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domingo, 15 de dezembro de 2024

Confraternização Natalina

Por Helena Frenzel


Cinco minutos para as seis e elas ainda não haviam encontrado o local. Iam seguindo o navegador meio que desconfiadas, pois lhes parecia pouco provável que houvesse ali um restaurante (no meio de todo aquele mato) naquele rincão de autoestrada. E antes que tivessem a certeza de que estavam por certo no caminho errado, pequenas luzes denunciaram que havia (sim) uma grande casa no final daquele percurso. Estava muito escuro já àquela hora naquele dezembro tão frio, e só contavam com as luzes dos faróis do carro. Acharam que finalmente haviam encontrado o lugar, pois havia muitos veículos estacionados por toda parte e elas demoraram um meio minuto para encontrarem uma vaga.

 

- Lugar mais estranho esse para se fazer uma confraternização, né? - disse Fernanda. 

- Sim, é estranho, mas parece que o chefe já está aí. - disse Maria, apontando para o carro com o nome da firma estacionado do outro lado. 

- Será que já chegaram todos? - disse Fernanda, ao mesmo tempo que prestava atenção a quem vinha descendo de um carro que acabava de parar a poucos metros do estacionamento. 

- Parece que é a Mariane. Não sei dizer direito porque está muito escuro - disse Maria, fechando a porta do carro e ajustando o gorro à cabeça, para proteger as orelhas. 

- É ela sim! - concluiu Fernanda quando as duas iam caminhando em direção à mulher que havia descido do carro e agora se despedia de quem estava ao volante.

- Tá bom, até mais tarde! - disse ela, e o carro se pôs em marcha e começou a voltar pela estradinha esburacada de terra por onde tinha vindo.

- Boa noite! - disse Fernanda, se aproximando. 

- Ah, Fernanda! Oi, Maria, boa noite! Não estava ainda certa de que era esse o lugar. É aqui mesmo?! - disse Mariane, também estranhando a escolha do local.

- Pensamos a mesma coisa, - atalhou Fernanda - lugarzinho estranho pra se fazer uma confraternização natalina, não é não? E logo numa sexta-feira treze, repararam? Dei tantas voltas pra chegar aqui que comecei a duvidar da seriedade do GPS. Espero que pelo menos a comida seja boa, pra compensar a viagem!

- Deve ser sim! Parece que o chefe é amigo do dono. - disse Mariane ajustando o gorro e pondo-se a caminho ao lado das colegas.

 

         Iam conversando enquanto buscavam a entrada do restaurante. Maria olhou ao redor e ficou tentando imaginar como se veria aquele lugar durante o dia, pois o estacionamento era enorme e havia muitas plantas espalhadas pelo terreno. Foram seguindo um muro vivo que estava iluminado com pequenas luzinhas de enfeites natalinos e logo viram que estavam certas em achar que aquele era o caminho para a entrada, porque na porta, numa área destinada a fumantes, avistaram três colegas que lá estavam, fumando, encolhidos de frio dentro de seus casacos com capuzes: Félix, Marcos e Rainer. Maria cumprimentou o grupo e foi logo se afastando. Não suportava cheiro de cigarro e deu a desculpa de que estava frio, o que não era faltar com a verdade já que o frio estava lascante, e passou direto para o terraço. Mariane tirou da bolsa um cigarro e Fernanda, que também não era fã de fumo, juntou-se a Maria dizendo que os esperaria lá dentro. 

         Maria afastou a pesada cortina vermelha de veludo que separava a entrada do resto do saguão, provavelmente uma forma de mitigar o efeito do ar frio que vinha de fora. Logo na entrada, avistou a mesa onde estava o chefe com a esposa e a filhinha, uma menina de uns oito ou nove anos. Ela e Fernanda se aproximaram, deram boa noite e trataram de se informar onde deveriam sentar-se. A esposa do chefe, que estava terminando de espalhar uns presentinhos pela mesa, recebeu-as alegremente e disse que as duas poderiam sentar-se logo ali, próximo à ponta. Maria escolheu o último assento, que lhe facilitaria a vida quando tivesse que levantar em algum momento. Não demorou muito e os fumantes se juntaram ao resto do grupo. Dois lugares na mesa ainda estavam vagos e Fernanda deu pela falta de Teresa, a secretária, que chegou com o marido logo depois que o garçom já tinha vindo perguntar o que os convidados desejavam para beber. 

         O grupo estava completo e agora esperavam apenas que o garçom trouxesse as bebidas e tomasse o pedido de Teresa e do marido para que pudessem fazer o brinde inicial. Teresa também chegou comentando que demoraram porque estavam procurando o local e todos concordaram que sim, que era uma localização fora do comum para um restaurante que, no entanto, estava lotado naquela noite. 

         Ao que parece, uma empresa grande realizava uma confraternização numa parte do restaurante onde estava organizado um buffet. Duas mesas, cheias de homens corpulentos, estavam próximas à porta que separava o grupo do buffet dos demais clientes do restaurante e aqueles homens pareciam pertencer à empresa grande. A mesa oposta à do grupo de Maria foi ocupada por umas dez mulheres que chegaram pouco depois, e a mesa que ficava na ponta, com apenas dois lugares, foi preenchida por dois homens que falavam bem baixinho. Havia outros clientes nas mesas que ficavam do outro lado do saguão do restaurante, Maria não sabe quantas. 

O garçom voltou com as bebidas e, ao tomar o pedido de Teresa e do marido, disse que a comida poderia demorar um pouco, dado que a casa estava cheia naquela noite, como todos viam. 

Teresa, o marido e Fernanda começaram a conversar entre si. Maria preferia ficar só ouvindo, dado que não era muito de conversa. Mariane, Marcos, a mulher do chefe e Julián formaram outro grupo, enquanto que o chefe e Rainer se puseram a jogar cartas com a menina, para distraí-la. 

Não demorou muito e o grupo do buffet começou a fazer grande burburinho. Volta e meia vinham aplausos e gritos de “Aê!” e até então a coisa estava na raia do suportável, já que estavam ali comemorando algo, provavelmente uma confraternização de Natal, sendo que algumas mulheres escandalosas estavam com gorros de Papai Noel e falavam e riam muito alto, acabando com os estereótipos de que as pessoas naquele país carrancudo eram discretas e bem educadas. Maria estava certa de que o álcool já estava na cabeça daquela gente, e que por isso agiam como se ali estivessem sós, num galpão da própria empresa ou num estádio de futebol em plena Copa. 

A algazarra aumentou quando alguém do grupo iniciou uma espécie de sorteio. Cada premiação era de arrombar os tímpanos e Maria notou que as mulheres da mesa oposta, o casal da mesinha da ponta, e seu próprio grupo, que na verdade todos estavam muito incomodados com o barulho do grupo maior, dado que nenhum tipo de conversação era possível. O garçom veio e tomou os pedidos dos pratos com muita dificuldade por conta do barulho, e Maria começou a ouvir (de todos os lados) reclamações pela falta de consideração do grupo maior para com os demais. 

Os garçons, coitados, esses corriam de lá para cá. A algazarra no grupo vizinho aumentou tanto que todos os holofotes pareceram estar voltados para uma loura tipo Barbie que ria e falava altíssimo, com voz esganiçada, enquanto dançava por entre as mesas ao ritmo dos gritos e assovios dos homens, causando um certo tipo de vergonha alheia às outras mulheres que não estavam no grupo dela.

 

- Daqui a pouco ela sobe na mesa e começa a tirar a roupa. - disse Fernanda. 

- Meu Deus, típica festa de empresa! Imagino as fotos e vídeos que postarão na net mais tarde…- comentou Teresa, balançando a cabeça em sinal de reprovação.

 

Em meio à algazarra os garçons trouxeram as saladas (de entrada) e todos se puseram a comer calados, já que conversar era impossível, a menos que as pessoas estivessem a fim de gritar para serem ouvidas. Todos comiam, menos Maria, que havia pedido uma salada como prato principal, única coisa no cardápio que não levava carne.

O casal da mesa na ponta deu uma escapadinha, provavelmente para fumar, e foi seguido por uma parte do grupo que zelava pela algazarra: uma fileira de homens com cara de mafiosos seguiram em ritmo de carnaval a loura Barbie e outras três louras afetadas, vestidas com seus casacos longos de veludo. Pelo visto, iam a caminho de uma pausa para o cigarro, e as três louras puxavam o bloco carnavalesco. Maria achou que só faltava confete e serpentina para que o quadro ficasse ainda mais picaresco. 

Nesse meio tempo, quem tinha algo a dizer aproveitou a oportunidade, porque o barulho seguiu quando o grupo voltou a seus lugares. Não é possível que nenhum gerente tenha dito a esse grupo que tivesse respeito pelos demais clientes, reclamou Fernanda, mas pelo aperreio em que os garçons se achavam, dificilmente havia algum gerente por ali naquela noite, pensou Maria.

Servido e terminado o prato principal, veio a sobremesa. O grupo de mulheres da mesa oposta, em sinal de protesto contra a algazarra do grupo do buffet, começou também a dar vivas em tom de carnaval, e Maria teve certeza de que faltava pouco para que Baco em pessoa viesse participar daquela orgia natalina. 

Para completar o prazer da noite, todos no grupo tiveram suas sobremesas servidas, menos Maria, que terminou por chamar o garçom e dizer que se a sobremesa não estivesse pronta que deixasse pra lá. Tudo o que ela queria era terminar aquele suplício e poder voltar pra casa o quanto antes, e não deixou de pensar que a falta da sobremesa era o Universo livrando-a das calorias desnecessárias. 

A primeira a conseguir escapar foi Mariane, dizendo que tinha que ir embora mais cedo por conta sei lá do quê e que a estavam esperando lá fora. Saiu rapinho e levou um cigarro por acender entre os dedos. Quando Teresa e o marido disseram que também já iam, Maria cutucou Fernanda para que as duas aproveitassem a chance. As mulheres da mesa oposta tratavam de ignorar a algazarra do grupo do buffet e seguiam conversando aos gritos, o casal da mesa da ponta pediu a conta e saiu. Os únicos que não pareciam incomodados eram a filha do chefe, Rainer, que até aproveitou para cochilar entre um prato e outro (durma-se com um barulho desses!) e o chefe, que seguia jogando cartas com a filha como se ali nenhuma confusão houvesse. 

Maria é que não queria ficar naquele banquete greco-germano para ver se a profecia que haviam feito para a loura Barbie se concretizaria ou não, dado que a mulher já estava pra lá de alterada e parecia que o espetáculo ainda estava longe do final. No céu, encoberta por poucas nuvens, a lua cheia dava o ar de sua cara. Aúúúúú!! Trataram de alcançar o carro e sair dali rapidinho. A única coisa que lhes faltava naquela noite hilária era encontrarem um lobisomem no caminho, ou coisa do tipo.




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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

E o Natal Chegou...

Por Michele Calliari Marchese

E o Natal chegou...


... ao fim!

“Ufa!”, pensou a Dona Marta. Finalmente chegara ao fim aquela festança familiar que por um lado é bom, mas por outro lado ela não entendia muito bem o significado daquela data que com o passar dos anos acabou tornando-se um fastio. Quanta louça; olhou para a pia entupida e suspirou com as mãos no rosto. Ouvia ao longe aquela conversa ininteligível e fora interrompida de seus pensamentos quando um dos netos postou-se ao seu lado “para ajudar a lavar a louça vó”, e ela respondeu-lhe que sim bastava pegar o banquinho no banheiro que iriam começar.
Vestiu aquele ajudante com um avental que teve que ser dobrado três vezes na cintura para que o pequeno não tropicasse nele. Os pais daquela criança sentados lá fora conversando uma conversa universal enquanto a mais velha e o mais jovem trabalhando para que o dia seguinte fosse mais limpo, mais claro e mais harmônico. “Você gostou dos presentes?”, entabulou uma conversa com o neto e ele respondeu-lhe que sim apenas com um aceno de cabeça, estava muito compenetrado fazendo espuma com o detergente e apertando repetidas vezes a esponjinha sem lavar nada. E a Marta lembrou-se de seus anos primórdios e de como eram diferentes os natais de sua infância quando via a mãe trazer de dentro do quarto uma caixa com as bolas que enfeitariam uma árvore de verdade, plantada numa lata de banha e essas bolas quebravam com o mínimo esforço e novamente ouvira a voz da mãe ali enxugando as colheres da sobremesa: “cuidado com as bolas de natal, elas são frágeis e caras”, e tinham que cuidar porque quando quebravam cortavam os dedos.
Ouviu um barulho de alguma coisa caindo e correu para a sala —de onde viera o barulho —para ver o que tinha caído e sem pensamento de nada viu que o gato finalmente havia saído de seu esconderijo derrubando aquela árvore artificial sem quebrar as bolinhas inquebráveis —quanta diferença —e estava se lambendo sentado um pouco a frente da bagunça que fizera. “Alguém decerto que arrumará”, ela pensou e voltou para os afazeres com o neto que ria e perguntava por que o gato havia derrubado a árvore e ainda bem que não o fizera enquanto o papai Noel estava lá.
“A vovó acredita em Papai Noel?”, perguntou aquele inclemente perguntador de coisas e diante do recuo da avó em responder, disse na sabedoria infantil que ele também não acreditava, mas tinha que acreditar porque o irmão era um bebê. E também porque o Papai Noel trazia presentes. A avó suspirou; também acreditara em algum momento de sua vida naquele velhinho vestido com roupas de inverno e que trazia presentes, porém num Natal que não fez muita questão de lembrar, mas lembrou, quando apareceu muito tarde da noite um homem vestido de vermelho, muito suado e com uma máscara; a máscara era tão assustadora que daquele Natal em diante os natais nunca mais foram os mesmos. Se for para divertir as crianças bastava que dessem uma bola e não um homem com uma máscara. Nunca descobrira quem era aquele falso bom velhinho.
Tropicou num embrulho que apareceu quando o cachorro o trouxe para perto deles e ela deixou cair os braços para afagar o pobrezinho que tinha medo de foguetes e então o neto cheio de espuma também resolveu acarinhar o bicho. A Dona Marta nada disse, pois já pedido inúmeras vezes que fossem prender o cachorro na coleira para que não saísse em disparada quando das espoucadas dos fogos de artifício. “Se quiser uma coisa bem feita, faça-a você mesma”, pensou naquele momento e viu o neto pegar uma faca para lavar e tirou-a imediatamente das mãos do menino e deu os pratinhos de sobremesa para que ele lavasse e lembrou quando queria lavar a louça e sua mãe não deixava porque muitas tias e primas faziam o serviço; pensou em quanta diferença de hoje em dia, tinha errado na educação? Foi prender o cachorro e voltou para terminar a louça quando viu o pequeno lavando as paredes com a esponjinha.
Ela e o neto, sozinhos os dois no meio de tanta gente que conversava conversas que se deturpavam conforme as horas avançavam inexoráveis em direção ao outro dia, o dia seguinte, o dia da clareza, do silêncio e da falta das risadas e das máscaras de papais-noéis.
Ajuntou todos os embrulhos do chão enquanto o neto segurava o saco de lixo, rindo em sua inocência e fazendo perguntas intermináveis, cujas respostas eram imediatamente feitas por ele. Pensou que aquele Natal tinha sido o Natal mais prazeroso de sua vida, aquele cujas festas foram resumidas à companhia de um neto de 5 anos e pensou no bebê que começou a chorar no quarto, assustado pelos fogos de artifício; pegou-o no colo e afagou aquela cabeça cheirosa e os três ficaram a conversar no quarto enquanto ouviam ao longe, como se fosse num outro mundo os desejos de felicitações de outras pessoas —que eram a sua família —bem ao longe, num lugar inacessível, no agora do outro dia.

Ela abraçou aqueles dois netos e desejou que continuassem pequenos e que não crescessem nunca para que no Natal do ano seguinte eles pudessem ter outro igual àquele que tiveram de conversas amenas, risadas e comunhão amorosa, sem presentes e sem máscaras, com o sentido concreto em seus corações de que o Natal não precisa ser uma festa descomunal, apenas uma esponjinha cheia de espuma para lavar as paredes vazias de uma casa cheia.




Nota: este texto faz parte do ebook natalino 
E Que Viva o Natal (baixar aqui).


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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O Valor dos Sonhos


Por Celêdian Assis de Sousa

Caía a tarde, já se pintava no horizonte uma aquarela de belos tons, sol desmaiando lentamente, trazendo as cores de fogo, sob os azuis que aos poucos, acinzentavam-se. Cenário perfeito para ele, aquele ancião, que da varanda, em sua cadeira de balanço embalava seus pensamentos e alimentava a sua sabedoria.
Já fazia parte de sua rotina diária sentar-se ali e meditar sobre a beleza que existe nos contrastes, dos sóis e luas, das cores da vida. Não raro passava por ali uma menina faceira, que lhe interrompia os pensamentos. Ela, esperta e curiosa, sempre sorridente parava para cumprimentá-lo e para fazer-lhe perguntas sobre as coisas mais triviais, o que sempre rendiam boas conversas. Ela, com a natural simplicidade de criança, o levava a transportar-se para o mundo de fantasias.
Nessa tarde, a menina chegou, abraçou-lhe e contou-lhe algumas façanhas do dia, o que ele ouviu atentamente e ao final sorriu um daqueles sorrisos ternos, que pareciam consentir que ela o transformasse em criança. A conversa enveredou-se entre muitos temas, até que de repente, sem nenhum embaraço ela pergunta ao ancião:—O senhor acredita em Papai Noel?—A pergunta tomou-o de súbito espanto, mas tão logo se recuperou, tomou-lhe as mãos, olhou-a com ternura e começou a contar-lhe uma história:

—Quando eu era ainda um menino, esperava pelo dezembro com muita ansiedade. Eram dias nos quais eu me sentia muito feliz. Não havia luzes coloridas enfeitando as casas, como as de hoje, mas havia sempre no canto da sala a árvore feita de galhos de pinheiro, com as bolas multicores e era como se cada uma delas guardasse os meus sonhos. A família parecia transbordar de amor e uma alegria incontida tomava conta da casa. Meus pais davam a mim e aos meus irmãos, sapatos novos, logo no início do mês e diziam que deveríamos guardá-los até a noite do Natal, quando então os colocaríamos na janela, para recebermos os presentes que Papai Noel nos traria. Por muitos e muitos anos eu acreditei que Natal significava “dia de ganhar presentes”. Pois bem, eu crescia e assim como você agora, passei a perguntar-me se Papai Noel existia. Muitas vezes fiquei em dúvida, pois eu convivia com outras crianças e algumas nunca ganhavam presentes, na casa delas não havia sapatos novos para se colocar na janela e seus pais às vezes, não se importavam com Natal. Eu só entendia que aquilo não era justo e se ele existisse mesmo, não se importaria de deixar presentes, mesmo que não houvesse sapatos na janela, ou árvores na sala. Foi daí que comecei a pensar no verdadeiro significado do Natal e fui crescendo até envelhecer, sempre pensando e agora me vejo aqui diante de você elaborando a resposta para a mesma pergunta, a mesma que fiz a mim a vida toda. Então eu lhe digo: eu acredito em Papai Noel, pois ele tem me dado um presente a cada dezembro, que me sinto vivo. Entendi que não preciso dos sapatos novos e nem preciso receber caixas com laços de fitas, apenas preciso sentir a presença dele na minha imaginação, esperando sempre por ele, esperando que haja um próximo dezembro. Presente significa receber da vida o que é fundamental para te fazer feliz, e em cada momento dela descobrirmos o que é realmente importante para nós. Então minha linda menina, saiba que, nesse Natal já recebi o meu presente e você é o meu Papai Noel. Este sorriso que me trouxe, o abraço terno e sua meiguice de criança fazem com que eu me sinta vivo e de novo feliz, como nos tempos de menino.

A menina sorveu cada palavra e entendeu que Papai Noel existe e que ele é o próprio presente, o que escolhemos para manter viva a magia dentro de nós.




Nota: este texto faz parte do ebook natalino a ser lançado muito em breve no site do Projeto Quintextos.

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sábado, 20 de dezembro de 2014

O Nascimento

Por Soraya Souto

Eles seguiam devagar em meio à agitação febril da rua. Destoavam das pessoas apressadas que entravam e saíam das lojas, carregando sacolas de presentes com as últimas compras natalinas. O seu ritmo mais lento de caminhar parecia incomodar um pouco os outros, que aceleravam o passo para ultrapassá-los como se tivessem receio de lhes tocar.

Depois de dias procurando emprego naquela cidade, tinham sido obrigados a deixar a pequena pousada onde estavam, e saído à procura de um outro lugar para ficar. O homem amparava a mulher grávida, oferecendo-lhe apoio a cada parada, e um sorriso de incentivo quando recomeçava a caminhar.

Desde aquela manhã ela sentia dores, e estava assustada com a proximidade do nascimento do seu primeiro filho. Já era quase meia noite quando ela pediu para parar.

Olhando em redor, ele a conduziu através de algumas caixas de madeira, e palets abandonadas, na entrada de um beco próximo. Rapidamente ele improvisou um abrigo, esmagando algumas caixas de papelão grandes para ela ter onde reclinar-se. Depois empilhou caixas contra o vento frio e o ruído que vinham da rua. E algumas sacas velhas, rasgadas, emprestavam alguma intimidade àquele recanto do beco onde, ele sabia, o milagre da vida não demoraria a acontecer.

O dia terminava, e a escuridão trouxe consigo uma pequena fogueira que alguém acendeu. Pouco depois, uma velha senhora surgiu oferecendo uma tigela de sopa. Aos poucos, outras pessoas que ali se abrigavam foram aparecendo. O pequeno beco revelava-se, agora.

Uma luz fraca acendeu-se, numa janela alta, iluminando mais um pouco. De uma porta que se abriu, dos fundos de um restaurante, vieram toalhas limpas. De algum outro lugar, uma velha manta de lã somou-se ao momento.

Enquanto isso, na rua as pessoas passavam indiferentes, desconhecendo o que ali se passava, e a harmonia fraterna que se estabelecia, como um laço natural entre os que dividem dores e dificuldades. Quando a hora do nascimento chegou, deram-se as mãos silenciosamente, em uma expectativa sincera pela nova vida que acontecia.

O bebê chegou com os primeiros raios do sol, e seu choro alto e forte ecoou pelas paredes do beco. Foi colocado em uma pequena caixa de papelão, sob os olhares dos pais felizes e emocionados.

E quando os sinos da igreja, na rua ali ao lado, convocaram os fiéis para a primeira missa do dia, os moradores do beco já estavam ajoelhados e fazendo uma prece pelo pequeno recém-nascido, que trouxera consigo a alegria da vida, e reunira em si as esperanças de tantos com bom coração.

Era Natal novamente.




Nota: este texto faz parte do ebook natalino a ser lançado muito em breve no site do Projeto Quintextos.


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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Ao Que Muitos Chamam Natal

Por Helena Frenzel

Do lugar do motorista, no carro parado no estacionamento, ela observava meio emburrada o vai-vem tão típico das vésperas de Natal. Não agüentava mais todo aquele consumismo. Todo ano é a mesma coisa! O clima melancólico, os lembretes de que muitos não têm sequer o que comer... E as campanhas tilintando: Compre Baton! Compre Baton! E tudo é sempre coca-cooolaa. Não, não suportava mais aquilo! Se possível, gostaria de dormir e acordar bem depois de haver baixado a poeira de todas as festas de fim de ano. Em meio às suas revoltas sazonais, contra o sistema, uma coisa naquele estacionamento movimentado chamou-lhe a atenção. Tratava-se de uma menina que, naquele momento, começava a acomodar suas compras natalinas num pequeno carro, modelo popular. Talvez aquela mocinha não tivesse mais que 18 anos... Viu quando ela, primeiro, trouxe uma caixa plástica transparente. Dentro da caixa, várias bolas douradas e outros enfeites natalinos espremendo-se e concorrendo entre si, esperando ansiosos para saber a quem tocaria a sorte de ficar com a vista mais legal da janela. Nem adiantou a briga dos enfeites, pois a menina acomodou a caixa no chão do automóvel, no banco traseiro, escondendo-a, ou melhor: protegendo-a à sombra do banco do passageiro. E ela, nossa voyeur, de seu posto, chegou a ouvir os gritos de decepção e os choros, que em nada faziam recordar os chorinhos musicais chorados com tanto gosto pelos chorões passados brasileiros. Era mesmo um berreiro! Irredutível, a menina voltou ao carrinho de compras, agora para retornar com duas orquídeas, cada uma em cada vaso. “Embora não passem de parasitas, chame uma orquídea de aproveitadora ou sanguessuga pra você ver aquilo roxo, chame! Que nada,” pensava nossa voyeur, “chiques do jeito que essas plantas são e tão delicadas... Se molhar demais, murcham; se molhar de menos, secam do mesmo jeito! Não entendo as orquídeas, tão belas e tão temperamentais. Não se fazem mais plantas como antigamente, isso sim! Todas estragadas em laboratório!”. A menina começou a acomodar as orquídeas no automóvel.
E nossa observadora chegou a ouvir o choramingar de uma das duas: “Ai, vai estragar meu visual! Depressa, depressa!”. Chuviscava. Parecendo entender suas queixas, a menina pôs uma delas sobre o banco da motorista, enquanto buscava acomodar a outra em algum lugar no banco de trás. Nossa voyeur não sabia como fizera a menina, pois as orquídeas foram engolidas por aquele automóvel, por fora tão pequeno e, por dentro, se duvidar, com compartimentos simulando buracos-negros engolidores de bagagens, ainda que fosse um sumidouro temporário só durante o deslocamento. Terminada a operação super-cuidadosa, a menina devolveu o carrinho de compras ao estabelecimento e voltou apressada à sua nave. Talvez essa pressa última tenha sido só por causa da leve chuva... Por todo o tempo que observara sua atuação, em nenhum momento nossa espia percebeu sequer uma ruga de impaciência no rosto da menina. Muito pelo contrário, a menina moveu-se tão devagar durante o carregamento de seu pequeno veículo que, caso tivéssemos que ficar ali o dia todo, por certo não nos entediaríamos com aquela dança mística, quase ritual. Enquanto nossa olheira, em seu posto, aborrecia-se pensando que todo final de ano era a mesma coisa, a menina, ao contrário, parecia estar curtindo cada segundo daquelas compras, e feitas num dia assim tão cinza, chuvoso, ranzinza. O que levou a observadora a pensar que talvez fosse aquele o primeiro Natal da menina em sua casa nova. Talvez por isso lhe desse tamanho gosto sair para comprar enfeites, e pagar com o próprio dinheiro. Quem sabe, estivesse organizando a sua primeira ceia de Natal... Poderia também estar curtindo o primeiro automóvel, a liberdade, a sua licença para dirigir, não só veículos, mas também a própria vida, seguindo a direção que bem lhe parecesse, e sem ter que dar satisfações a ninguém! A menina entrou no carro, pôs o cinto de segurança. Nesse momento, pela expressão dela, nossa observadora achou que parecia pensar: “Ôba, a vaga da frente está livre, nem preciso usar a marcha-ré. Era só ligar o motor, por via das dúvidas olhar para os lados e depois seguir”. O caminho estava livre. Naturalmente, a menina o tomou. Êpa, de repente uma freada. Não brusca, claro, para não afetar o humor das melindrosas passageiras. A observadora notou que a menina arrumava rapidamente alguma coisa no banco do passageiro, a seu lado. Um colete de segurança, uma caixa com um circuito de luzes de Natal... Pronto! Agora poderia seguir. Olhou de novo, por costume de bom motorista, seguiu por menos de dois metros, sinalizou a mudança de direção e começou a ir-se embora, devagar.
E com ela, a menina, foram-se os murmúrios das bolas douradas. E as orquídeas, como estrelas de cinema, em limusines, escondidas, iam pondo em dia, uma para a outra, os últimos lançamentos, coleções e fuxicos do mundo da moda. Talvez, para as orquídeas, tanto faz se havia ou não uma festa de confraternização, voltada principalmente ao comércio, à que muitos chamavam de Natal.

—A peça está em falta! Agora, só ano que vem! Vamos?

Aquela voz grave, o barulho da porta do passageiro se abrindo e em seguida fechando bruscamente, a esperança de que nem tudo seria sempre a mesma coisa, o olhar inquiridor, o sorriso bobo, e nem um anjo..., as mãos frias, a menina indo, o frio lá fora, olhar perdido, o fuxico das orquídeas, o choro das bolas, o vai e vem no estacionamento, e nem um anjo..., a menina sumindo, o frio ali dentro, tudo, tudo aquilo tirando a observadora de seus devaneios e trazendo-a de volta à realidade fria e consumidora daquelas vésperas de Natal...

“Os sinos soarão no dia de Natal!
Os sinos soarão no dia de Natal!

Anunciando:... (?)”


Nota: este texto faz parte do ebook natalino a ser lançado muito em breve no site do Projeto Quintextos.


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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Papai Noel


Por Henrique Mendes

Alguém de espírito previdente me enviou um cartão de Natal que já chegou. Por dentro há uma meia dúzia de linhas, com os melhores votos de “boas festas” de um antigo amigo. Por fora, uma imagem deliciosa dumas casinhas cobertas de neve muito branca, com meninos brincando na rua e fumaça saindo pela chaminé.
Sorrio, tocado pelo gesto desse amigo de sempre. Depois de tantos Natais em silêncio, e de tantos outros cumprimentando-me apenas por telefone, resolveu enviar-me um cartão à moda antiga, pelos correios. Reli o texto, e depois voltei à imagem.
Toda a paisagem por trás das casas é uma mata em verde escuro, onde todas as árvores são árvores de Natal, enfeitadas com bolas multicolores, estrelas e luzinhas acrescentando brilhos. Nos céus, lá ao longe, muito pequenino, vem um trenó puxado por renas, com um Papai Noel bem gordinho de braços abertos, como se quisesse, num gesto de plena alegria, abraçar o mundo.
Claro que este é um cartão igual a tantos outros, baratinho, que se pode comprar em qualquer lojinha da cidade. Mas, para mim, recebê-lo foi uma coisa muito especial, que me fez lembrar do tempo em que eu e precisamente aquele amigo que mo enviou brincávamos na porta de casa fazendo bonecos de neve e construindo trenós, que queríamos velozes —tão velozes como imaginávamos que era o trenó de Papai Noel.
Brincávamos na neve, rindo sem parar, até que os nossos dedinhos de criança ficassem roxos de frio, numa espécie de licenciosidade que mães e avós reservam a esses dias, em que a natureza se veste de branco para, mais uma vez, nos conseguir deslumbrar e surpreender.
E dentro de casa havia a lareira acesa, com a meia pendurada, a árvore de Natal cheia de luzinhas e enfeites de todas as cores, as guirlandas nas portas, com as bagas vermelhas de azevinho, as caixas dos presentes dos adultos, ricamente embrulhados, música da época, enfim, todos os detalhes que compõem a mística do Natal.
Havia aquela expectativa imensa, quase palpável, para ver se as cartas que tínhamos escrito para Papai Noel muito tempo antes, com as listas dos presentes que mais desejávamos, tinham sido atendidas —e se os presentes eram aqueles que tínhamos pedido.
De tudo isto me lembrei ao receber este cartão do meu amigo. E agora estou aqui pensando que eu mesmo ainda não fiz nada. Nem lhe mandei um cartão, nem lhe escrevi, nem lhe telefonei, enfim: nada.
Na verdade, custei a arranjar tempo para montar uma árvore de Natal em casa, para que a época não passe despercebida. Mas ainda bem que o fiz, pois este cartãozinho tão simples, que o meu amigo me mandou, veio mostrar-me como é importante cuidar destes pequenos detalhes.
É preciso mantê-los vivos para que a tradição não se perca, e perdure o costume de um dia no ano —pelo menos um dia, no ano —as pessoas olharem o mundo com mais alegria, com mais carinho, serem mais atentas aos detalhes da vida e aos outros, e desejarem-se mutuamente felicidades por se quererem bem. E, por se quererem bem, partilharem mais, dividirem melhor, não apenas os bens materiais, as coisas palpáveis, mas também a ternura e o afeto, bem como a atenção e a alegria. E se, para isso, for necessária alguma imaginação —tanto melhor.
E se ao cuidar dos detalhes e de tudo o que é necessário para conservá-los, fizermos nascer, ou até aumentarmos, o folclore que rodeia a quadra Natalina, isso será excelente. Porque isso é a verdadeira cultura, perpetuando-se, levando-nos a ser capazes de conviver com valores que, apesar de se apoiarem em sonho e fantasia, não podemos deixar nunca que sejam menos reais.
Olho novamente o pequeno cartão que recebi, meio anacrônico nos dias de hoje, meio fora de moda, mas desta vez olho-o com um novo respeito.
Talvez tenhamos de fazer algumas concessões, algumas adaptações, não sei bem.
Talvez seja difícil imaginar Papai Noel descendo pela chaminé para entregar os presentes, quando hoje moramos em apartamentos onde não há chaminés.
Talvez os meninos daqui da cidade estejam certos, quando falam das renas como sendo veadinhos. E é claro que não sentem o menor entusiasmo com o trenó, que não tem rodas e só é capaz de escorregar numa tal de neve, que nunca ninguém viu.
Talvez Papai Noel tenha de vir de charrete. De carroção puxado por bois dourados... e de bermuda, por causa do calor...
Mas, ainda assim, valerá a pena !


Nota: este texto faz parte do ebook natalino a ser lançado muito em breve no site do Projeto Quintextos.


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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Um cordel para o Natal

O cordel é uma das manifestações mais ricas da cultura popular brasileira, muito difundido no Nordeste do país. Em junho de 2013 recebemos este texto do leitor e colega Jajá de Guaraciaba, e só agora publicamos para fechar o ano com um natal especial, bem brasileiro, natal no ritmo do cordel. 

Obrigada, Jajá, por deixar nosso espaço mais bonito com a sua participação, e a nossos leitores: gratas pela valiosa companhia.

Boas Festas!

Helena e Michele.

As donas do blogue :-)


*  *  * 

CORDEL: PEDRO/NATAL
(Por Jajá de Guaraciaba)

O Natal está chegando
Vamos "acender a luz"
Todo mundo esperando
O aniversário de Jesus.

Vamos ter nesta ceia
Muito que comemorar
Colocar na árvore a meia
Para os presentes ganhar.

Vamos evitar neste dia
De fazer qualquer tumulto
A nossa grande alegria:
É brincar de amigo oculto.

Comer peru assado,
Farofa, bolo e pastel,
Beber champanhe rosado
E cantar o “Jingle Bells”.

Todo o Natal tem história
Hoje vou contar a do Pedro
Que teve uma grande vitória
 Por que não teve medo.

Ele não tinha um bom curso
Mas queria um presente
Participou de um concurso
E ficou muito contente.

No concurso respondeu
De modo humilde e nobre
Vou ganhar um “play station seu”
Decerto por que eu sou pobre.

Devido à simplicidade
De aquele ser pequenino
O locutor do concurso
Teve muita dó do menino.

Quando acabou a concorrência
 Grande surpresa reluz!
O locutor por excelência
Era o querido Jesus.

Pedro ficou numa “boa”
Com seu presente nas mãos
O Natal une as pessoas
 Tornando todos, irmãos.

Deixo aqui; bem feliz
Pra todos, este cordel
E que estes versos que fiz
Levem o mundo inteiro pro céu.


Jajá nasceu em Guaraciaba - MG. Gosta de ler, escrever contos, crônicas e poesias. Participou de várias antologias, inclusive do Mapa Cultural Paulista edição 2009/2010 com a crônica "Presente de Natal". Reside com a família: esposa Cecília e Anderson, filho especial, em Pilar do Sul - SP.










Nota: Este texto nos foi enviado para publicação pelo(a) próprio(a) autor(a), sendo aqui reproduzido conforme o original recebido. É de autoria e inteira responsabilidade do(a) autor(a), que detém sobre o mesmo todos os direitos autorais. Este texto não representa, necessariamente, a opinião das editoras e de outros autores deste site. 


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