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quarta-feira, 13 de julho de 2016

O novo delegado


Por Michele Calliari Marchese

O Jurandir ficou assustado quando recebeu uma carta, nunca tinha recebido cartas, de modo que o susto não foi infundado. A missiva vinha da capital, cheia de selos e seu nome escrito à máquina o fez cheirar o envelope. Demorou pelo menos uma hora até que a sua mulher tomou a carta de suas mãos e abriu com um rasgo impiedoso, fazendo saltar de dentro um documento coberto de assinaturas e carimbos; tratava-se da nomeação dele como Delegado da Campina da Cascavel e no verso daquela folha havia as indicações e os feitos dele como cidadão exemplar.
Fez a mulher ler inúmeras vezes, pois não acreditava no que ouvia, e procurava o seu nome no envelope e tantas vezes fez isso que fatigou de tal forma que teve que deitar no sofá, sendo assistido pelos vizinhos que já sabiam de tudo, dada a gritaria da esposa na janela, dizendo o que havia acontecido.
Muitos parabéns, apertos de mãos, beijos das mocinhas mais atrevidas e a visita incólume do Padre Dimas, acompanhado do Frei Leonardo – aquele que veio em substituição a este – que abraçou o Jurandir num agradecimento eterno pelo salvamento de sua vida. Nunca iria esquecer. E pediu que lesse aquela outra página onde havia assinado a próprio punho seu nome como pároco oficial da Campina da Cascavel e encontrou também a assinatura do Júnior, seu companheiro corajoso naquela madrugada de desespero.
Chorou reconfortado pelos companheiros e ofereceu chá e bolachas de manteiga que a esposa tinha recém tirado do forno. Os convivas ficaram na casa do Jurandir muito tempo depois. A conversa girava em torno do abandono em que se encontrava nossa linda cidade e a chegada do Frei Leonardo, jovem ainda e com disposição suficiente para as lidas sagradas.
O Jurandir, já refeito da surpresa, pegou um papel e foi anotando todas as ideias que tinha com relação à cidade e de como iria – junto com a população – empreender a segurança geral e psicológica daquela gente tão acolhedora e pacata. Comprovou que por uma sorte enviesada, naquele período que não teve delegado na cidade, nenhum jagunço apareceu, nenhuma tocaia fora feita e a única desgraça que ocorreu havia sido por causa daquele falso messias que sequestrara o Padre Dimas, sem sucesso é claro, por conta da coragem dele e do Júnior. Jurou descobrir o assassino do antigo delegado, e mesmo após a sua morte, muitas décadas depois, esse mistério nunca foi solucionado.
Olhou com enlevo para o Júnior e este ficou meio sem jeito, porque não entendia aquele olhar de piedade para com a sua pessoa e tampouco sabia o que se passava na cabeça do Jurandir.
Todos fizeram colocações a respeito da segurança e o Jurandir cansou a mão de tanto escrever, tendo como primeira atitude enviar o falso padre que estava preso na despensa da delegacia para o presídio de Curitiba e chamou o filho mais velho para que continuasse com o projeto, porém, com a letra praticamente ilegível, não foi possível ao novo delegado lembrar-se – mais tarde – do que estava escrito a partir do número cento e dezesseis.
O delegado Jurandir não via a hora de chegar à delegacia; faria arranjos, limpezas, empunharia as armas do antigo delegado com orgulho e determinação e contaria com a ajuda dos muitos amigos seus e dos defensores da lei. 
Sabia em seu íntimo que teria desafetos, como os teve o antigo delegado, mas enfrentaria com a energia moral necessária para a sobrevivência e a esse pensamento lhe doeu a bexiga e uma vontade doentia de urinar lhe fez soltar um gemido, impróprio para a pessoa do delegado – como ele pensara naquele momento de dor – mas impossível de ser contido.
Naquela época já tinha um médico na cidade e ele veio às pressas, trazido pelo vizinho do Jurandir, que achou que o homem morreria sem mesmo ter ocupado por um dia a cadeira da delegacia. O médico tratou Jurandir com as beberagens comuns naquela época e a doença urinária foi contida e em momentos de paz e harmonia social nunca incomodou, porém jamais foi curada em sua plenitude e isso o delegado Jurandir somente descobriria quando acontecesse alguma coisa insólita na Campina da Cascavel.

E então, a partir de 1939, o delegado Jurandir, Frei Leonardo e o Júnior – o filho do tabelião – juraram em praça pública, perante uma multidão, “que estariam ali para assegurar o povo e trazer tranquilidade às casas de família, aos sozinhos e abandonados e a todos os que fizeram dessa nossa terra, seu chão permanente de vida, crescimento e amor.” Trecho do discurso de posse do delegado Jurandir naquele dia primaveril. 


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quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Messias


Por Michele Calliari Marchese

Esse causo aconteceu quando o padre Dimas já estava bem velhinho e aguardava a vinda de um novo pároco para substituí-lo na lida divina. Esperava aposentar-se ainda naquele ano –faria 95 anos em setembro–, tinha planos de somente atender a população que precisasse de palavras de consolo. 
No começo de uma tarde qualquer, bateu na sacristia um homem que trajava roupas pretas desbotadas, uma barba de semanas a esconder-lhe o sorriso sem alguns dentes e um olhar sem viço, sem brilho; o olhar dos maus. O padre Dimas teve uma péssima impressão da visita e mais ainda quando aquele homem respondeu que estava ali a mando do serviço de Deus e que vinha para ficar. 
Convidado a entrar, o barbudo que atendia pelo nome de Izaldo, comentou que tinha que começar os serviços religiosos naquela paragem e pediu onde ficava o seu quarto para guardar os poucos pertences que trazia e que tinha fome e ansiava por um banho. Pediu ao padre que desse aquele cavalo amarrado lá fora, desse para algum vivente necessitado que fizesse bom uso do animal.
O padre acostumado com todo o tipo de embuste que assola a cidade resolveu guardar o animal em local escondido, pois que poderia ser fruto de roubo e escreveu uma longa carta para a prelazia de Palmas, onde, naquela época funcionava o bispado da região. Além dos diversos assuntos de batizados e casamentos, quis certificar-se de que o dito do Izaldo era mesmo aquele que viria a substituí-lo.
Mandou a primeira pessoa que passou por ali entregar a carta ao caixeiro viajante do Paraná que se hospedava no hotel, para que fosse entregue sem mais demora em mãos e que voltasse com a resposta.
Enquanto a carta viajava a passos lentíssimos, o Izaldo resolveu rezar a missa daquele dia da chegada, mas o padre não permitiu. Explicou que não tinha os documentos comprovando que era ele de fato seu sucessor, não que desconfiasse, mas era preciso assinar folhas e reconhecimentos. O Izaldo se ofendeu e num assomo de maldade, deu um empurrão no padre Dimas que o fez cair de costas no chão, machucando-o com severidade e impossibilitando-o de pedir ajuda a quem quer que fosse. Arrumou o padre acidentado em cima da cama, tirou-lhe os sapatos e cobriu com a coberta que trouxera de viagem, e que cheirava a suor. Ao padre Dimas somente restou-lhe chorar as dores que sentia e rezar para que alguém entrasse na igreja e solicitasse a sua presença.
Porém um entra e sai de gentes aconteceu durante muito tempo e todos pediam do padre Dimas, ao que o novo padre respondia que tinha se aposentado e ido viver no lar dos padres, no Paraná, que não se condoessem, pois ele –padre Izaldo– estava lá para livrar as almas do inferno e que se o padre Dimas não havia se despedido, era porque ele queria que fosse assim, sem despedidas, sem comoções por parte do povo.
Rezava as missas com um arrepio de felicidade.
Quem desconfiou de toda a coisa foi o dono do lugar onde estava escondido o cavalo do Izaldo. Ele sabia de tudo porque o padre Dimas havia confiado nele todas as suas dúvidas, inclusive relatou todo o teor daquela carta enviada a Pato Branco. Como a situação da Campina da Cascavel era deveras assustadora, pois com a morte do delegado, os outros que vinham para trabalhar aqui não tinham a frieza para aguentar tantos assombros e calamidades e partiam à noite como jagunços foragidos e a cidade estava à mercê de tudo e então ele decidiu chamar o filho do tabelião –já morto– e contar as coisas e interceptar aquele caixeiro viajante do Paraná que decerto traria a resposta para todas as perguntas e mais: que eles fossem, ao frio da madrugada, espreitar a sacristia para ver mais sobre aquele homem, o Izaldo.
O filho do tabelião aceitou na hora, pediu um tempo para que fosse à casa pegar a arma do pai e que logo voltaria para resolverem o imbróglio. 
De madrugada, tiritando de frio e de medo, Júnior – o filho do tabelião –e o Jurandir, aquele que escondeu o cavalo do Izaldo– foram pé ante pé espiar na janelinha da sacristia, porém estava muito escuro e não viram nada somente o breu e os vidros embaçados do calor do quarto. Já estavam assustados e ficaram ainda mais quando escutaram gemidos baixinhos. 
Não sabiam o que fazer e tomaram a resolução que acabou salvando a vida do padre Dimas; com a força que o medo embute nos músculos, Jurandir deu um pontapé e arrombou a porta destrancada. Encontraram o padre Dimas suando as dores da queda e o Júnior num ímpeto carregou-o para fora e levou-o sem mais demora à sua, onde a mulher cuidaria dos ferimentos e mandaria buscar o médico; e o Jurandir com um pedaço de pau na mão foi atrás do Izaldo que dormia placidamente em cima da mesa de altar, vestindo as roupas do padre Dimas e tinha os terços enrolados em seu rosto de doente e aquela visão quase fez Jurandir vomitar de aversão. O Izaldo acordou assustado e começou a falar coisas sem nexo, sobre a vinda de sabe-se lá quem, que ele era o Messias e outras tantas que deixaram o Jurandir estupefato.
Amarrou as mãos daquele meliante com a corda das vestes do padre e o dia raiou. Justamente quando o Júnior chegara para ajudar o Jurandir, apareceu também aquele caixeiro viajante com a carta resposta do Bispado de Palmas onde dizia não reconhecer nenhum pároco chamado Izaldo e que mandariam frei Leonardo no mês seguinte para dar sequencia ao excelente serviço prestado pelo padre Dimas à população da Campina da Cascavel.
O Izaldo ficou preso na despensa da delegacia, cuidado pelo revezamento feito entre os homens da cidade até que um novo delegado fosse nomeado e então seria encaminhado ao presídio de Curitiba, aquele, aonde o preso nunca chega. 


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quarta-feira, 27 de abril de 2016

As incríveis aventuras do Delegado Jurandir - Uma chave estranha


Por Michele Calliari Marchese

Esse causo aconteceu quando o delegado Jurandir estava assistindo à missa das oito e quando se ajoelhou para rezar encontrou uma chave enferrujada debaixo da cadeira do vizinho da frente. Esperou que aquela pessoa se levantasse para então perguntar se havia perdido a chave. Diante da negativa, não restou alternativa ao Jurandir que não fosse interromper a missa e explicar o ocorrido ao frei Leonardo que prontamente o atendeu.
A chave não era de nenhum dos presentes, porém ficaria guardada na sacristia se acaso dessem conta do sumiço da dita cuja ou se soubessem de alguém que a tinha perdido.
No final da missa o frei pendurou a chave num dos pregos da parede da sacristia, junto com as outras chaves do lugar. 
No dia seguinte, quando o delegado foi à mercearia comprar erva para o chimarrão, encontrou a mesma chave na calçada, igualzinha àquela de ontem, na igreja. Decerto que o frei havia sabido de alguma coisa e saiu para entregar a chave e acabara perdendo-a novamente. Iria até lá para devolver. Chegando à sacristia encontrou frei Leonardo esfregando alguma coisa em cima de sua mesa e tinha suor brotando de sua testa no esforço da lida, tinha também muitos livros abertos ao redor daquele trabalho e um óculo de aumento que volta e meia servia para olhar alguma gravura daqueles livros para em seguida continuar com o que estava fazendo.
O frei assustou-se com a presença do delegado e chamou-o para sentar ali onde estava esfregando aquela chave de ontem, aquela que o delegado achou no chão da igreja e assustou-se ainda mais quando o delegado sacou do seu bolso outra chave igual e colocou-a ao lado da primeira e viram que elas eram tão iguais que não saberiam dizer qual era a primeira que havia sido encontrada.
Pois o frei, recostando-se na cadeira, disse ao delegado numa voz de desgraça que faltavam mais cinco, então, de acordo com os vários livros que lera e que era por isso que estava esfregando, porque as chaves continham frases secretas e dizeres que quando postas na sequencia exata fariam com que o céu se instaurasse na terra. “No sentido figurado”, apressou-se em dizer o frei. “Acho.”
O delegado Jurandir passou aquela semana estudando os livros na sacristia do frei Leonardo e muitas missas foram esquecidas e alguns pequenos delitos também. O imediato é que ficara responsável pelas rondas e muita vez voltava com uma chave na mão. 
Tinham seis chaves iguais e postas em cima da mesa. Suas gravuras ininteligíveis tornavam o serviço extenuante, não havia meio de descobrir que língua era aquela e uma dúvida cruel abateu-se sobre os dois: se estariam sendo incautos em buscar uma coisa que jazia perdida por aí, entre a poeira e o esquecimento. 
Na fadiga daquela noite, o delegado mudou a ordem das chaves e então um vento ruidoso começou a soprar. “São os ventos fora de hora”, disse-lhe o frei, e ele nunca tinha ouvido vento uivar, parece cães ou lobos ou o diabo que o parta, e ficou assustado com aquilo e fecharam as portas à tranca, as janelas com os trincos e acenderam mais velas que o normal, para que não ficassem no escuro escutando aquele barulho medonho. Mas um misto de felicidade pela descoberta da posição de uma das chaves brotava como um prêmio pelos incessantes estudos daquela semana.
Quase que freneticamente eles trocavam a disposição das chaves e esperaram por algum tempo para ver se acontecia algum imprevisto como o do vento uivante e só o que conseguiram foi que o vento parasse de uivar.
Resolveram abrir a porta da sacristia para que entrasse ar puro e quando a porta estatelou na parede eles deram de cara com o além. Tiveram muita dificuldade em firmar as vistas diante daquela nebulosidade extremamente branca, doída e cujo cheiro – para o delegado - era da paz e do alento. Deram-se as mãos num instinto de sobrevivência e o frei foi capaz de soltar um longo suspiro de desespero e então eles vislumbraram entre as brumas daquele nevoeiro uma porta.
Essa porta era imensa e isso condizia com o tamanho que as chaves tinham e o delegado chegou a pensar por um momento que eram os portões do céu e estava pegando a primeira chave de cima da mesa quando o frei lhe chamou a atenção, dizendo que não fosse abrir porta alguma, que aquietasse o ânimo aventureiro e que o céu, se existisse, estava no coração das pessoas. Porém, o delegado muito crente em suas convicções religiosas não escutou os apelos do frei e tinha a cegueira nos olhos e a primeira chave na mão. 
O frei, muito apavorado, resolveu fechar a porta da sacristia rapidamente, mas o delegado – muito mais forte que ele – deu-lhe um empurrão e os dois atracaram-se como dois inimigos de morte e tombaram no piso frio desferindo-se coices e tapas. Numa reviravolta de corpos o frei conseguiu dar um chute na mão do delegado que soltou a chave e largou do frei para busca-la e percorreu a sacristia inteira de cabeça baixa olhando por sob os móveis e cadeiras e levantou-se para pegar a segunda chave de cima da mesa e deixando o frei caído com o nariz sangrando saiu porta afora. 
Mas aquela porta não mais se encontrava no lugar que tinha sido vista e o delegado deu-se conta do ocorrido e lamentou profundamente a surra dada no frei e levantou-o para que pudesse atendê-lo com unguentos. Muito provavelmente, só se poderia usar a segunda chave se esta estivesse na ordem certa e depois de se ter aberto a primeira porta com a primeira chave, aquela dos ventos, e então se aperceberam que o vento havia amainado e a neblina se desfazia aos poucos, dando lugar ao brilho das estrelas.
O delegado Jurandir ajoelhou-se e contou ao frei tudo o que tinha visto; as maravilhas do céu de sua alma e compadeceu-se por ter perdido tudo aquilo ao seu alcance, mesmo faltando a última chave, e o frei, muito consternado com aquela situação tão diferente da sua, pois que tinha visto o inferno a corroer-lhe as entranhas, mas isso ele nunca contou ao Jurandir, pois se fosse realmente o céu a desprender-se à frente do delegado, este nunca teria tido atitudes de violência inconsolável. As chaves eram o acesso às portas da desgraça da Campina da Cascavel.
Depois do ocorrido, lançaram as chaves ao léu, a quilômetros de distância uma da outra para que nunca pudessem ser juntadas novamente e para que nunca abrissem as portas do desconhecido e da morte iminente. 

Muitos anos depois, quando frei Leonardo faleceu, encontraram num dos bolsos da batina uma chave que não coube em nenhum lugar e resolveram enterrá-la junto com o corpo. Era a sétima chave.



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quarta-feira, 6 de abril de 2016

As incríveis aventuras do Delegado Jurandir - O tesouro do Rio Ditinho


Por Michele Calliari Marchese

O delegado Jurandir estava em uma de suas rondas a cavalo na Invernadinha; vinha margeando o Rio Ditinho quando encontrou um corpo boiando e preso entre uma galhada de árvore; o morto estava atado pela camisa.
Sacou de seu revólver e desceu da montaria escondendo-se num mato próximo a cuidar se o assassino estava por ali. Depois de algum tempo pensou que talvez tivesse sido um descuido daquele morto que provavelmente não sabia nadar. Tampouco ele o sabia e sem a ajuda de alguém não conseguiria fazer o resgate.
Voltou para a cidade e chamou o imediato que trouxe consigo muitas cordas e com a ajuda dos cavalos conseguiram trazer o morto para a margem e reconheceram o dito cujo como sendo um morador daquela localidade.
Porém, logo que eles assentaram o corpo na terra, um pequeno redemoinho se formou naquele mesmo lugar onde estava o falecido e aquela galhada sugeria um acesso lúgubre ao desconhecido. O delegado foi tomado de arrepios pelo corpo todo e o imediato lhe chamou à razão, pois que as mãos duras do jazido escondiam pequenas joias que segurou antes da tragédia do afogamento.
Delegado e imediato se olharam assustados e em seguida olharam para aquele redemoinho que aumentara de tamanho, o tamanho de um homem. 
Enquanto o Jurandir pensava em uma maneira de avisar os parentes daquele morto, o imediato tentava a todo custo abrir aquelas mãos ricas e tomar para si o pequeno tesouro escondido da brutalidade da morte. Aquelas joias poderiam ser o produto de algum furto, e o redemoinho chamou-lhes a atenção.
Elaboraram um plano minucioso. Primeiro colocaram um pedaço de pau para ver a fundura daquele lugar e em seguida mediram as cordas. Iria o delegado, impetuoso em sua curiosidade e nu para não ficar preso em alguma coisa que poderia surgir pelo caminho. Amarrou uma lanterna envolta num pedaço de pano no braço, uma ponta da corda na cintura e a outra ponta na sela do cavalo e regularam seus relógios para que de três em três minutos o delegado puxasse a corda para avisar o imediato que estava tudo bem, caso não houvesse o puxão, ele faria com que o cavalo andasse e puxasse o delegado imediatamente.
Suando em bicas e só de ceroulas, subiu por aquela galhada que servia de acesso àquele portal misterioso e disse: “Pronto!” e o imediato começou a soltar a corda para a descida mais incrível da vida do Jurandir. 
Pela entrada do redemoinho o delegado já pôde vislumbrar o fundo do rio e a altura dava em torno de quatro metros e não havia nada lá a não ser areia e pedras. Estava quase desistindo de descer mais quando, à sua direita, estava em formação um redemoinho lateral. “Impossível”. Exclamou o delegado e gritou para o imediato sobre aquela coisa inexplicável. Pegou a lanterna e focou naquela entrada e ficou pasmo com a quantidade de ouro e pedras preciosas que juntas seguiam em rastro até um ponto escuro como o breu e sem alcance para a luz da lanterna. 
Sentiu ímpetos de seguir por ali, porém davam os minutos da razão de mantê-lo vivo naquela empreitada e puxou a corda para avisar o imediato que estava bem. Pegou nas pedras preciosas e uma ganância sem precedentes tomou conta de seus pensamentos e não tinha bolsos para guardar tamanho tesouro e imensa fortuna, pois estava de ceroulas e não atinava na possibilidade de como guardar tudo aquilo que tinha escorrendo pelos dedos.
Deu mais um puxão na corda.
Colocou o braço profundamente naquele buraco de água para tentar iluminar ainda mais e o que viu o fez vomitar. Tinha cadáveres por todos os lados e todos de alguma maneira vestiam as joias mortíferas. Era horrendo tudo aquilo e então ele viu esqueletos debaixo da água e entre eles esqueletos com braceletes de ouro e pedras preciosas, colares das mais imensas pérolas já vistas na humanidade, brincos de ouro talhados minuciosamente por algum ourives do mal. Coroas flamejantes que deveriam pesar mais de vinte quilos adornando o crânio quebrado e tombado na areia do fundo do rio. Viu também um objeto que cuspia as joias e todas aquelas maravilhas infinitas e lembrou que havia lido e visto em algum lugar que aquilo se chamava cornucópia.
Faltava-lhe o ar naquele buraco insalubre e pestilento. Então ele viu uma mulher, e talvez tenha sido a mulher mais linda que ele já vira em sua vida e que lhe pedia socorro, porém tinha os braços repletos de joias, nem todos os soberanos juntos tinham a riqueza da vestimenta daquela mulher e ela segurava com sofreguidão uma coroa lindíssima a lhe cobrir os cabelos ruivos. E ficou atordoado por não conseguir desatar o nó da corda em sua cintura para salvá-la e tremia por não conseguir focar a lanterna no desespero daquela alma no fundo do rio.
O imediato não pensou duas vezes, passou cinco segundos do minuto três e ele deu uma espalmada na anca do cavalo que o fez saltar e correr em disparada trazendo para a margem o delegado são, salvo, mas com os olhos esbugalhados. Morreria se ficasse lá mais um pouquinho. E contando ao imediato tudo o que vira, contou da mulher e da triste conclusão que tirara quando se apercebeu dos corpos e esqueletos jazidos no fundo do rio sem esperança de que boiassem pelo fato de estarem repletos de joias a lhe cobrirem os corpos decompostos.
Abriu o envoltório da lanterna e retirou de lá várias pedras preciosas para comprovar tudo o que havia dito e visto e o imediato se benzia de quando em quando e tirou dos seus bolsos aquelas joias que conseguira tirar das mãos do morto e disse serem amaldiçoadas e que nunca, nem em confissão contaria o que havia ali, naquele rio tão perto da cidade e tão profundamente monstruoso.
Jurandir pensou também que se entregasse o falecido com as joias nas mãos a população pediria explicações e iriam sem mais demora àquele redemoinho dos diabos e a catástrofe se instalaria na Campina da Cascavel. Cortaram a árvore para que ninguém mais se pendurasse nela para olhar o inferno e então como num estancar do tempo, o redemoinho se fechou para sempre.

Levaram o corpo para a família velar. As joias foram doadas ao Frei Leonardo para que ele construísse um centro comunitário para as festas da igreja.

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quarta-feira, 30 de março de 2016

As incríveis aventuras do Delegado Jurandir - O cemitério abandonado


Por Michele Calliari Marchese

Foi quando o delegado Jurandir fazia uma ronda que viu um vulto esgueirando-se pela mata. Imediatamente pensou que naquela herdade não poderia ser morador, mas sim jagunço foragido. Amarrou o cavalo numa árvore próxima e silenciou como a calmaria de um poço profundo, cujas águas jamais se movem, e procurou escutar a respiração daquela figura sorrateira que decerto estaria escondida mais à frente.
Estava nervoso e tocou em seu revólver várias vezes para certificar-se de que estava em sua cinta e não ouviu nada além dos barulhos da natureza e de alguma fonte próxima que vertia incólume debaixo de alguma pedra.
Andou alguns poucos passos e se assustou com o estalido que sua bota provocara ao quebrar um galho seco e o suor brotou de sua testa. Respirou fundo e andou mais e mais e mais e não via mais aquele vulto e tampouco vestígios de que alguém ou algum animal passara por ali. Resolveu voltar.
No entanto, foi tomado de sobressalto ao ver à sua esquerda o vulto aparecer e desaparecer e mudou a direção, agora com o revólver na mão.
Chegou numa clareira e amaldiçoou-se por não ter trazido o imediato, porque ali estava um imenso cemitério. Um cemitério abandonado. Dos mortos não tinha medo, tinha medo dos vivos, mas aquela aparição que lhe chamara a atenção na estrada não estava no rol das buscas, pois que não era jagunço, tampouco foragido, não era bicho, não era nada e àquele pensamento teve ímpetos de fugir o mais rápido que pudesse, porém um jazigo coberto com as mais lindas flores brancas se sobressaía naquele deserto de extinção humana.
 Não lhe foi possível contar, sem se perder nas contas, a quantidade de cruzes de madeira, caídas, deterioradas e cujas inscrições – se havia – tinham-se perdido no tempo e no espaço e das lembranças dos vivos. Não tinha conhecimento daquele lugar e assustou-se com os diversos tamanhos das covas de terras já tomadas de matos a lhes enfeitar o túmulo. Sozinho não era possível fazer o censo daquele povo. Teria que voltar à cidade, chamar o imediato, o Frei Leonardo e quem se dispusesse a transferir aquele cemitério abandonado para o cemitério da Campina da Cascavel; também aqueles mereciam as missas de Finados.
Mas aquela tumba florida não lhe saía do campo de visão. Era linda demais no meio daquele caos miserável e esquecido. Foi até lá e a cruz estava de pé como se tivesse sido posta naquela semana e as inscrições feitas com uma letra muito caprichada dizia que ali jazia Baltasar. Sem sobrenome. Havia nascido em vinte e seis de junho de 1884 e morto de tiro em dezesseis de outubro de 1916. O delegado, acostumado com as lápides antigas, onde se dizia do que havia morrido aquele morto, não estranhou o fato de que aquele que estava ali morreu de tiro. Só não dizia onde. Mas enfim, se estavam em 1940, pensou, como é que pode um túmulo estar tão novo assim? A terra da cova era fresca e revirada como acontece quando o coveiro abre o buraco e depois tapa com a terra retirada; e aquelas flores? Frescas, lindas, cheirosas, como se tivessem sido postas naquele exato momento em que aparecera. 
Sim. Definitivamente deveria voltar à Campina para chamar o máximo de gentes dispostas a ajudar naquela empreitada. Antes, porém, teria uma conversa com o Frei Leonardo para que ele rezasse para aquelas pobres almas. Marcou o lugar abrindo uma trilha a facão e quebrando muitos galhos para não esquecer, apesar de que jamais se esqueceria desse episódio, porque aquele vulto que lhe apareceu na estrada o acompanhava invariavelmente e sem cansaço. Como uma sombra negra grudada em seu corpo.
Frei Leonardo ficou assustadíssimo com a informação sobre a existência desse cemitério abandonado e imediatamente ligou os fatos e datas e explicou ao delegado Jurandir que naquela data da morte do Baltasar havia acabado a guerra dos Pelados e que provavelmente aquele lugar era o refúgio de muitos soldados daquela conflagração, mortos, muito seguramente por rebeliões entre si e que o último, aquele Baltasar, fora enterrado pelo maior bandido dentre todos e que seguia fugindo, até ser preso pelos militares algum tempo depois.
Faria a missa sim, sem mais delongas e durante o sermão convocou os homens da Campina munidos de pás e carroças para, juntos, fazerem um imenso mutirão de retirada dos restos mortais de uma tropa remanescente da guerra dos Pelados. 
O delegado encabeçou a comitiva e quando chegaram lá identificaram rapidamente a trilha que ele havia feito no dia anterior, porém quando chegaram à clareira encontraram somente um túmulo, aquele do Baltasar, em frangalhos, sem nenhuma característica daquela que ele havia comentado ao Frei, e percebeu num frêmito que a sombra partira do seu lado para nunca mais voltar.
Ninguém desdenhou dos fatos relatados pelo delegado e começaram a cavar a tumba e encontraram os ossos, e mais ossos e esqueletos inteiros que se estendiam uns por cima dos outros, como numa grande carnificina, jogados numa vala comum, tendo somente uma cruz a lhes salvar as almas corrompidas pelas traições e pela guerra.
A consternação tomou conta de todos os que estavam lá para ajudar, e, arrepiados entoaram cânticos enquanto enchiam carroças e mais carroças com os ossos daqueles mortos sem lembrança, daqueles esquecidos por todos e encontrados pelo delegado, havia muitas armas junto, balas, facões, farrapos de roupas que dantes cobriam corpos saudáveis que lutaram por um ideal que se perdeu nas brumas do tempo.

E esse episódio nunca foi esquecido por nenhum daqueles que ajudaram na empreitada e foram enterrados juntos como sempre, porém com a diferença de serem encontrados um a um.


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quarta-feira, 23 de março de 2016

As incríveis aventuras do Delegado Jurandir - O causo dos passarinhos


Por Michele Calliari Marchese

Esse causo que aconteceu foi deveras assustador. Foi num dia muito ensolarado, na semana da Páscoa. O Jurandir e seu vizinho foram caçar passarinhos na mata da propriedade dele e levaram provisões e munição para passarem o dia lá. Depois de exaustiva caminhada sentaram-se sob frondosa árvore e trataram de carregar suas espingardas quando encontraram uma meia dúzia de passarinhos no chão, mortos. O vizinho riu-se da tragédia alada e achou tratar-se de caçadores não convidados e invasores de propriedade alheia e, sendo assim, trataram de esquecer os passarinhos e caçar os caçadores. 
Andaram por toda a terra do Jurandir, vasculharam cada matinho, cada arbusto e ergueram tantas pedras quantas lhes foram possível erguer. Não encontraram nada, nem sinal de pegadas, galhos partidos, cartuchos disparados. Chegaram à conclusão que aqueles passarinhos deveriam estar mortos há dias pelos incautos invasores que fugiram sem leva-los.
Voltaram para o ponto de partida e já não encontraram mais os passarinhos no chão e preocuparam-se deveras porque poderia ser que o desaparecimento dos corpos fosse obra de onça, ou de javali, e ficaram em dúvida se javali comia passarinho ou não, porém por via das dúvidas resolveram fazer outra busca pela mata.
Se fosse onça, aqueles cartuchos de espingarda de pressão só fariam cócegas e era acertar ou correr e começaram a ficar com medo, inclusive de javalis. Arrumaram as armas e quando voltaram àquele ponto de partida não puderam mais andar, pois que era tão grande a quantidade de passarinhos mortos pelo chão que faziam pequenos montes aqui e ali, impedindo que eles avançassem e eles iniciaram – cada um por si – rezas silenciosas, porque aquilo era obra do capeta e não da natureza e tampouco de invasores. O vizinho do Jurandir tratou de ajoelhar porque estava tão assustado que lhe faltaram as pernas e ele nunca tinha visto nada igual em sua vida, e cruzou as mãos enquanto balbuciava palavras ininteligíveis e apavoradas e o Jurandir – para se mostrar mais corajoso que aquele ajoelhado – deu um tapinha nas costas do amigo e disse que sendo assim estavam economizando cartucho e pontaria e ele já não estava mais tão bom das vistas como há trinta anos atrás. 
Bastavam-lhe que ajuntassem o que iriam comer mais à noite. O vizinho não acreditou naquelas palavras embusteiras, pois via um fio grosso de suor escorrendo pela testa do Jurandir e lhe disse que também se ajoelhasse porque estavam vivenciando coisas do além, que fechasse os olhos e rezasse porque aquela miséria na frente deles não era normal.
O Jurandir muito a contragosto ajoelhou-se também e fechou os olhos e nenhuma oração lhe vinha à mente e arrependeu-se de dormir durante as novenas no Frei Leonardo e ficaram os dois assim, tomados pelo medo e pelo desconhecido e quando o vizinho abriu os olhos, aquela montoeira de pássaros mortos não estava mais lá. Desabalaram numa correria de dar dó, esqueceram tudo naquele local e então os pássaros começaram a cair em cima de suas cabeças, como uma chuva sem precedentes e machucavam todas as partes do corpo aonde batiam para depois estatelarem-se ao chão e eles olhavam para trás e aqueles pássaros que antes caíram em suas cabeças não existiam e no horizonte se via uma nuvem escura de aves a avançar-lhes e os passos apavorados de homens impotentes perante o sobrenatural.
Foi quando caiu um urubu em cima da cabeça do Jurandir que ele caiu no chão desmaiado pelo impacto. O vizinho voltou para acudir e dava tapas esbaforidos no rosto do amigo enquanto mais e mais pássaros caíam em cima deles sem piedade, para depois sumir e voltar com força ainda maior como se de um deles se fizessem dois e assim sucessivamente até que o vizinho tratou de deitar sobre o corpo do Jurandir para protegerem-se os dois daquele inferno pascoal. O piar daquele exército era ensurdecedor e mal se podia respirar ante o ataque inusitado das milhares de penas que iam se amontoando sobre eles, enterrando-os numa fofura impossível de descrever.
O Jurandir por fim acordou com o peso do amigo sobre si e tentou desvencilhar-se daquele contato indesejado e não sabia onde estava e inconscientemente saiu apalpando a cinta para pegar o revólver, mas estava tudo nebuloso, sem ar, sem o silêncio da mata, só os gritos do vizinho em seu ouvido lhe davam conta da gravidade da situação.
Achou o revólver e começou a atirar a esmo, para que tudo se aplacasse enfim e gastou todas as balas e acabou dominado pelo cansaço da empreitada e conseguiu tirar o vizinho de cima de si com um supetão e descobriu aparvalhado que o amigo era desmaiado. Decerto de tanto lutar contra aqueles pássaros e passou a mão na cabeça e sentiu que estava molhado e olhou os dedos e constatou ser sangue e desmaiou logo em seguida, pois não era muito forte para ferimentos.
Acordaram os dois com os chacoalhões dos familiares que se assustaram com os tiros de revólver e resolveram ir atrás para saber o que acontecia e esperaram respostas que não puderam ser dadas porque ninguém acreditaria numa história dessas e tentou mostrar o ferimento na cabeça – que ainda lhe doía – mas também, assim como os pássaros, não estava mais lá.


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