, nas águas, fauna e flora desse lugar. Daqui do Paredão, vemos o rio com toda sua simplicidade na nascente, esse fio d’água correndo pelo Chapadão, saltando toda manhã em cachoeiras de águas cristalinas. É esse rio que se agiganta para aguar e encher de verde o outro lado do Brasil.
Segurou minha mão e seguimos do jeito calado que tomava conta da paisagem. O tamanduá-bandeira balançava o capim, uma onça pintada espreitava escondida na capoeira. Íamos para onde o sol apontava, o mesmo que na aurora tinge a terra de cores variadas secando o sereno. Esse sol que toda noite repousa nos braços da lua terna e apaixonada, que o protege com um manto escuro pendurando estrelas reluzentes nos portais para iluminar o céu.
— João... Esta Serra abriga muitos sonhos, já alimentou almas de bugres, jagunços e tropeiros. Com essa beleza singela, acalenta a vida de almas simples, criando imagens que os seguem pela vida afora, despejando gotas de saudades nos corações que visitam estas paragens.
As águas cochichavam segredos guardados no fundo da Canastra quando chegamos ao topo da última Serra. Era chegada a hora do adeus... De mãos dadas, ouvíamos a natureza sussurrando o som do universo, sentíamos a presença da Imortalidade nas águas revoltas das cachoeiras, nos campos arados do céu e no vento cigano de minha terra.
Desejei segurar o tempo, eternizar aquele momento. João tinha no olhar algo que o ligava ao sol e às estrelas, parecia desacontecido, virou-se pra ir-s’embora. Estava voltando para casa, indo para longe de mim, mesmo assim ainda permaneceria comigo por muito tempo, mesmo depois que o vento tivesse apagado nossos rastros, na poeira do caminho.
Suavemente, me soltou as mãos... Por um rápido segundo, mirei e vi seu rosto sereno sendo levado pela aragem... João ia, como se fosse parte da neblina, rumando cada vez mais alto, ascendendo aos céus, seguindo para as estrelas. Era noite, havia luar... Meu coração amanhecia.


Nota da autora: Esse texto é uma homenagem ao meu escritor preferido, João Guimarães Rosa. Ele me ensinou a valorizar as coisas simples e fazer delas coisas grandes, através do modo de ver e enxergar o mundo.


* * *


Conheça mais sobre Maria Mineira e seu projeto com escritores mirins em junho, aqui no blog. Obrigada, Maria Mineira, por sua gentil participação. Em junho, não perca, vice?! Salve, Maria! Salve, João!

Helena e Michele.


Copyright 2013 (c) - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão da autora.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Os Sapatos




Foram os sapatos. Foi a primeira coisa que Denise viu, quando ele entrou. Uma cor indefinida. Bege? Café com leite? Leite queimado? Doce de leite, tal qual sua mãe fazia, no tacho de cobre comprado dos ciganos? Viu mesmo antes que ele dissesse: Olha que belezinha? Que conforto? Parado ali, na porta da cozinha, a espera de um aplauso que ele mesmo se concedeu, Joel ria com todos os dentes, batendo as mãos uma contra a outra, o anel de ouro e rubi faiscando. Só eu mesmo, só eu para fazer uma comprinha destas! Que conforto! Que belezinha! E que precinho! Foram os sapatos, pensou Denise, mais tarde, refletindo e ainda ouvindo o choc choc da colher batendo na tigela de louça, misturando-se com o som das exclamações no diminutivo. Fantástico é o show da vida, sem explicações. Como se justificar? Não tentou. Às vezes, ela mesma, quando pensava achava a situação ridícula. Um homem, Joel, seu marido, entra pela porta da cozinha como faz sempre que chega antes da noite. Ela, Denise, sua mulher, está ali também, como sempre, nesses últimos anos, preparando qualquer coisinha para o nosso jantarzinho. Ele fala. Ela escuta, será que escuta? Nem sabe realmente se foi isso mesmo que foi dito. Agita os braços. Penteia o cabelo com o pente de osso, sem se incomodar com onde será que vão cair os fios de seu cabelo mal lavado. Coça o ouvido com o mindinho, unha comprida, será que pra isso? Limpa, esfregando na lapela do terno berrante brilhante, o dedo sujo. Funga. Lambisca. Faz tudo o que sempre fez. Ele. Ela não. Fica calada. Absorta. Enquanto bate a omelete, se lembra. Os sonhos. O chá das cinco em um aconchegante cottage inglês. O jantar comemorativo, a luz de velas e regado a champanhe borbulhante em finas taças de cristal, em um restaurante francês. Os fins de tarde no remanso de uma fazenda quatrocentona. As férias na Riviera. As noites caribenhas...cha...cha...cha... As premiéres. Vestidos exclusivos. Jóias caras. Quadros. Livros. Finesse. As. Os. A O. Tantos lugares, situações. Se lembrou dos sonhos, acordando em um pesadelo. Foram os sapatos, ela não pára de repetir, enquanto pensa e lembra, relembra, Joelzinho, a boca aberta, o som estrangulado na garganta, olhos esbugalhados, espalhafatoso e estupefato, ridículo, a massa caindo, colherada após colherada, da tigela azul de louça, lambrecando-o todo, da cabeça aos pés, enquanto ela ria como uma louca. Foram os sapatos, ela pensa mais uma vez, enquanto vai para o trabalho, o seu primeiro emprego, dirigindo o primeiro carro comprado com o suor do seu corpo. Do pesadelo ao recomeço dos sonhos. Foram os sapatos. Cor de ovo. De omelete.





Copyright 2013 (c) - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão da autora.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Firmino e o Fim do Mundo



Por Michele Calliari Marchese

Esse causo aconteceu quando o Firmino ainda era menino de seus 14 anos, e fez um rebuliço danado por causo de um sonho que teve. Saiu gritando porta afora, seguido de sua prestimosa mãe que tentava a todo custo calar-lhe a boca. Chorou e gritou tanto que o povo da Campina da Cascavel se aglomerou em volta do rapaz a perguntar-lhe o que havia acontecido, e o Firmino com voz chorosa disse que tinha sonhado com um andor, carregado por seis pessoas que tinham a catástrofe em seus olhos e mais seis visionários.
Algumas mulheres que estavam por ali se olharam assustadas e o Padre Dimas fazia o sinal da cruz de cabeça baixa e muito preocupado.
Firmino contou mais, contou que não conhecia a santa que seguia em cima do andor e que carregava um manto envolto na cabeça com uma frase que lhe pegava de um lado ao outro e que dizia: “O fim do mundo está próximo”. E quando terminou de lembrar sobre essas palavras apocalípticas, voltou a chorar com todas as suas forças.
A grande maioria das pessoas que estavam em volta de Firmino, começou a caminhar lentamente em passinhos silenciosos e febris em direção à Igreja e levaram o rapaz que, sem saber como e nem por que, encontrava-se dentro do átrio com o Padre Dimas a encabeçar a turba. Logo, todos se sentaram e Firmino continuou em pé.
Tinha que dizer algo, porque as pessoas que estavam ali careciam de respostas. Virou a cabeça e olhou todas as pessoas e então ele se arrependeu amargamente de ter contado o sonho e num relance viu as proporções que seu rompante havia atingido. Agora era tarde demais e viu o olhar de sua mãe, num canto da capela a auscultar-lhe o coração, infligindo mais culpa ainda em sua pobre alma assustada.
Fechou os olhos e começou a rememorar o sonho. Contou de novo e com mais detalhes sobre o andor e sua santa, contou sobre as doze pessoas que o carregavam e seus olhos assustadores. Contou sobre o manto. E lembrou que também estava escrito alguma coisa a mais e que não era no manto, mas que estava em algum outro lugar por ali, como se fosse uma data.
A data para o fim do mundo?
O Padre Dimas que tinha a cabeça baixa a escutar o rapaz, levantou de sobressalto e procurou fazer com que Firmino não continuasse em suas premonições, pois que aconteceria outra catástrofe, e pior que aquela que estava sendo anunciada.
Mas a população curiosa e interesseira não permitiu que o Firmino saísse de lá sem dizer quando, onde e por que. Até o Padre em seu íntimo tinha uma vontade incontrolável de saber quando aconteceria o fim do mundo. Só a mãe do rapaz que saiu da igreja sem mais nem menos, porque não queria saber de nada, porque queria seu filho de volta em casa, são e salvo e sabia também que dependendo do que ele responderia, poderia ficar com uma fama para o bem ou para o mal para o resto da vida e sofreria decerto com as muitas maledicências.
Mas o Firmino não arredou pé da igreja, nem quando a mãe num gesto muito rápido pediu a ele que fosse junto com ela para casa. E ele continuou com seu sonho premonitório dizendo a uma população assustada que naquele dia fatídico, aquele do fim do mundo, todos saberiam quando seria porque seria o dia em que todos reconheceriam de peito aberto a morte, escutaríamos as estrelas suspirando, a Lua dando cria e um portal de luz sendo aberto para visitarmos nossos outros eus em outras esferas. E que no dia vinte e um de dezembro de 2012 aconteceria tudo isso e todo mundo saberia em seu íntimo todos os segredos do céu e da terra e conheceria finalmente o Criador, que vinha pilotando uma máquina voadora gigantesca para nos dizer coisas sobre a água. E Firmino não parou mais.
Não se soube se foi o verbo empregado no discurso, ou se pelos absurdos de outros “eus”, mas o fato é que Firmino ficou sozinho na igreja.
Ele não foi taxado de nada como sua mãe tinha suspeitado muito pelo contrário, elogiavam a criatividade do garoto e pediam vez ou outra se ele tinha mais histórias a contar. E Firmino seguiu a sua vida sem esquecer nunca do sonho que tivera.
Hoje, com 96 anos conta os dias com um frenesi de louco porque todos os que escutaram seu relato há 82 anos estão mortos.
E espera sozinho o fim do mundo, porque todas as noites ele escuta as estrelas suspirando e isso o irrita.



Copyright 2013 (c) - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão da autora.