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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O Presente

Por Soraya Souto

Depois dos filhos criados e casados, e vendo a velhice chegar, Tio Zé e Tia Fia passavam os dias entre os trabalhos na pequena fazenda, e as poucas visitas aos vizinhos.

Há tempos a filha mais velha tinha se mudado com o marido para o nordeste, e o filho caçula, temporão que Deus mandou, trabalhava na cidade grande, e vinha uma vez por mês. Nesses dias, trazia sempre um agrado, alguma novidade da cidade para facilitar a vida da mãe, ou algo que alegrasse a solitária vida dos pais.

Quando soube que a energia elétrica rural enfim tinha chegado por lá, gastou todo o seu salário no melhor de todos os presentes: uma televisão novinha, que depositou orgulhosamente na mesa da pequena sala da casa. O mais difícil foi instalar a antena no telhado, com subidas e descidas sem fim, até acertar a imagem. Quando terminou, abraçou os pais e partiu apressado, a tempo de pegar a condução de volta para a cidade.

Nos dias que se seguiram, os vizinhos pouco viram o velho casal. As visitas noturnas já não aconteciam, e na quermesse da igreja daquele mês ninguém provou os deliciosos biscoitos da Tia Fia, na barraca das quitandas.

Essas mudanças seriam de preocupar, mas o filho do Senhor Onofre, Zequinha, garoto esperto e falante, tinha tranquilizado a todos, ao contar que via os tios sempre, ao voltar da escola. “É verdade, gente, eu vejo eles sentados lá na frente da casa, e não estão doentes não”, explicou.

Mas com o passar do tempo, um fato estranho lhe chamou a atenção: notou que os dois velhos se sentavam de frente para a porta da casa, e costas para a estrada, e por isso nem viam quando ele passava. Preocupado, um dia tentou chamá-los do portão, mas não foi ouvido pelo casal, distraído com algo que acontecia na sala.

Até que em determinado dia resolveu abrir o portão da fazenda do Tio Zé e, sem ser convidado, ir ter com eles, para um pouco de prosa.

Estavam sentados a uma grande distância da porta da casa, no jardim, e assistiam curiosos um programa qualquer que passava na televisão, ligada no fundo da sala. Tia Fia se esforçava muito para enxergar a imagem, “talvez por causa da distância”, pensou o garoto.

“Bênção meus tios! Por que é que estão assistindo a televisão assim, de tão longe?”

“Deus o abençõe, meu filho!”

E puxando o braço do sobrinho, Tio Zé apontou o aparelho na sala e explicou: “nosso filho deu essa máquina, e falou onde apertava para ligar e desligar...”

“Tá certo, tio”

“E foi um presente danado de bom esse!”

“Foi mesmo, senhor”

Fez uma pausa, para depois continuar em voz baixa:

“Mas a máquina fala muito alto, meu sobrinho, então eu e a Fia temos que sentar aqui fora, longe desses gritos...”

Zequinha então compreendeu tudo. Os tios não tinham idéia de como controlar o volume do aparelho, mas, encantados com a novidade, não queriam deixar de assistir um dia que fosse. De imediato, entrou na sala e mostrou o que fazer aos tios, contendo o riso para não envergonhá-los. Aproveitou também para mostrar outras utilidades dos controles, tendo paciência para repetir todas as vezes que o tio pedia. Na cozinha, Tia Fia preparou um cafezinho novo, e o biscoito frito que o sobrinho tanto gostava.

Depois disso, já acostumados com o presente do filho, as noites na fazenda se tornaram mais alegres. E a cada vez que o filho retornava, Tia Fia tinha uma infinidade de assuntos para comentar: coisas que tinha visto nas propagandas e programas, os filmes de amor que assistia durante as tardes, e, principalmente, as imagens dos lugares que nunca tinha visitado, mas que povoavam seus sonhos desde a juventude. Tio Zé ouvia todos aqueles relatos em silêncio, muito quieto, cauteloso como sempre tinha sido, diante daquelas novidades da cidade.

E quando chegava a noite, os vizinhos sempre apareciam, para assistir o capítulo da novela das sete...




Nota: Este texto nos foi enviado para publicação pelo(a) próprio(a) autor(a), sendo aqui reproduzido com permissão. É de inteira responsabilidade do(a) autor(a), que detém sobre o mesmo todos os direitos autorais. Este texto não representa, necessariamente, a opinião das editoras e de outros autores deste site.


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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Promessa é Dívida

Lá pela segunda metade da década de 30, pelas bandas da Fazenda São Geraldo, na antiga Rio do Peixe, hoje Piracema, circulavam as carroças de rústicas rodas de madeira e também os carros de bois que transportavam os carregamentos de lenha, latões de leite, de cana de açúcar, de milho e outros mantimentos, além daquela gente que precisava se deslocar das fazendas para os povoados, ou para as cidades que existiam por perto. Era comum e uma verdadeira alegria quando havia algum festejo na vizinhança, nos lugarejos. As famílias aprontavam malas e matulas para se acomodarem nos carros de bois e seguirem em suas viagens.
Na semana santa era, então, uma viagem tradicional e muito especial. Havia muitos preparativos durante semanas que a antecediam. Roupa nova para toda a família, vestidos que eram costurados e enfeitados pelas moças, com todo esmero; latas e latas de biscoitos de polvilho, pães de queijo, roscas, broas, tudo preparado cuidadosamente nos fornos de barro. Preparavam um tipo de biscoito cozido e assado, muito cobiçado, que ficava bonito, brilhante e que, curiosamente, era feito só naquela ocasião, talvez por ser muito trabalhoso, ou sabe-se lá se por alguma crença em especial; doces caseiros, goiabada cascão feita em tachos de cobre, doces em calda de mamão, laranja da terra, doce de leite e não podia faltar o queijo fresco e o curado, queijos tipicamente mineiros; as carnes de porco embebidas na gordura talhada, além de todos os outros alimentos que sustentariam as famílias, durante uma semana, fora de casa. Tudo pronto e com o sortimento completo, pegavam seus colchões de palha e seguiam para a cidade, onde se instalavam em casas que mantinham para essas ocasiões, ou em casas de algum parente. Algumas pessoas seguiam o trajeto a pé, seguindo os carros de bois.
A estrada que ligava a fazenda à cidade era estreita, poeirenta e bastante irregular, segundo me contaram, foi aberta a golpes de enxadões. Por aquelas bandas, automóvel era desconhecido da maioria das pessoas.  Foi numa destas idas à cidade que Dalva viu, pela primeira vez, um automóvel. Ela era ainda uma criança e seguia a pé junto a alguns irmãos, acompanhando os carros de bois que transportavam a sua família, o que para eles representava uma grande aventura. De repente, Dalva avistou um automóvel que apontou na curva e que provavelmente também passava por ali pela primeira vez. A estrada era ladeada pelas cercas de arame farpado que dividiam terras e também serviam de limites para o gado. Quando ela avistou o carro, saiu em disparada, gritando assustada, passou por debaixo da cerca e se escondeu atrás de um cupinzeiro. Seus irmãos, sem entender nada, se apavoraram e cada um correu para um lado. Os bois se assustaram e os boiadeiros tiveram trabalho para contê-los. Era preciso encostar os carros de bois para dar passagem ao carro, mas tiveram que tocá-los ainda por um bom espaço, até que encontraram uma brecha na estrada estreita. De modo que aquele cortejo durou alguns minutos e na preocupação de resolver aquela situação, a família esqueceu-se da menina, que continuava acuada e escondida atrás do cupinzeiro.
Há alguns meses, Tia Dalva, já então com oitenta e quatro anos, assistia uma chamada na TV sobre corridas de Fórmula I e comentou: - Fico vendo estes carros de hoje, estas corridas malucas e fico pensando como as coisas mudaram nos últimos oitenta anos. Como a gente era atrasada e sem recursos. Ela lembrou-se da tal aventura com o carro e dizia entre risos que aquele foi um momento de pânico, do qual se lembrava perfeitamente. O carro preto pareceu-lhe um monstro e o seu maior pavor foi imaginar que ele não poderia parar quando se aproximasse dos carros de bois e assim passaria por cima de todos. “Por mal dos pecados”, ainda a deixaram para traz e ela não sabia o que fazer ali escondida e esquecida até que Lêda, sua irmã mais nova, lembrou-se de voltar para procurá-la e a encontrou chorando copiosamente. Lêda muito esperta fez com que Dalva acreditasse que ela se salvou por milagre, pois se não a tivesse encontrado e ela ficasse ali sozinha, quando escurecesse o enforcado Antônio do Tipêdra (uma outra história para contar) apareceria para ela e sabe-se lá o que poderia acontecer. Dalva ficou ainda mais apavorada. Lêda então fez com que ela prometesse fazer uma penitência durante a semana santa e oferecesse às almas o seu sacrifício. Foi logo sugerindo: - Você fica sem comer os biscoitos cozidos e assados que Mamãe distribui para nós e como fui eu quem te salvou, você aceita os seus e passa para mim, combinado?  Os tais biscoitos eram os preferidos de Lêda, e como só eram preparados apenas nesta época, seria uma boa oportunidade de se fartar deles.
As meninas voltaram e se reuniram ao grupo, prosseguindo rumo à cidade. Ambas ganharam alguns puxões de orelha de meus avós, pois estavam atrasando a viagem. Chegaram enfim à cidade e se acomodaram na casa da rua principal, bem perto da igreja matriz. Era o sábado que antecedia o dia da procissão de ramos, início da semana santa. Trouxeram da fazenda, ramos de alecrim, folhas de palmeiras e coqueirinhos, galhos de cipreste para a benção dos ramos. A família muito religiosa fazia questão de participar de todos os rituais e programações, mas para os mais novos, embora houvesse grande respeito, muitas coisas que aconteciam eram para eles pura diversão. Na procissão de velas acesas, divertiam-se queimando cabelos de quem ia à frente deles na fila, deixavam pingar vela derretida nos pés de outros, entre outras traquinagens.
Dalva, depois de passado o susto e o medo, pensava então em uma forma de negociar sobre a promessa da tal penitência. Não estava achando boa a ideia de perder seus biscoitos, mas de alguma forma teria que pagar a sua promessa. Chamou Lêda e então fez uma proposta: - vamos pensar em alguma coisa que agrade muito aos nossos pais e como recompensa pedimos mais biscoitos e doces e aí te dou os que eu prometi a você, mas os outros que ganharmos, nós dividiremos. O que acha? Lêda achou ótima a ideia e as duas passaram então a pensar no que fariam para merecer a recompensa.
No domingo acordaram cedo e saíram de casa em casa onde havia jardins e pediram aos donos que lhes dessem algumas flores. Elas recolheram tantas flores quanto puderam e em um quarto dos fundos montaram um lindo bouquet. Assim que terminaram esconderam-no até o momento da procissão, quando pegaram o ramalhete, se postaram em frente ao andor e fizeram todo o percurso da procissão, uma volta completa naquele pequeno lugarejo. No retorno da procissão à Igreja, depositaram as flores no altar. A família assistiu a tudo comovida e orgulhosa. De volta a casa, as meninas foram muito elogiadas por aquela bela atitude, mas ninguém falou em recompensá-las, como elas imaginaram. Foram dormir bastante decepcionadas.
No dia seguinte, ainda durante o café da manhã, elas aguardavam que o plano desse certo, mas nada aconteceu, os tais biscoitos não foram servidos a ninguém. Minha avó chamou por uma delas e disse-lhe que ela deveria ir à casa de uma senhora sua comadre, para entregar-lhe uma encomenda. Entregou a Dalva uma cestinha coberta por um pano bordado e ela se pôs logo a caminho, acompanhada por Lêda.  No trajeto as meninas perceberam que na encomenda estavam exatamente os biscoitos cozidos e assados - se entreolharam e sorriram com cumplicidade. Passado algum tempo retornaram e entregaram a cestinha vazia para minha avó. Perguntadas se a comadre gostou do presente, novamente se olharam e inusitadamente Dalva, já tremendo de medo de uma boa surra, sacou da resposta: - Ela nem viu os biscoitos. Tudo por culpa daquele carro preto que desceu a rua correndo atrás da gente e nós tivemos que correr e nos esconder. Eu caí, mamãe, e lá se foram seus biscoitos.
Enquanto isso, Lêda saiu de mansinho até o jardim, apanhou uma rosa e voltou para entregá-la à mãe. Essa, que nada tinha de boba ou ingênua, logo percebeu a artimanha da menina. Foi à cozinha, apanhou alguns biscoitos e os ofereceu às duas filhas. Elas apenas se olharam e saíram em disparada, com um baita enjoo, só de olhar para aqueles malditos biscoitos. Afinal, foram com muita sede ao pote e comeram mais do que podiam.
Só depois de algum tempo, em uma conversa com minha avó, é que as meninas souberam de sua intenção: oferecer os biscoitos a elas naquele momento foi apenas um teste, já que ela havia desconfiado daquela história que lhe contaram. Confessou que riu muito, mas disfarçadamente, e enquanto as meninas corriam desesperadas ela pensava: - Deixa estar, elas pensam que me enganam, mas a dor de barriga já está de bom tamanho!


Celêdian Assis de Sousa

Belo Horizonte - MG






Foto de acervo pessoal - Piracema (antiga Rio do Peixe) – primeiro automóvel da cidade   









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sábado, 10 de janeiro de 2015

UMA QUESTÃO DE NOME

Por Antonio Sodré

Clarice dizia que não buscava a beleza; buscava a verdade. Ainda que acredite que o nome quem faz é a pessoa, existe uma boa sonoridade, algo distinto e apreciável na junção de alguns nomes e sobrenomes. É que escritores – eu pensava - têm nomes difíceis, enigmáticos, simbólicos. É José, tão simples e belo, mas é Saramago. Poucos sabem que sem o “s” maiúsculo, o nome designa uma espécie de planta crucífera, ou seja, planta cujas flores têm corola em forma de cruz, como o agrião. Talvez exista um José Agrião em alguma parte, mas observem que mesmo que fosse um escritor respeitável, a sonoridade seria bem inferior. É Fernando, nome forte, expressivo, tanto quanto comum, mas é Sabino. E sabino é o nome de um antigo povo que habitava a Itália. Lembram-se do famoso “Rapto das Sabinas”? Pois é, mas o nosso Sabino continua sendo brasileiríssimo. Sim, continua, pois escritores não morrem, apenas ausentam-se dessa existência. Do mesmo modo, é Antônio, com ou sem acento agudo ou circunflexo, nome pelo qual tenho muita estima, mas é Calado. E entre os sentidos habituais da palavra, calado também é a distância entre a superfície da água em que uma embarcação flutua e a face interior de sua quilha. Um navio atracado está em calado. Soa, às vezes, irônico, pois Calado foi tudo menos calado. 
Alguns são atraídos pela tarefa de sondar a beleza por trás dos nomes, muitos adjetivados. Obras de teor lispectorante ou drummondiano atraem olhares curiosamente, porque nomes carregam marcas, insígnias. E muitas destas são atribuídas àlguma sorte, ou maldição. O nome Caim não é muito benquisto pelos pais... Por que será? E Lúcifer, portador da luz, não designa mais a sua origem. Satanás, o acusador, além do primeiro dono, só foi dado ao que me parece, ao perro da Bruxa do 71, Dona Clotildes. 
Se Clarice buscava a verdade, contextualizada na busca incessante de exprimir seu pensamento, sua verve literária, acabou por dar além de uma expressividade inconfundível, uma autenticidade imutável e incorruptível às suas obras, uma beleza encontrada apenas em suas histórias, em seus personagens, com nomes tantos e variados, incomuns como o nome da autora. Até hoje só conheci uma Macabéa... Tenho medo do nome Macabéa, talvez pela infeliz sorte da personagem, talvez porque é um nome sem sentido, de origem apenas onírica. Mas também me recorda uma estrela, um escarlate sanguíneo, uma redescoberta, catarse dessas que só quem conheceu Macabéa sabe.
Quem tem nome composto sabe a sina de se dirigir à muitas direções. Ora sou Antonio, o digno de apreço, o inestimável, ora sou Fernando, o ousado, o corajoso, ou em um tom mais austero e impessoal sou Sodré, de origem incerta, meio portuguesa, meio inglesa, sem sentido aparente, mas que causa até uma boa impressão; ou simplesmente, como sou menos conhecido, sou Júnior, o mais jovem entre duas pessoas. Nesse caso, entre três pessoas; o Júnior é a parte menos habitual de mim. Com os quatro nomes que possuo, posso fazer boas combinações, mas o que me agrada é que de tantos nomes, eu posso escolher ser o Antonio ou o Fernando que quiser, ou pelo menos tentar... Mas meu nome por muitas vezes assume outras nacionalidades, encarna outros gêneros, famílias, e me desafia. Que enquanto o texto não está pronto, eu sou o mote de sua criação, e me chamo por vezes Patrício, Espanca... Hoje eu fui completamente Lispector, numa dessas tantas outras licenças poéticas, que eu sei que vestindo um nome, é apenas mais um eu que pede para existir.



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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O Valor dos Sonhos


Por Celêdian Assis de Sousa

Caía a tarde, já se pintava no horizonte uma aquarela de belos tons, sol desmaiando lentamente, trazendo as cores de fogo, sob os azuis que aos poucos, acinzentavam-se. Cenário perfeito para ele, aquele ancião, que da varanda, em sua cadeira de balanço embalava seus pensamentos e alimentava a sua sabedoria.
Já fazia parte de sua rotina diária sentar-se ali e meditar sobre a beleza que existe nos contrastes, dos sóis e luas, das cores da vida. Não raro passava por ali uma menina faceira, que lhe interrompia os pensamentos. Ela, esperta e curiosa, sempre sorridente parava para cumprimentá-lo e para fazer-lhe perguntas sobre as coisas mais triviais, o que sempre rendiam boas conversas. Ela, com a natural simplicidade de criança, o levava a transportar-se para o mundo de fantasias.
Nessa tarde, a menina chegou, abraçou-lhe e contou-lhe algumas façanhas do dia, o que ele ouviu atentamente e ao final sorriu um daqueles sorrisos ternos, que pareciam consentir que ela o transformasse em criança. A conversa enveredou-se entre muitos temas, até que de repente, sem nenhum embaraço ela pergunta ao ancião:—O senhor acredita em Papai Noel?—A pergunta tomou-o de súbito espanto, mas tão logo se recuperou, tomou-lhe as mãos, olhou-a com ternura e começou a contar-lhe uma história:

—Quando eu era ainda um menino, esperava pelo dezembro com muita ansiedade. Eram dias nos quais eu me sentia muito feliz. Não havia luzes coloridas enfeitando as casas, como as de hoje, mas havia sempre no canto da sala a árvore feita de galhos de pinheiro, com as bolas multicores e era como se cada uma delas guardasse os meus sonhos. A família parecia transbordar de amor e uma alegria incontida tomava conta da casa. Meus pais davam a mim e aos meus irmãos, sapatos novos, logo no início do mês e diziam que deveríamos guardá-los até a noite do Natal, quando então os colocaríamos na janela, para recebermos os presentes que Papai Noel nos traria. Por muitos e muitos anos eu acreditei que Natal significava “dia de ganhar presentes”. Pois bem, eu crescia e assim como você agora, passei a perguntar-me se Papai Noel existia. Muitas vezes fiquei em dúvida, pois eu convivia com outras crianças e algumas nunca ganhavam presentes, na casa delas não havia sapatos novos para se colocar na janela e seus pais às vezes, não se importavam com Natal. Eu só entendia que aquilo não era justo e se ele existisse mesmo, não se importaria de deixar presentes, mesmo que não houvesse sapatos na janela, ou árvores na sala. Foi daí que comecei a pensar no verdadeiro significado do Natal e fui crescendo até envelhecer, sempre pensando e agora me vejo aqui diante de você elaborando a resposta para a mesma pergunta, a mesma que fiz a mim a vida toda. Então eu lhe digo: eu acredito em Papai Noel, pois ele tem me dado um presente a cada dezembro, que me sinto vivo. Entendi que não preciso dos sapatos novos e nem preciso receber caixas com laços de fitas, apenas preciso sentir a presença dele na minha imaginação, esperando sempre por ele, esperando que haja um próximo dezembro. Presente significa receber da vida o que é fundamental para te fazer feliz, e em cada momento dela descobrirmos o que é realmente importante para nós. Então minha linda menina, saiba que, nesse Natal já recebi o meu presente e você é o meu Papai Noel. Este sorriso que me trouxe, o abraço terno e sua meiguice de criança fazem com que eu me sinta vivo e de novo feliz, como nos tempos de menino.

A menina sorveu cada palavra e entendeu que Papai Noel existe e que ele é o próprio presente, o que escolhemos para manter viva a magia dentro de nós.




Nota: este texto faz parte do ebook natalino a ser lançado muito em breve no site do Projeto Quintextos.

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sábado, 20 de dezembro de 2014

O Nascimento

Por Soraya Souto

Eles seguiam devagar em meio à agitação febril da rua. Destoavam das pessoas apressadas que entravam e saíam das lojas, carregando sacolas de presentes com as últimas compras natalinas. O seu ritmo mais lento de caminhar parecia incomodar um pouco os outros, que aceleravam o passo para ultrapassá-los como se tivessem receio de lhes tocar.

Depois de dias procurando emprego naquela cidade, tinham sido obrigados a deixar a pequena pousada onde estavam, e saído à procura de um outro lugar para ficar. O homem amparava a mulher grávida, oferecendo-lhe apoio a cada parada, e um sorriso de incentivo quando recomeçava a caminhar.

Desde aquela manhã ela sentia dores, e estava assustada com a proximidade do nascimento do seu primeiro filho. Já era quase meia noite quando ela pediu para parar.

Olhando em redor, ele a conduziu através de algumas caixas de madeira, e palets abandonadas, na entrada de um beco próximo. Rapidamente ele improvisou um abrigo, esmagando algumas caixas de papelão grandes para ela ter onde reclinar-se. Depois empilhou caixas contra o vento frio e o ruído que vinham da rua. E algumas sacas velhas, rasgadas, emprestavam alguma intimidade àquele recanto do beco onde, ele sabia, o milagre da vida não demoraria a acontecer.

O dia terminava, e a escuridão trouxe consigo uma pequena fogueira que alguém acendeu. Pouco depois, uma velha senhora surgiu oferecendo uma tigela de sopa. Aos poucos, outras pessoas que ali se abrigavam foram aparecendo. O pequeno beco revelava-se, agora.

Uma luz fraca acendeu-se, numa janela alta, iluminando mais um pouco. De uma porta que se abriu, dos fundos de um restaurante, vieram toalhas limpas. De algum outro lugar, uma velha manta de lã somou-se ao momento.

Enquanto isso, na rua as pessoas passavam indiferentes, desconhecendo o que ali se passava, e a harmonia fraterna que se estabelecia, como um laço natural entre os que dividem dores e dificuldades. Quando a hora do nascimento chegou, deram-se as mãos silenciosamente, em uma expectativa sincera pela nova vida que acontecia.

O bebê chegou com os primeiros raios do sol, e seu choro alto e forte ecoou pelas paredes do beco. Foi colocado em uma pequena caixa de papelão, sob os olhares dos pais felizes e emocionados.

E quando os sinos da igreja, na rua ali ao lado, convocaram os fiéis para a primeira missa do dia, os moradores do beco já estavam ajoelhados e fazendo uma prece pelo pequeno recém-nascido, que trouxera consigo a alegria da vida, e reunira em si as esperanças de tantos com bom coração.

Era Natal novamente.




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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Papai Noel


Por Henrique Mendes

Alguém de espírito previdente me enviou um cartão de Natal que já chegou. Por dentro há uma meia dúzia de linhas, com os melhores votos de “boas festas” de um antigo amigo. Por fora, uma imagem deliciosa dumas casinhas cobertas de neve muito branca, com meninos brincando na rua e fumaça saindo pela chaminé.
Sorrio, tocado pelo gesto desse amigo de sempre. Depois de tantos Natais em silêncio, e de tantos outros cumprimentando-me apenas por telefone, resolveu enviar-me um cartão à moda antiga, pelos correios. Reli o texto, e depois voltei à imagem.
Toda a paisagem por trás das casas é uma mata em verde escuro, onde todas as árvores são árvores de Natal, enfeitadas com bolas multicolores, estrelas e luzinhas acrescentando brilhos. Nos céus, lá ao longe, muito pequenino, vem um trenó puxado por renas, com um Papai Noel bem gordinho de braços abertos, como se quisesse, num gesto de plena alegria, abraçar o mundo.
Claro que este é um cartão igual a tantos outros, baratinho, que se pode comprar em qualquer lojinha da cidade. Mas, para mim, recebê-lo foi uma coisa muito especial, que me fez lembrar do tempo em que eu e precisamente aquele amigo que mo enviou brincávamos na porta de casa fazendo bonecos de neve e construindo trenós, que queríamos velozes —tão velozes como imaginávamos que era o trenó de Papai Noel.
Brincávamos na neve, rindo sem parar, até que os nossos dedinhos de criança ficassem roxos de frio, numa espécie de licenciosidade que mães e avós reservam a esses dias, em que a natureza se veste de branco para, mais uma vez, nos conseguir deslumbrar e surpreender.
E dentro de casa havia a lareira acesa, com a meia pendurada, a árvore de Natal cheia de luzinhas e enfeites de todas as cores, as guirlandas nas portas, com as bagas vermelhas de azevinho, as caixas dos presentes dos adultos, ricamente embrulhados, música da época, enfim, todos os detalhes que compõem a mística do Natal.
Havia aquela expectativa imensa, quase palpável, para ver se as cartas que tínhamos escrito para Papai Noel muito tempo antes, com as listas dos presentes que mais desejávamos, tinham sido atendidas —e se os presentes eram aqueles que tínhamos pedido.
De tudo isto me lembrei ao receber este cartão do meu amigo. E agora estou aqui pensando que eu mesmo ainda não fiz nada. Nem lhe mandei um cartão, nem lhe escrevi, nem lhe telefonei, enfim: nada.
Na verdade, custei a arranjar tempo para montar uma árvore de Natal em casa, para que a época não passe despercebida. Mas ainda bem que o fiz, pois este cartãozinho tão simples, que o meu amigo me mandou, veio mostrar-me como é importante cuidar destes pequenos detalhes.
É preciso mantê-los vivos para que a tradição não se perca, e perdure o costume de um dia no ano —pelo menos um dia, no ano —as pessoas olharem o mundo com mais alegria, com mais carinho, serem mais atentas aos detalhes da vida e aos outros, e desejarem-se mutuamente felicidades por se quererem bem. E, por se quererem bem, partilharem mais, dividirem melhor, não apenas os bens materiais, as coisas palpáveis, mas também a ternura e o afeto, bem como a atenção e a alegria. E se, para isso, for necessária alguma imaginação —tanto melhor.
E se ao cuidar dos detalhes e de tudo o que é necessário para conservá-los, fizermos nascer, ou até aumentarmos, o folclore que rodeia a quadra Natalina, isso será excelente. Porque isso é a verdadeira cultura, perpetuando-se, levando-nos a ser capazes de conviver com valores que, apesar de se apoiarem em sonho e fantasia, não podemos deixar nunca que sejam menos reais.
Olho novamente o pequeno cartão que recebi, meio anacrônico nos dias de hoje, meio fora de moda, mas desta vez olho-o com um novo respeito.
Talvez tenhamos de fazer algumas concessões, algumas adaptações, não sei bem.
Talvez seja difícil imaginar Papai Noel descendo pela chaminé para entregar os presentes, quando hoje moramos em apartamentos onde não há chaminés.
Talvez os meninos daqui da cidade estejam certos, quando falam das renas como sendo veadinhos. E é claro que não sentem o menor entusiasmo com o trenó, que não tem rodas e só é capaz de escorregar numa tal de neve, que nunca ninguém viu.
Talvez Papai Noel tenha de vir de charrete. De carroção puxado por bois dourados... e de bermuda, por causa do calor...
Mas, ainda assim, valerá a pena !


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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Casamento

Por André Aranha


João acordou com seu pai entrando no quarto fazendo festa e abraçando-o. Ainda tonto pelo sono, não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo até seu pai lhe mostrar o jornal do dia dizendo-lhe que havia sido aprovado para o curso de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Fim do Mundo. Naquela época cada universidade fazia sua própria prova e só haviam três formas de ficar sabendo da aprovação. A primeira era esperar a universidade liberar a lista e lutar contra a muvuca para tentar procurar o nome no meio. A segunda era escutar a lista dos aprovados na rádio universidade, que no fim das contas levava uma eternidade. A terceira e última era esperar a lista sair no jornal da cidade. Desligado como era, não sabia com exatidão quando o resultado sairia.
Na semana seguinte João correu atrás da documentação e fez sua matrícula junto com seu amigo Almeida, que também tinha sido aprovado para o mesmo curso. Os dois estavam empolgados para cursar a disciplina de programação de computadores, área em que ambos já tinham um certo conhecimento, dado um tal de MSX que existia na época. Na verdade foi o MSX que os aproximou. Iam juntos para a universidade. Ter que pegar dois ônibus para chegar lá não os desanimava. Depois de ter conhecido o professor deram uma certa desanimada. Parecia que o professor não tinha uma experiência séria na área. Certo dia depois iam atrasados para aula, pois perderam um tempão mexendo no computador novo de Almeida, um tal de 386 DX com tela SVGA, o top de linha da época que poucos tinham o privilégio de ter. Iam calmamente na caminhada de uns trezentos metros entre o ponto de ônibus dentro da universidade e a sala de aula. Estavam uns cinquenta minutos atrasados de uma aula de uma hora e meia quando Almeida perguntou:
—Quando é a primeira prova de programação de computadores?
João olha pro céu tentando lembrar o dia. Olha para Almeida e responde:
—Puta que pariu, é hoje!
Os dois saem em disparada. Chegaram e só tiveram meia hora para fazer a prova. João conseguiu ainda tirar seis. No fim da disciplina ambos acabaram aprendendo que tinham que responder na prova o que o professor queria ler e não o que a experiência tinha ensinado para eles. Foi assim em várias disciplinas.
Já no último semestre João se candidatou para fazer mestrado em três universidades. Duas em São Paulo (Unicamp e USP) e uma no próprio Fim do Mundo, mas no departamento concorrente de seu curso. Foi aceito nas três, mas decidiu ir para a Unicamp, pois era a mais famosa do Brasil. Vendeu o carro velho que o pai lhe dera durante a graduação e foi para lá com a cara e com a coragem. Lá descobriu que o professor da disciplina deixava apenas as alunas orbitarem à sua volta. Outros corpos celestes eram repelidos com violência. Desanimado, ficou lá só para receber uma ajuda de custo dada pela própria universidade e foi para a USP, universidade que a sua falecida mãe sonhava para o filho.
No primeiro semestre na USP João percebeu como seu curso tinha sido fraco; matemática demais e engenharia de menos. Ralou bastante e no fim do semestre conseguiu uma nota A e duas notas B nas três disciplinas que fez. Nada mal para quem se formou no Fim do Mundo. Também no fim do semestre João se mudou para um apartamento de dois quartos que ficava em frente a USP e que iria dividir com um amigo. Não aproveitou muito o novo apartamento após a mudança porque coincidiu com as férias e foi visitar a família no Fim do Mundo. João não sabia o que o esperava em seu retorno.
Trinta dias depois estava de volta. Quando chegou, seu amigo mencionou a vizinha do andar de cima, mas como tinha namorada não deu muita atenção. Dias passaram e um dia, ao voltar da universidade, encontrou-a conversando com seu amigo no apartamento. João e a vizinha se apresentaram.
—Oi, eu me chamo Débora.
—Prazer. João.
Débora era branquinha, tinha cabelos cacheados e era baixinha. Usava óculos, o que lhe dava um ar de intelectual. Era o que o povo chamava de mignon. Nada foi dito no dia, mas se pudessem olhar um dentro do peito do outro veriam que se atraíram como dois imãs gigantes com polos distintos. Além disso, Débora tinha uma característica ímpar, conseguia cativar facilmente todos ao seu redor. Na verdade era um dom, o qual pouquíssimas pessoas têm.
Resistiram. Tentaram ser amigos, mas assim como um avião só consegue resistir à gravidade enquanto tem combustível, acabaram cedendo. À medida que o tempo passava, a vontade crescia como tinha que ser, já diria Renato Russo. Ao final de dois anos namorando foram morar juntos.
Débora trabalhava durante o dia em um escritório de advocacia. O trabalho era puxado, mas como morava próximo ia sempre almoçar na casa da mãe. Ela cuidava da alimentação. Não com exagero, só não era chegada em comer porcaria. Gostava de comida, e muito. Com isso e com um pouco de ajuda da genética matinha seu belo corpo sempre em forma.
Como João morava no andar de baixo ela sempre passava por lá antes de ir para casa. Certo dia de maio ela entrou no apartamento de João e ele estava conversando com sua mãe. Os dois se davam muito bem. A “sogra” costumava dizer que João era o genro que ela mais amava, e considerando que Débora tinha apenas um irmão, isso não deixava de ser verdade. Débora beijou o namorado e a mãe, como de costume, quando João entregou a ela uma pequena caixa preta com uns dez centímetros de largura. Ela abriu e exclamou:
—Brincos de argolas. Que lindos!
João sorri e lhe diz:
—Olhe direito.
Débora olha a caixinha com mais cuidado. Treme e derruba “os brincos”. Ela os recolhe, pula e ri de alegria. Eram, na verdade, alianças. Enquanto Débora extrapolava sua felicidade, ao lado de João a mãe chorava. Sabia que o “genro” amado iria levar a filha do coração para o Fim do Mundo. Decidiram se casar em menos de um ano. Ele bolsista e ela assistente em um escritório, não tinham muita saúde financeira para bancar um super casamento, mas fizeram o que puderam. Contrataram uma recepção para 50 pessoas: familiares e amigos mais próximos. Pagaram o fotógrafo, a decoração da igreja, a gráfica para os convites, a musicista para a igreja e o vestido da noiva. Quase tudo a prestação. Não tinham riqueza financeira, mas tinham algo muito valioso, amigos, que os ajudaram bastante.
No final do ano em que ficaram noivos os dois foram para o Fim do Mundo. Ela iria finalmente conhecer a família dele. Quando chegou no saguão do aeroporto se sentiu um bichinho de zoológico com muitos olhos a analisá-la. Aos poucos foi se acostumando com o jeito esquisito da família dele. Eles fizeram pressão para adiar o casamento. Diziam que era muito cedo, que João só tinha estudado, que precisava ganhar dinheiro. Até o dia em que João se encheu e disse:
—Vai ter casamento e pronto. Larguem de encher o saco!
Acho que João ganhou alguns pontos com Débora, já que ela própria já estava considerando adiar o casamento. Fora a pressão, como diria Carlos Drummond de Andrade, havia uma pedra no meio do caminho. Na verdade duas pedras. Essas duas criaturas, se pudessem, furariam os olhos de Débora e os sugariam com canudinho. Uma das pedras tentou fazer uma emboscada no casal alegando que queria dar uma surra em Débora. A eficiência da comunicação via molecular (“moleque lá”, para os entendidos) frustrou a ação da dita cuja. A outra pedra usou uma abordagem diferente, eu diria que uma abordagem menos agressiva, porém mais traiçoeira, pois tentou ser sua amiga, mas esperta do jeito que Débora era essa tentativa não deu muito certo.
Ao final de dois meses de aventuras e desventuras no Fim do Mundo, Débora voltou para São Paulo para terminar os últimos preparativos para o casamento que seria no dia 10 de março de 2004. Chegou em casa e contou tudo o que viveu para sua mãe como sempre fazia após ficar algum tempo sem vê-la. As duas se entendiam, eram mãe e filha, eram irmãs, eram amigas. Débora descansou um pouco da viagem e começou os preparativos para o casamento no dia seguinte.

* * *

Chegou o dia. Após um dia de noiva maravilhoso, com maquiagem, cabelereiro e tudo que uma noiva merece, Débora se dirigiu para a igreja no carro de um casal de amigos que conheceu através do futuro marido. Ao chegar na igreja descobre atônita que alguém está faltando. Com o coração acelerado pensa que é o noivo. Para seu alívio descobre que o noivo está lá. Ironicamente, quem está faltando é o padre.
—Ai meu Deus. Cadê o bendito padre?
Não tendo outra alternativa, o carro vai dar umas voltas por São Paulo. Vinte minutos depois ela está de volta. O padre, que havia sofrido um contratempo pela pressão alta, já estava na igreja à sua espera. Débora desce do carro. As portas da igreja se abrem e a marcha nupcial começa a ser tocada. João olha para a porta e se deslumbra com a noiva. “Como ela está linda!”, João pensa consigo mesmo. Débora sorri de orelha a orelha e começa seus passos em direção ao altar ao lado do irmão, que iria entregá-la ao noivo quando lá chegasse. A cerimônia é linda; o padre diz belas palavras de incentivo. Emoções aliadas à música e ao clima de felicidade da igreja levam alguns convidados às lágrimas. A recepção é calorosa e divertida. A comida estava excelente. Os docinhos então, nem se fala. Ao abrir o champanhe um amigo do noivo grita:
—Mira na sogra! Mira na sogra!
Após a cerimônia inesquecível os noivos partem para o hotel onde passariam a noite. Dois dias depois voltariam para o Fim do Mundo, onde o marido seria aprovado em um concurso público. Débora realizaria seu sonho e se formaria em Pedagogia, terminando por dar aulas em uma faculdade particular. Seu marido cresceria na profissão. Ambos compram seu primeiro imóvel. Não era o imóvel dos sonhos, mas era o que podiam comprar. De qualquer forma estavam felizes por finalmente terem seu canto. Algum tempo depois João arrumaria um trabalho na Inglaterra e a levaria para morar em Londres onde Débora aprende inglês. Os dois viajam pela Europa tendo a lua de mel que na época do casamento não puderam ter. Conheceram a França, Portugal, Itália e Alemanha. Na França viveram o romantismo. Em Portugal, a gastronomia. Na Itália foram roubados. E na Alemanha conheceram a encantadora Little Bee, ou abelhinha, que ouvia em Português com atenção, contudo respondia em Alemão. Era o que se chamava de comunicação unidirecional, mas isso não importava de verdade, no final das contas o que importava mesmo era o amor que aquela criaturinha conseguia emanar; nisso a comunicação era nas duas direções, e, ao mesmo tempo. Era o que se chama na engenharia de comunicação de full-duplex. Foram dois anos incríveis que ambos não queriam que acabasse.

* * *

Débora acorda em um quarto branco que não reconhecia. Ao se virar, vê que uma pessoa lê o jornal do dia próximo a sua cabeceira. Débora olha para a data no jornal e lê 10 de março de 2014. Ainda tonta e meio desorientada ela senta na cama. A pessoa que lia o jornal ouve um ruído e olha em sua direção. Era sua mãe. Cambaleante, Débora tenta se levantar. A mãe se aproxima e a abraça. Feliz de estar com a mãe e sentada na cama começa a lhe contar o que viveu no tempo em que não a viu. A mãe ouve tudo em silêncio. No final da história segura a mão de Débora que vê a aliança em seu dedo e imediatamente pergunta:
—Mãe, cadê o João?

A mãe, com um olhar compadecido, pensa se deveria recordar à filha, ou não, que João havia morrido num acidente de avião, justamente quando vinha para o casamento.






Nota: Assumimos que este texto se trata de ficção, ou seja: não se refere a pessoas e fatos do mundo real nem emite sobre eles juízo ou opinião. Ele nos foi enviado para publicação pelo(a) próprio(a) autor(a), sendo aqui reproduzido conforme o original recebido. É de autoria e inteira responsabilidade do(a) autor(a), que detém sobre o mesmo todos os direitos autorais. Este texto não representa, necessariamente, a opinião das editoras e de outros autores deste site.

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terça-feira, 30 de setembro de 2014

As flores de plástico não morrem

Por Meriam Lazaro

O tempo quando quer, corre mais que coelho. Não era o caso agora, em que lhe faltavam horas, dias, meses e os ponteiros permaneciam parados. Na antessala, imaginava o paraíso. Lis seria o seu nome!... Ganharia canção de ninar trazida por um pássaro. A ave negra abriria as asas se transformando em uma esfera azul dançante. Como quem invoca a proteção dos quatro elementos, a ave soltaria cada trinado mais belo que o outro, atraindo as bênçãos celestiais: fecundidade, elegância, pureza! Depois viriam as ninfas do velho arroio dilúvio para acrescentar: beleza, atração, perfume! Que mais poderia querer uma futura e orgulhosa mãezinha? E não é que houve a intromissão dos seres da floresta que exigiram pagamento em troca daquelas qualidades?! Para gozar de fecundidade e beleza, sua pequena Lis deveria passar pela dor; em nome da elegância e atração lhe seria exigido sacrifício; pela pureza e perfume teria que lidar com a incerteza do destino. Quem iria querer ver a luz de um mundo assim? Antes que o espírito do fogo se manifestasse, decidiu apelar: — Vocês, que vieram do início da evolução do homem, poderiam anular a dor, o sacrifício e a incerteza profetizados pelos gnomos? Labaredas do tamanho de uma árvore se manifestaram: — Sim. Mas para não sofrer há somente um meio, se você concordar. — Faço qualquer coisa! Atalhou a mulher, já sem dor alguma. Com estrondo de trovão, a Salamandra bradou: — Digo-lhe então que sua flor não morrerá jamais! A eternidade se precipitou... No hospital, o médico recomendou à enfermeira que despertasse a paciente da anestesia. Antes da volta para casa, seus pais haviam se desfeito do berço, enxoval, brinquedos e tudo mais que pudesse despertar na filha a tristeza pelos sonhos perdidos. Esquecido num canto do teto, um móbile zombava desse cuidado. Feito de plástico, pequenas flores-de-lis giravam e giravam embaladas pela canção dos Titãs: “A dor vai fechar esses cortes. Flores. Flores. As flores de plástico não morrem”.




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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O MUNDO


Por Heitor Herculano Dias
Casimiro já estava pra lá de acostumado. Ia chegando o final de semana e lá vinham as mesmas gozações com a casa da Silvinha. Na verdade, as brincadeiras do pessoal de casa não eram propriamente com a Silvinha, sua namorada firme  de mais de três anos. Com o que Cristóvão, o mano mais velho, e Isabel, a caçula, reforçados pela prima Katia Cristina implicavam era o endereço da Silvinha.
− Morar de frente pro cemitério, Casemiro? Pelo amor de Deus! – lá vinha o refrão do Cristóvão liderando a turma assim que o via de banho tomado, camisa passada pela mamãezinha, prontinho pra zarpar ao encontro da amada. Bastava Casemiro dar o clássico “tchau, mãe”, e logo explodia às suas costas o coro de “Abre o olho com o vampiro, hein! Se cuida, Casemiro, olha a caveira!”  E retumbavam os “quá-quá-quá” mesclados aos “Cô, loco, meu!” do Cristóvão lá da sala, inveterado telespectador do Domingão do Faustão. 
Mas ele não se aborrecia. No início até que se encrespara com Cristóvão, chamara-o de incruado, pior que solteirona frustrada, barrigudo e outras coisinhas tais que, felizmente, por obra e graça de Nossa Senhora Aparecida, no dizer de dona Esmeralda, nunca afetaram a união e o amor entre seus filhinhos. Casemiro saia imaginando como seria bom se não dependesse daquele ônibus circular para chegar à casa da namorada. Afinal de contas, raciocinava, era só um trajeto de uns dez minutos, no máximo. O coletivo circundaria uns poucos quarteirões em volta do tal cemitério, para deixá-lo praticamente na porta da casa da Silvinha. Ele sempre foi preguiçoso para longas caminhadas, mas às vezes chegava a imaginar que seria mais prático dar um trabalhinho às pernas, pelo menos nos dias de namoro, e atravessar todo o cemitério saindo bem em frente à residência da futura noiva. 
Casemiro jamais comentou com Silvinha qualquer coisa a respeito dos bombardeios piadísticos em casa. Seria falta de tato, julgava, um desrespeito à família da namorada, pois afinal de contas casa própria é casa própria, não importa onde. Bom, mas chegou um sábado em que dona Ivete, a futura sogra, comemorava seus bem vividos sessenta anos. Daí que a sessão de amassos do casalzinho de namorados na varanda teve que ser aditada com a reunião de toda a família em volta da mesa da sala para o "Parabéns pra Você".
− Bem, prova um olhinho de sogra.
− Mais um pouquinho de guaraná, meu filho? 
Nessas e outras, quando Casemiro se deu conta: quase meia-noite, e foi Silvinha quem deu o alarme. 
− Benzinho, não tem mais ônibus a essa hora! E agora? 
Dormir ali, na casa da namorada? Nem imaginar tal sugestão. Casemiro e Silvinha trocaram olhares significativos a respeito da impossibilidade de tal proposta ser sequer votada em plenário. O jeito, pois, seria ele voltar pra casa a pé. Chegara afinal o dia em que Casemiro iria mesmo se submeter a uma boa caminhada, que afinal de contas só poderia lhe fazer bem à saúde. Não desejava ficar igual ao Cristóvão, pouco mais de trinta anos e já com aquela respeitável barriguinha. 
Feitas as despedidas dos sogros e trocados os últimos beijinhos e apertos no portão, Casemiro  deu início ao trajeto de volta pra casa. Poderia escolher entre duas opções, calculou. Caminhar pelo menos uns oito longos quarteirões, subir uma ladeirinha, para depois desembocar logo em sua rua. Mais ou menos como se andasse num semi círculo contornando o cemitério, cujo muro estava bem ali, do outro lado da rua e de frente para a casa da Silvinha.  Se se dispusesse a cruzar o cemitério, andaria, brincando, brincando uns vinte minutos a menos. 
Por que não tentar essa variante? Medo de quê? “Tenho medo é dos vivos!”, sempre foi seu bordão preferido quando em conversas a respeito  de mortos e cemitérios. Casemiro então se decidiu. Havia uma entrada do cemitério logo adiante, que, se não lhe traía a memória, ficava sempre aberta, mesmo à noite. Com efeito, o velho portãozinho de ferro enferrujado tinha uma de suas bandas pendentes, quase se despencando em meio ao capinzal. Escuro, totalmente, até que não estava, constatou satisfeito Casemiro logo aos primeiros passos, observando a aleia central iluminada pelas lâmpadas de dois postes, ainda que fraquinhas. E se fosse escuro, preto assim que nem breu? Ele era um homem, ou um rato? Caminhava conjecturando. O que as pessoas tinham era preconceito, superstição contra os cemitérios, pois afinal de contas é pra debaixo da terra que todos têm que ir, mais dia menos dia. Até mesmo aquela senhora que ia lá adiante! Deduziu Casemiro ao avistar  o perfil feminino a caminhar lentamente pela estreita pavimentação da via central, aparentemente sem demonstrar pavor algum. Em poucos minutos, seus passos, mais longos do que os da avistada caminhante, colocaram-no lado a lado com esta, vista assim de perto uma mulher bem idosa trajando saia comprida e um leve casaquinho de lã que deixava aparecer a blusa de gola alta e abotoada. Tinha os cabelos brancos presos num coque, e sua mão esquerda abraçava um grosso livro de capa escura. 
Já então, lado a lado com a tranquila caminhante, Casemiro a saudou com respeito: 
− Boa-noite, minha senhora! 
− Boa-noite, meu filho – a resposta foi cordial, simpática. 
Pressentindo que seus passos de mais jovem logo a deixariam para trás, refletiu contudo que pelo menos por uma questão de cortesia não lhe custaria nada diminuir as passadas e seguir andando ao lado daquela humilde senhora. Não seria por isso que ele se atrasaria tanto assim, pois a saída do cemitério estava logo lá adiante. 
− Hmmm..., bonita noite, não? – arriscou um princípio de conversa, correspondido pela ocasional companheira de caminhada. 
− É sim, meu filho. Fresquinha, né? 
− Pois é, ‘tou voltando da casa da minha noiva. Imagine a senhora que perdi o último circular.
− Oh, pena, não? 
Foi quando ele arriscou a pergunta de praxe:
− Desculpe-me por perguntar, mas a senhora não tem medo de andar por aqui sozinha, neste cemitério, à noite? 
A velha senhora deu um risinho divertido e de certo modo superior antes de responder. 
− Medo? Eu? Que nada, meu filho. Medo, só quando eu vivia no mundo!!!
Casemiro nunca soube explicar como adquiriu tanta força e presteza pra correr mais de uma centena de metros sem sequer olhar para trás, nem preocupar-se com buracos, sepulturas ou quaisquer eventuais obstáculos. Somente após uns dois copos d’água e uma enxurrada de “Calma! Calma! Já passou!”, conseguiu narrar melhor o ocorrido no campo santo. Verdade que, proporcionalmente à desaceleração de suas batidas cardíacas, cresciam as risadas e gozações comandadas pelo mano Casimiro, apesar dos reclamos piedosos de dona Esmeralda em favor do ainda apavoradíssimo filhinho. Coube a Isabel, assim que a saraivada piadística em cima do assustado irmão arrefeceu, pedir a palavra para a explicação definitiva do motivo de tanto susto: 
− Oh, Casemiro, deixa de ser boboca! Se apavorando assim à toa e assustando mamãe! Aquela velhinha é uma crente que mora aqui na rua mesmo.   Sei quem é! Ela quis dizer que agora só vive pra Cristo. Os evangélicos chamam de mundo tudo o que não interessa mais a eles depois que se converteram. Ouviu, Zé Mané? 
Mas, por essas e outras, Casemiro foi obrigado a promover uma revisão drástica em seus horários de visitas de fim de semana a Silvinha. Por mais gostosinho que estivessem os beijinhos e apertões, nada de despedidas pra depois das dez! 
− Ah, benzinho, fica mais um pouquinho só... 
− Eu, amor? Nem morto!





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