Mostrando postagens com marcador Especiais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Especiais. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Ouro do Rio Xapecó



Por Osmar Pedro Calliari*


Esse causo aconteceu na Campina da Cascavel, deveras distante de tudo, poderia dizer que é um Universo único, dada a quantidade de causos sem explicação e misteriosos que acontecem por essas bandas.

Aconteceu bem no dia da Festa do Padroeiro. Estava todo o povo da Campina em frente à Igreja armando as mesas e cadeiras para o almoço e as tendas para as festividades, quando o Belliaris chegou.

Chegou atravessando uma serração dos diabos, montado num cavalo crioulo e trazendo na garupa um saco com seus parcos pertences, pois tinha vindo para ficar. Tinha sabido em Cruzeiro do Sul que a Campina estava em desenvolvimento precisando de homens de coragem para alavancar a comunidade.

Só sentia saudades de sua namorada Gênesi, que deixou para trás “por um motivo justo”, como disse ao Padre Dimas naquele dia. Mas que voltaria a buscá-la assim que pudesse e casariam bem direitinho, como manda o figurino.

O povo ficou alerta, pois acontecem tantas coisas inexplicáveis na Campina, mas logo se acostumou com a presença do jovem caixeiro viajante, trabalhador, ambicioso e idealista.

Justamente naquela época tinha sido construído o primeiro Hotel da comunidade e Belliaris tratou logo de se instalar por ali, tendo um quarto efetivo em que mantinha seu “escritório”. Saía em viagens pela semana inteira e só voltava aos sábados.

Num desses sábados, Belliaris estava tomando chimarrão com alguns conhecidos quando apareceu um senhor com aparência de andarilho e carregando às costas os seus pertences. Inopinadamente chamou Belliaris e lhe comunicou, muito confiante, que precisava de algum dinheiro para comprar mantimentos, pois estava indo para as bandas do Rio Xapecó, onde, tinha a certeza de haver muito ouro e em boa quantidade. Em troca da ajuda, oferecia metade de todo ouro que encontrasse e ainda disse seu nome: “Adolf, senhor”.

Sem uma palavra, Belliaris emprestou o dinheiro.

Essa atitude provocou divertidas gozações entre os amigos que tiveram assunto por muito tempo.

A vida continuou, o namoro continuou as viagens também.

Acontece que repentinamente, e sem aviso, o caixeiro desapareceu, deixando suas coisas no Hotel, como também suas diárias 'impagas', para desespero dos proprietários.

Passados uns seis meses, quando o povo estava quase se esquecendo do acontecido com o Belliaris e tão repentinamente como desapareceu, eis que ressurge, pilotando uma camionete Dodge, americana, 4 por 4, novinha em folha.

Para a alegria dos hoteleiros, pagou todas suas contas atrasadas com juros, deu uma bela gorjeta para a garçonete, pagou adiantado uma rodada de uísque para seus velhos amigos e anunciou que estava deixando a Campina da Cascavel, pois havia comprado uma fazenda de café no norte do Paraná, e era para lá que estava indo.

Dentro da camionete estava a Gênesi, casada, com um feliz sorriso nos lábios, emoldurado pela sua basta cabeleira quase ruiva.

“E o andarilho?”, perguntaram seus amigos.

“O andarilho é meu sócio”, disse Belliaris dando a partida na camionete.




*Este e os demais contos da série "Histórias para sempre lembrar" foram escritos por Osmar Pedro Calliari, pai da nossa querida Michele Calliari Marchese. Ele partiu ainda muito cedo, deixando um vazio que jamais poderá ser preenchido. Publicar aqui alguns dos textos que ele deixou escritos é uma forma de homenageá-lo e tê-lo sempre presente, porque enquanto houver memória haverá vida, História e histórias para contar.



© 2017 Blog Sem Vergonha de Contar - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do(a) autor(a). 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A Caverna



Por Osmar Pedro Calliari*

Tio Antero, como todos já devem saber, apreciava pescarias e caçadas. O relato seguinte foi feito pelo próprio, muitos anos depois do ocorrido, e está aqui representado exatamente como contou. Vejamos: em uma de suas cinematográficas excursões pelo sertão, lá para as bandas de Cruzeiro, na década de 30, estando correndo atrás de seu cão de caça, que corria atrás da caça, viu preocupado seu cão desaparecer, não mata adentro, mas como que tragado pela terra. Aproximou-se do local e viu uma grande fenda, verdadeira cratera, porém não circular, mas longa. Aí que seu cão caíra, e ganindo, pedia socorro a uns 30 metros abaixo. Armou-se Antero de cordas e cipós, e desceu pela fenda. Então constatou que a fenda, na verdade, era a entrada de uma enorme caverna, que, inexplicavelmente, permanecia clara como lá em cima, mas não se distinguia a fonte da luz. Servo de seu espírito aventureiro, pôs-se a explorar tal gruta, tendo observado detritos e destroços de madeira e metal, e calculou, com toda razão, que ali poderia haver algum tesouro, ou dos espanhóis, dos jesuítas, dos incas, ou quem sabe de algum bandido qualquer. Mas para ele, tesouro é tesouro, e não lhe importava de quem fora. De repente, na parte mais interna da caverna surge um ser, mais alto que Antero, vestido até os pés, com um manto reto e claro, pés e mãos grandes e de aspecto benevolente, que não atinou se era homem ou mulher. Não se sabe qual dos dois ficou mais surpreso com a presença do outro. Destemido, inda mais quando de posse de sua trabuzana calibre 16, dois canos, Tio Antero entabulou conversação, e explicou o motivo de sua aparição ali. Ânimos serenados, o estranho falou como num murmúrio que aquele local era tipo uma oficina de consertos, e que a matriz terrena deles se localizava dentro da montanha do Kilimanjaro, na África. O estranho afirmou ainda que provinha de um planeta, distante, cujo nome não ficou gravado na memória de Antero, e que suas visitas à Terra eram para trazer conhecimento e tecnologia avançada aos humanos. Convidou ainda Tio Antero para visitar seu planeta, caso quisesse, cuja viagem não demoraria muito. Antero não quis, mesmo porque seu destemor não era para tanto, numa época em que a aeronáutica terrena estava apenas engatinhando. Nisso, com um zumbido de muitas abelhas, desce, pela cratera, uma nave circular feita com um metal claro e brilhante, que Antero deduziu ser do mesmo material da Winchester do Mexicano, um guarda do trem postal. Antero apertou sua arma, e estava disposto a travar batalha ali mesmo, em defesa própria e de toda humanidade, se bem que, pensou ele, boa parte dela não mereceria tal esforço, principalmente o Mexicano do trem postal. Porém, quem desembarcou da nave foi um ser bem menor que o primeiro, parecendo uma criança e muito amigável e gentil sorriu para o Tio. Ele não acreditava muito em anjos e demônios, mas não descartou a hipótese de que ali poderia estar presente um dos dois, ou os dois, pois talvez, depois daquele arranca rabo sideral no começo do mundo, eles tivessem selado uma paz eterna e os homens nem ficaram sabendo. Depois de ouvir e ver coisas que nunca antes tinha ouvido ou visto, Antero se dispôs a regressar ao seu acampamento, e os dois seres extraterrestres, após prometerem fazer novos contatos, num gesto amável e de poder, elevaram o embevecido Antero e seu cão até a superfície, sem auxílio de cordas, cipós, ou outro artefato. O resto do dia e durante a noite, o Tio, muito pasmo, ficou matutando sobre o acontecido, e nem se dava mais conta do motivo de estar naquelas paragens. No dia seguinte, bem cedo, foi correndo em direção à cratera, mas por mais que procurasse não conseguiu encontrá-la, e o solo estava tão normal que parecia nunca haver tido uma fenda naquele local. Até o seu misterioso desaparecimento, numa última aventura, Tio Antero se lamentava e se maldizia por não ter aceitado o convite de visitar aquele planeta. E quem duvida que os inexplicáveis agroglifos nos trigais não sejam tentativas de novos contatos com Tio Antero? Ou do Tio Antero conosco?



*Este e os demais contos da série "Histórias para sempre lembrar" foram escritos por Osmar Pedro Calliari, pai da nossa querida Michele Calliari Marchese. Ele partiu ainda muito cedo, deixando um vazio que jamais poderá ser preenchido. Publicar aqui alguns dos textos que ele deixou escritos é uma forma de homenageá-lo e tê-lo sempre presente, porque enquanto houver memória haverá vida, História e histórias para contar.




© 2017 Blog Sem Vergonha de Contar - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do(a) autor(a).

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Ladrão de galinha



Por Osmar Pedro Calliari*

Nos idos de 1920, Anacleto Piemont possuía um sítio às margens do riacho que hoje conhecemos por Rio Xanxerê. Fazia roças e criava galinhas e porcos, que lhe davam uma renda extra, já que sua principal ocupação era agrimensura. Uma ou duas vezes por mês, em dias marcados, fazia escambo de seus produtos com outros na vila sem nome, junto ao destacamento militar, que depois passou a chamar-se Xanxerê, por conta da exclamação de um roceiro indígena ao avistar uma “senhora” cobra, que nem cascavel era, era jararaca. Organizado, Piemont notava que seu plantel de galinhas diminuía dia a dia, juntamente com a produção de ovos, sem uma causa explicável. Cada vez mais preocupado, ficou atento, e mantinha sua “trabuzana” 28, dois canos, trazida da Itália, sempre à mão. Certo dia, puxando água do córrego para suas criações, viu um enorme lagarto na beira do riacho, que, com muita agilidade, pulou na água e desapareceu. Matutou consigo mesmo que talvez fosse esse bicho a causa do sumiço de suas galinhas e ovos. A situação piorava e Piemont resolveu tomar atitudes mais drásticas e, entre uma tarefa e outra, permanecia de vigia com sua 28 ao ombro. Alguns dias depois, ao alvorecer, foi fazer sua ronda de costume e percebeu, por entre o capim, o que parecia ser um anão nu, espreitando para dentro do cercado das galinhas. 
–Ei!– gritou –Parado! 
Correu ao encontro do estranho, de arma em punho, disposto a tirar a limpo aquela situação. Num relance, o vulto de anão pôs-se a correr, e Piemont foi atrás. Pareceu-lhe que aquilo, que ele julgara ser um anão, foi se transformando num enorme lagarto. Seus olhos estariam a lhe pregar uma peça? Ou era a folhagem das capoeiras? Ou era porque o lusco-fusco da alvorada lhe toldava a visão? Não perdeu tempo em raciocinar. E só pensava em dar um fim àquele larápio. Não vacilou, e assim que teve o lagartão enquadrado na mira de sua arma, puxou o gatilho, mas na correria, o disparo não foi preciso, e o chumbo atingiu apenas a parte posterior do bicho, que, mesmo assim, não perdeu a rapidez e indo em direção ao rio jogou-se de pronto na água. O perseguidor parou na beirada e ficou observando o animal vadear o rio, submerso. Atirar ali seria desperdício, pois a água deforma a visão, como também reduz o impacto. Esperou ele sair do outro lado da corrente para agir, mas o que ele viu, deixou-o estarrecido, pois assim que o lagarto reapareceu do outro lado, transformou-se novamente em um anão, que foi aumentando de tamanho vagarosamente. Piemont não esperou para saber quanto ainda cresceria e,  alarmado, num décimo de segundo levantou a arma, fez pontaria e disparou. Quando a fumaça se dissipou e ele pôde firmar a vista, nada mais viu, e nada mais se mexeu à sua frente. Mesmo tendo procurado por um bom tempo não encontrou vestígios nem do lagartão, nem do anão. Constatou dias depois, muito contente, que o sumiço da criação havia cessado, e concluiu que tinha resolvido o problema, e não mais se preocupou com o ocorrido. Passado algum tempo, e estando na época de novos negócios junto ao destacamento militar, Piemont para lá se dirigiu como de costume. Encontrou-se com um velho amigo de nome Hizet, que curiosamente apresentava grande mancha no lado esquerdo da face, e mancava levemente da perna direita. Inquirido sobre aqueles ferimentos, alegou ter caído quando consertava seu paiol, nada mais dizendo, e trocando de assunto se afastou rapidamente. De volta a sua casa, Piemont ficou matutando até tarde da noite sobre aquele encontro, e num lampejo, ligou aqueles ferimentos de Hizet, com os ferimentos a tiro que tinha causado naquele larápio de suas galinhas. Seria possível tal ligação? E definitivamente perdeu o sono o resto da noite. Cedo, no dia seguinte, selou o cavalo, carregou sua 28 dois canos, e foi até o sítio de Hizet, disposto a resolver aquele enigma. Porém, para sua surpresa, o lugar parecia abandonado e deserto, e nem sinal do seu vizinho, apesar de tê-lo procurado e chamado insistentemente. Então as suspeitas começaram a martelar seus neurônios. O lagarto, o anão, e Hizet seriam o mesmo ser? Como seria isso possível? Seria um ente de outro mundo? –Pensou estar ficando louco. Obcecado com aqueles acontecimentos, inquiriu sobre Hizet a todos que encontrava. Não, ninguém o tinha visto nos últimos dias, nem sabido nada sobre seu destino. Piemont, mesmo tendo vivido por muitos anos ainda, jamais esqueceu aqueles fatos, como jamais obteve uma resposta convincente para os mesmos.



*Este e os demais contos da série "Histórias para sempre lembrar" foram escritos por Osmar Pedro Calliari, pai da nossa querida Michele Calliari Marchese. Ele partiu ainda muito cedo, deixando um vazio que jamais poderá ser preenchido. Publicar aqui alguns dos textos que ele deixou escritos é uma forma de homenageá-lo e tê-lo sempre presente, porque enquanto houver memória haverá vida, História e histórias para contar.




© 2017 Blog Sem Vergonha de Contar - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do(a) autor(a). 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Vicentina



Por Osmar Pedro Calliari*


Há um ditado conhecido de todos que reza (reza?): “o diabo faz a panela, mas não faz a tampa”. Provavelmente seria melhor colocar a palavra “geralmente”, no seu início. Senão, vejamos. Sempre vamos encontrar pessoas inusitadas em lugares inusitados. Lá pelos anos 30 do século passado, em certo povoado desta região oeste, morava uma comerciante, viúva, proprietária da maior casa de comércio da vila, um armazém de secos e molhados, armarinhos, cereais, etc. Comprava e vendia de tudo. Repentinamente apareceu no dito povoado um senhor de nome Santo Chavon, que de santo só tinha o nome, dizia não temer nada deste mundo, nem do outro, alto, forte, ruivo, aparência essa que lhe valeu o apelido de Russo. Trajava sempre uma jaqueta de couro vermelha e, na cintura, seu amigo inseparável, um Colt 38 preto, que não fazia a mínima questão de esconder ou disfarçar. Diziam que veio da cidade de Cascalho de Goiás, não por expulso ou corrido, mas por pedido daquela população, pois que a dita cidade permanecia estagnada, ao contrário do cemitério, que recebia novos “moradores” toda semana.


Aqui, Vicentina andava às turras com o Cel. Tertuliano, latifundiário, criador de gado e produtor de erva mate, que não tinha escrúpulos na hora de tomar terras ou fazer acertos de contas com o revolver em punho. A encrenca provinha do fato de Tertuliano se negar a pagar suas dívidas com Vicentina, alegando que ela errava na hora de fazer as contas. O causo ficou incontrolável, e houve ameaças recíprocas de morte. Vicentina se adiantou nos planos e viu, em Russo, um meio seguro de resolver a parada. Entabularam-se as negociações, mas Russo não queria os três contos de réis ofertados pela comerciante, e fez sua contraproposta. Nada mais nada menos do que a mão da filha, única filha de Vicentina, de 16 anos, para casar com ele. Depois de muito pensar, e sem outra escolha, concordou com a proposta de Chavon, mas já fazendo outros planos. Chavon, tarimbado, anunciou a todo mundo que estaria viajando por uns 30 dias a negócios, e desapareceu. Alguns dias depois, Tertuliano foi morto numa “espera”. Ninguém desconfiou de Russo, pois estava ausente, e porque o Cel. Tertuliano tinha inúmeros desafetos, que teriam prazerosamente feito aquela ação, se para tanto tivessem a necessária coragem. Nem de Vicentina, uma dama, que compareceu constrita, munida de véu preto ao velório, e enxugando invisíveis ocasionais lágrimas com seu lencinho de renda. No prazo dado para a volta de Russo, novo estampido seco e forte ecoou e estremeceu as campinas verdejantes. Acorreu o povo para saber do que se tratava, e encontraram o corpo de Santo Chavon estirado no chão, atravessado por um projétil de alta potência. Mas como foi dito no início, o diabo faz a tampa, mas não o cabo, (ou algo assim) alguns cortadores de erva do falecido Tertuliano avistaram, logo após o disparo, um belo cavalo fugindo a toda, e juravam que quem o montava usava saias e delicadas botinas. Foram feitas as devidas diligências e inquéritos, mas nada de suspeito surgiu contra os moradores da vila. Após o termino da diligência policial, o delegado, um jovem tenente do exército, convocou Vicentina para uma conversa em particular. Dona Vicentina estremeceu nas botinas delicadas, mas disfarçou e procurou manter-se firme. Do que foi dito naquela conversa nada foi revelado, mas o delegado, antes de empreender seu regresso, afirmou em alto e bom som: “Não sabemos por graça de quem, mas em poucos dias nos livramos de dois facínoras desalmados, que perturbavam o sossego desta região.” Disse isso, mas todos, inclusive ele, sabiam perfeitamente por graça de quem ambos foram prestar contas ao fazedor de panelas sem tampas. Pela primeira vez em muitos meses, Dona Vicentina foi dormir com a consciência tranqüila e a alma feliz. E a filha, já agora prometida em outro casamento? Nem ficou sabendo de nada, mesmo porque, aos 16 anos, uma garota tem coisas muito mais importantes pra resolver do que perder tempo com o que se passa nas cabeças ocas dos adultos. É que às vezes o diabo se compraz em fazer a panela, a tampa, o cabo, e tudo o mais.




*Este e os demais contos da série "Histórias para sempre lembrar" foram escritos por Osmar Pedro Calliari, pai da nossa querida Michele Calliari Marchese. Ele partiu ainda muito cedo, deixando um vazio que jamais poderá ser preenchido. Publicar aqui alguns dos textos que ele deixou escritos é uma forma de homenageá-lo e tê-lo sempre presente, porque enquanto houver memória haverá vida, História e histórias para contar.





© 2016 Blog Sem Vergonha de Contar - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do(a) autor(a). 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O Trato e as Mensagens


Por Helena Frenzel

Olhe, eu não gosto de escrever não. Aliás eu morro de preguiça de escrever, mas o trato foi o seguinte: se eu contasse o causo ela me deixaria em paz. Eis que Ella me aparecia em sonhos e quanto mais eu me negava a contar sua história menos ela se dispunha a me deixar dormir. Um dia, à beira de um ataque de nervos, cedi, contei tudo como ela me contou, tim-tim por tim-tim.

Tudo começou naquela tarde, quando eles chegaram sem aviso. Ella havia passado o dia inteiro limpando e organizando coisas, e enquanto limpava e organizava tralhas tinha a sensação de que sua vida não passava daquilo, de uma tralha limpa e organizada. 

Estava cansada, do trabalho e daquela vida de rotinas, pois até no trabalho ela organizava, ainda que fossem bytes, e aqui falo do trabalho que fazemos e alguém por ele nos paga, não daqueles trabalhos que sempre fazemos de graça e quase nunca recebemos sequer um "obrigado!" 

Se bem que, ao mesmo tempo em que sentia enfado, Ella se percebia quase feliz por ter uma vida tão previsível. E por isso se dizia grata, mas se era realmente… não sei.

Desde pequena cultivava o gosto de não andar pelas casas alheias. "Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz" foi um dos mantras de sua infância, ela me disse, e era também o que ela repetia para a filha que, ao contrário da mãe, era muito sociável. 

Quase todos os dias a menina recebia convites para brincar nas casas dos amiguinhos e por conta disso seria provável que os pais dos amiguinhos pudessem ter se achado no direito de autoconvidar-se a visitar os pais dos amiguinhos dos filhos sem pré-aviso. 

E foi isso o que um grupo deles fez naquela tarde. Ella atendeu à campainha e eles foram logo entrando (sem cumprimentá-la) e buscando acomodação, parecia que estavam entrando num local em que eram muito bem-vindos, como num restaurante do qual fossem velhos fregueses com lugares cativos. Só faltou pedir "o de sempre" e a comparação ao restaurante estaria perfeita, ela me disse. Em sua sala não havia mesas separadas, como é comum nos restaurantes, mas os autoconvidados foram se acomodando em grupos animados nos diversos cantos do recanto. 

Não paravam de contar coisas, animados, enquanto se livravam de seus pesados e fétidos casacos e parecia até que Ella não estava presente, tanto para os autoconvidados (melhor dizendo: os invasores) quanto para si, pois não podia crer na petulância daquele grupo chato de pais e mães. O que queriam e como assim chegar sem aviso? 

Bom, se Ella parecia não ser vista era de se esperar que não fosse ouvida também. Algumas mulheres do grupo se levantaram e foram até a cozinha abrindo armários e gavetas à procura de pratos, copos, talheres, comes-e-bebes, saqueando a geladeira como se a casa de Ella fosse uma extensão de um clube de pais e mães. E eles tinham uma cozinha própria também no clube? Desde quando?, ela se perguntou moldando no rosto uma expressão incrédula ao ver sua casa virada em pub e, pelo susto, não conseguia articular palavra, se bem que o olhar bastasse para expressar todos os impropérios que a estavam impedindo até de respirar naquela circunstância. 

Quando sentiu que a erupção viria inevitável e devastadora, porque raiva não se represa, Ella, prevendo os estragos irreparáveis daquele tremor, pegou a filha pelo braço e tratou de sair o mais rápido que pôde daquela casa, na qual passara muitos dias perdidos de sua vida limpando e organizando tralhas. Em passos rápidos e impulsivos, depois correndo, foi deixando para trás (e surpreendeu-se com a falta de apego) as coisas que não tinha mais a certeza se podia chamar de suas, e era como se deixá-las com aquele grupo de invasores não lhe doesse nada ou não lhe doesse tanto quanto cria que doeria —chegado o momento crítico da separação. 

A única coisa que Ella desejava era distância daquele povo, daquelas mães que falavam de outras que viviam postando tudo sobre os filhos nas redes sociais, mas que no fundo faziam a mesma coisa, pois ninguém podia sentar-se ao lado de uma delas num parquinho sem correr o risco de ter de ficar ouvindo (por horas a fio) as últimas conquistas de suas filhas ou filhos, ou ambos. Era o inferno na Terra... um parquinho cheio de mães. 

E Ella saiu correndo puxando a filha, e a filha corria porque Ella a puxava, Ella corria sem saber para onde ia e a filha corria olhando para trás como quem dissesse não estar entendendo nada, mas que sabia que era melhor correr. Era uma filha pequena ainda, nos anos menores que seis. 

As duas correram por umas ruas desertas de gentes e cheias de casas e parece que correram léguas sem se cansarem, pois a respiração seguia tranqüila (inacreditável!), contrariando a pulsação. Isso porque, nos respectivos peitos, os corações das duas saltavam mais do que milho virando pipoca, e nesse pipocamento Ella pensou que queria entender a anatomia e a geografia (nos sonhos) e não soube dizer por que estaria pensando naquilo já que aquelas ruas e aquela fuga eram muito reais. 

Bom, era final de tarde e era novembro, quando escurece mais cedo no hemisfério norte da Terra em que fomos paridos. Pode não ter sido nada disso, mas Ella teve a sensação de que a escuridão ia aumentando à medida em que elas corriam e, num momento, ela percebeu que as luzes dos postes estavam acessas e que as pessoas estavam dentro de suas casas, provavelmente jantando. 

Eram umas cinco da tarde, mas parecia já umas dez da noite por conta do breu, e só quando deixaram de correr e voltaram a caminhar em normal ritmo, foi que Ella e a filha começaram a sentir frio e ela percebeu que haviam fugido sem sequer um agasalho. 

Com medo de que se resfriassem Ella criou coragem de tocar na campainha de uma das casas e pedir ajuda e abrigo. Ela poderia ligar para o marido, pedir socorro, dizer que não se assustasse quando chegasse em casa e encontrasse a farra daquele grupo folgado de pais e mães. 

E pensando nele lembrou-se que aquele lá também vivia num mundo paralelo e que era capaz até que não percebesse nem a farra do grupo e nem as mudanças quando voltasse para casa (cheio de trabalho para casa) por volta das cinco. Mas alguma coisa Ella tinha que fazer. 

Abriu-lhe a porta um senhor simpático que sorria e Ella contou apressada que tinha saído correndo de casa, literalmente, que esquecera agasalho, celular e que precisava, se não fosse muito incômodo, de um lugar aquecido para aguardar por algum tempo e de um telefone para pedir ao marido que apanhasse as duas mais tarde, ali onde se encontravam. O senhor seguiu ouvindo, ainda sorrindo simpaticamente, e alargou a abertura da porta para deixar as duas entrarem. 

Lá dentro estava aquecido e o fogo na lareira era convidativo. Uma senhora igualmente simpática lia um jornal e não pareceu querer distrair-se para saber quem eram aquela mãe e aquela filha ou o que estavam fazendo ali com caras de frio. Por incrível que pareça Ella não se incomodou com aquela atitude nada empática da simpática senhora, que lhe pareceu muito natural porque quem está lendo geralmente não gosta de ser interrompido e trazido à força de volta ao mundo real, e os jornais de hoje em dia estão que só feitos de histórias fantásticas, surreais, daquelas que não se consegue mais encontrar em bons livros de fantasia e ficção —a concorrência está desleal. 

O senhor (que já não sorria) apontou o telefone enquanto sentava-se numa poltrona e retomava o seu jornal. Ella ligou para o celular do marido e como ele não atendeu, como quase sempre fazia, deixou uma mensagem na caixa postal e deu o endereço da casa do senhor simpático pedindo que, por cortesia, fosse buscá-las lá. E tendo feito isso, buscou, com a filha, um lugar no sofá, perto do fogo e longe do frio. 

O senhor simpático agora lia o jornal e mostrava uma expressão de riso diante das fantásticas histórias. Ella conseguiu ler na manchete de uma página que o ditador da Bugia estava exigindo a volta da pena de morte. Provavelmente para poder sumir legalmente com quem fosse crítico ao seu governo. E ainda têm a coragem de dizer que a Bugia é um país democrático… tsc, tsc, tsc —ela pensou mas não quis comentar e achou melhor deixar o casal simpático com seus jornais (e seria mesmo um casal casado, se é que isso importava) e ocupou os olhos observando o local. A filha —se pelo susto, pelo frio ou pela pouca idade— não demonstrava ter vontade de agir ou falar, limitando-se ao silêncio e a fazer tudo o que lhe pedia ou indicava a mãe.

Ella não teve tempo para pensar sobre o que estava observando no recinto porque, no segundo seguinte, soou a campainha e o senhor simpático pôs uma cara nítida de enfado (por ter sido outra vez tirado da leitura do seu jornal), levantou-se e foi resmungando até a porta. E eu sou imensamente grato por ela não ter tido tempo para ficar observando detalhes que me obrigassem a uma descrição bordada do local, coisa que odeio! Ainda mais porque não escrevo por gosto, escrevo porque quero a minha paz, e se for para me fazer críticas neste sentido sugiro que deixe de preguiça você também e imagine os personagens e os lugares. Estou lhe dando total liberdade interpretativa, quer coisa melhor?

Pois bem, mas voltando à campainha, Ella sabia que não podia ser o marido, porque não havia ainda nem cinco minutos da chamada e os serviços de telefonia eram rápidos mas não tão rápidos assim. O senhor (de novo mais simpático) voltou com um amigo da família que, logo descobriram (mas que coincidência!), era também um velho amigo de Ella e, de alguma maneira, ela não se surpreendeu ao encontrá-lo ali, porém não teve tempo nem vontade de pensar a respeito daqueles sentimentos e acasos porque o amigo recém-chegado, como se a visse todos os dias, foi logo perguntando o que ela ali fazia (na casa daqueles velhinhos) e neste momento Ella desejou que tivesse consigo um gravador-Zinho com o qual sempre andava e que tivesse já nele, gravada, a explicação que deu antes ao simpático senhor. E o gravador-Zinho não estava à mão, mas foi como se tivesse sido usado, pois Ella repetiu ponto por ponto, vírgula por vírgula rapidamente a história que contou ao velhinho, que também não vou lhe contar porque me dá uma preguiça e como eu já disse só estou contando esta história para poder dormir mais uma vez. Então que fique bem claro: não me preocupo com você. Aliás, por que cargas d’água eu deveria preocupar-me? 

Sim, mas voltando ao causo, o fato é que o amigo ofereceu-se para levar as duas para casa e naquele momento Ella se encolheu porque pensou que voltaria para aquela farra de mães e pais e teve a sensação doída de que um ácido lhe queimava o estômago. Então pediu ao amigo que por favor tirasse as duas dali mas que não as levasse para casa porque não queria aparecer no jornal do dia seguinte como a mãe tresloucada que assassinou aquele grupo de pais chatos, e também o marido, que vivia em outro mundo, e também o amigo, que levou as duas de volta para aquela casa em que ela só conhecia limpeza e organização. E disse tudo isso num átimo e olhou para a filha, que não merecia ficar sem os pais e nem com os amiguinhos órfãos, e olhou para o amigo ainda em tempo de notar-lhe o assombro e a falta de cor e chão. 

Ella, mais que depressa, não querendo que ele se sentisse na obrigação de cuidar delas, repetiu que só queria que ele fizesse o favor de levá-las dali para um outro local seguro e apertou a mão da filha para ter certeza de que a pimpolha ainda vivia. Não se preocupe, vou levar vocês para um lugar seguro, disse o prático velho amigo. E as duas se foram com ele, cada uma enrolada num cobertor emprestado dos velhinhos, mas antes de irem Ella ainda pediu ao senhor para usar o telefone mais uma vez, e este foi um grande erro porque então o senhor ficou zangado e explodiu, não pelo telefone, mas porque não queria mais que lhe interrompessem a diaba da leitura e mandou que Ella usasse a porra do telefone sempre que quisesse e que não perguntasse mais nada e Ella tratou de tapar rapidamente os ouvidos da filha com as duas mãos em concha, para que não se sujassem tanto com a porra daquele senhor. Mas as palavras não são sujas, elas apenas levam adiante as intenções de quem as usa. 

E Ella também não se assustou com a reação do senhor, agora descontrolado, pois entendia-o muito bem. Não gostava quando a interrompiam ou quando tiravam a sua paz, como havia feito aquele grupo asqueroso de pais e mães que só pensavam em se reunir para falar de filhos e filhas e Ella correu ao telefone e ligou para o marido dizendo que ela e a filha se iam com um velho amigo e que depois lhe telefonaria dizendo onde poderiam ser encontradas. 

Mais uma vez a mensagem ficou na caixa postal, porque o marido não gostava de ser interrompido quando estava no trabalho, embora já passasse das cinco, hora que ele, por hábito, deveria estar em casa ou por chegar. E o amigo? Esse passou o tempo da porra só observando, nada expressou. 

E para não correr o risco de levar outro esporro, Ella escreveu num papelzinho: "Muito obrigada pelo abrigo e pelas ligações. Depois lavo e devolvo os agasalhos. Deus lhe pague esta generosidade! Desculpe ter interrompido a leitura do seu jornal". Agradeceu só a ele, porque a senhora simpática seguia lendo o seu jornal, alheia a todo o resto. 

Então, agasalhadas, saíram as duas em companhia do amigo, o mais silenciosamente possível, deixando o papel dobrado sobre o sofá macio que até então haviam ocupado naquela sala não descrita. Entraram no carro do amigo, que era um carro preto antigo, e partiram. Desde então seguem viajando, as duas e o amigo, o que não deixa de fazer sentido, pois Um Lugar Seguro é um destino impossível de ser encontrado, não é verdade? E a Física dos sonhos não é a mesma da realidade, bem lembrado.

Bom, Ella me apareceu várias vezes em sonhos com um olhar vago perdido perguntando se o marido sequer ouviu as mensagens na caixa postal ou mesmo se o senhor simpático teria lido o bilhete. Ella imagina que as mensagens tenham se perdido em algum satélite e que um vento traiçoeiro (vindo da porta que se fechou vagarosamente quando os três saíram —e age a Física dos sonhos outra vez!— soprou na lareira o bilhete que ela deixara dobradinho sobre o negro sofá. O fato é que nunca saberemos, por isso ela praticamente me obrigou a escrever esta história, na esperança de uma resposta, seja do senhor simpático ou do marido ocupado.

Já eu, a única coisa que me pergunto é o que teria sido se Ella, ao invés de ter fugido, tivesse simplesmente dito àqueles pais e mães metidos que estava cansada, e que por isso não queria visitas naquela tarde, que queria só a paz da sua casa limpa e arrumada e que estava esperando o marido para que pudessem, seriamente, conversar. A verdade, nada mais do que a verdade, por vezes funciona. Teria funcionado? E se…? Não sei! Só sei que essa pergunta move as mãos dos escritores (e eu não sou um deles, você já sabe) e a Literatura, sem a qual não sei viver, pois leio com prazer e amo paradoxos. Por isso eu digo que fins, esta história pode até ter vários, porém o certo é que não tem final nenhum, pois se Ella me deixou em paz… aí já é outro causo!


Para Mayra, pelo insight. 
Para Michele, que me ensinou a amar causos.








© 2016 Blog Sem Vergonha de Contar. Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons - Atribuição - Sem Derivações - Sem Derivados 2.5 Brasil (CC BY-NC-ND 2.5 BR). Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito à autora original (Para ter acesso a conteúdo atual aconselha-se, ao invés de reproduzir, usar um link para o texto original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.