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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

1a Chamada Oficial de Contos e Causos – Resultado




Caro(a) Leitor(a),

Em primeiro lugar, agradecemos a todos que nos enviaram textos: estamos muito gratas e honradas pelas valiosas participações!

Em segundo lugar mas não menos importante, com grande alegria anunciamos os três melhores textos da 1a Chamada Oficial de Contos e Causos do Sem Vergonha de Contar:

O primeiro lugar ficou para QUEM É QUE PAGA HOJE?, de Heitor Herculano Dias.

O segundo e terceiros lugares, respectivamente, para LIBERTAÇÃO e A DENÚNCIA DO SUSSURRO, ambos de Conceição Gomes. 

Parabenizamos os colegas cujos textos foram selecionados e convidamos-lhe gentilmente a  conferí-los, vale a pena!

Obrigada a todos e boa leitura,



Helena e Michele
As donas do Blog! :-)

QUEM É QUE PAGA HOJE?



Se continuar esse calor do cão, hoje ainda chove. Pode ser, lá na minha rua, quando chove, é aquela sujeira pra não acabar mais, sabia? Não deve ser pior do que pras bandas lá de Belford Roxo! Pergunta aí pro Bragança. Aquilo não é lugar de se viver! Santa mãe! Sei como é, já tive lotado ali perto. A última vez que fui praqueles lados foi pra resolver aquela parada do doutor Xavier. Que Xavier? O substituto da trinta-e-nove! Conheceu ele não? Ah, sei, sei, mas ali não é Coelho da Rocha? Tudo a mesma porcaria, mermão, não vejo a hora de dar o pinote de lá. E por que tu fica? Causa da patroa, você sabe como é a Letícia, mãe, o irmão, um cunhado, tudo morando perto, e ainda por cima a escola dos garotos. É, sei como é que é. Olha só, olha só, o bicho aqui tá suando que nem cavalo, cumpádi! Fica nervoso não, cara, fica tranquilo que isso acaba logo. Churrascaria Assunção! Que é que tem essa churrascaria, Nanico? Viu não? Passamos por ela indagorinha! Claro que vi, mas se ficar olhando pra tudo que é letreiro que tem por aqui, motel, restaurante, posto de gasolina, acabo bobeando, não dá pra descuidar com tanto farol alto na cara da gente! Sei que não dá, mas é que me lembrei da Heloísa. Que Heloisa? Aquela capixaba que te contei, fiquei com os quatro pneus arriados por causa dela, ô menina da legal, gente fina mesmo. Olha só o Nanico aí, gente, gamadão! Quis casar não, cara? Casar? Casar como, rapaz, se a pensão da falecida me come quase metade do salário! Xiiii!!! Que fedor é esse? Olha, olha só, o infeliz aqui se sujou nas calças, olha só! Vê aí, Cardoso! Vê aí o quê? Tá me achando com cara de cheirar rabo de vagabundo? Gozado esses pilantras, na hora de aprontar, eles são machões de primeira, mas quando a gente grampeia o vagabundo é isso aí, só falta chorar e chamar mamãe. Ô meu camarada, fica assim não, falta pouquinho, um tiquinho de nada pra gente deixá você bater um papo com São Pedro! Relaxa aí. Mas a catinga tá demais, não tá dando pra aturar não, vamos encostar logo esse carro e resolver a parada, assim vou perder até o apetite, ainda não jantei, sabia? Deixa passar o trevo, lá é beleza, garanto. Ouvi dizer que no quilômetro vinte tem um boteco que serve uma tripa no capricho. E eu sou lá homem de comer tripa? Não, não, hoje vou levar vocês numa pizzaria que não está no mapa, garanto, tem lá uma garçonete com uns peitos que vou te contar, rapaz! Ha! Mas você tá a fim de comer pizza ou a garçonete, hein? Olha, é por aqui mesmo, reduz, reduz, Mariozinho, arma a seta, encosta, cuidado com a buraqueira! Beleza! Vem cá, ô seu moleque filho de uma égua, você sabe rezar, sabe? O bicho tem mais cara é de macumbeiro. Dá aqui a coisa, Nanico, assim, passa a ponta menor pra trás. Epa! Güenta firme agora, Cardoso, deixa o homem te chutar não. Vambora, gente. Força, isso, vai torcendo, pára não. O que foi, moleque? Hein? Tou ouvindo nada não. Fala mais alto! Olha a língua do infeliz só! Mais, mais um pouco, você aí, Nanico, sustenta desse jeito, isso!!! Mais um pouquinho só. Parou de tremer? É, já está dando boa-noite aos anjinhos o vagabundo. Mas que catinga, gente, o carro vai precisar de uma geral, vou te contar. Beleza pura, minha gente, agora é só desovar. Abre a porta aí, Nanico, e sai você primeiro. Deixa que eu puxo pelas pernas. Pronto, assim é que se fala, agora dá pra gente pegar aquela pizza, ô Cardoso! Estou com a boca seca, doido por uma loura geladíssima. Posso beber hoje não, gente. Por quê? Virou crente? Nada, é que tomei uns antibióticos prum dente que tá me dando uma dor de cabeça danada, e o doutor mandou não facilitar. Falou! Pronto, o presunto está entregue, quando chegar em casa bato um fio pro doutor Esperidião. Quem? O delegado da décima, conhece não? Ah, sei, foi ele que encomendou? Gente fina ele. Vambora, quem é que paga hoje?




QUEM É QUE PAGA HOJE? publicado com outros contos em Contos Suburbanos, 2010, pela CBJE, edição independente.



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LIBERTAÇÃO




As últimas pessoas despediram-se. Ela ficou apenas com os filhos, à beira do túmulo do esposo recém-sepultado. Um dos filhos perguntou se ela estava bem. Respondeu que sim, que estava muito bem. Pediu para ficar só, que mais tarde estaria em casa esperando-os para jantarem juntos, coisa que não faziam há tempos. Os filhos insistiram para lhe fazer companhia. Ela foi taxativa: não! Por fim, ficou só. Pediu perdão por não tê-lo feito feliz e perdoou pelos anos em que vivera oprimida sufocando seus sonhos. Disse adeus e saiu caminhando com passos decididos, sorvendo cada sopro de vento, abençoando cada raio de sol daquela morna manhã de outono. Estava livre para cortar o cabelo como bem entendesse, para dormir até tarde, receber suas amigas, jogar conversa fora, para ir aos lugares que quisesse. Estava livre até para ser plenamente dona de si e de sua felicidade.
Entrou no primeiro boteco que viu. Sentou, pediu pastel e uma cerveja preta. Saboreou cada minuto daquela quietude sem nenhuma pressa e compromisso... Foi até o salão de beleza, pediu um corte de seus vinte e poucos anos. Saiu de lá remoçada. Foi à vídeo locadora, à loja de discos e à livraria. Saiu carregada de pacotes, com tudo que lhe agradava. Chegou em casa, telefonou para os filhos, noras e genros, convidando-os para o jantar daquela noite... Comida chinesa que ela adorava e o falecido detestava. Ligou também para uma agência de viagens, marcou passagens e hospedagem para algum lugar de seus sonhos. Por fim, tomou um demorado e generoso banho, lavando-se das culpas e medos, das dúvidas e ressentimentos... Embelezou-se! Olhou-se no espelho e gostou do que viu. É vida nova, pensou com os olhos brilhando de esperança.


Conto publicado no Recanto das Letras em 2009.


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A DENÚNCIA DO SUSSURRO




Vindo ambos de relacionamentos desfeitos, encontraram-se na praça mais romântica da cidade. Confidencias trocadas, decidiram curar as dores da separação através de um casamento  relâmpago. Imaginaram ser possível esquecer  as vivencias  partilhadas em anos com outros companheiros. Ela,  jovem sonhadora, acreditava poder refazer a vida, bastando para isso a dedicação do novo parceiro. Ele, fascinado pela beleza dela, estava certo de que o amor do passado partiria para sempre de sua memória. Enquanto  a adrenalina dos preparativos tomava  todo o tempo, impedindo que parassem para pensar no que estavam fazendo, tudo parecia correr bem. Casaram-se! Mas, naquele quarto de hotel, reservado pelo noivo, sem saber que  já fora frequentado pela noiva, no momento mais intimo da noite, ela sussurrou baixinho o nome do ex. O fim do casamento foi ali mesmo, sem explicações inexplicáveis.



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