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quarta-feira, 14 de junho de 2017

O Vale dos Reis e a Campina da Cascavel


Por Michele Calliari Marchese

Estive lendo esses dias um livro intitulado “Tutancâmon – O último segredo”, que me foi presenteado por um cunhado gente fina, sabedor que sou uma aficionada por livros de toda sorte. Escrito romanticamente por Christian Jacq, conta a história de um advogado que busca o último segredo da tumba do faraó mais misterioso de que se teve notícia e esse último segredo, terminadas as quatrocentas e setenta e seis páginas, continua em segredo.

Mas não é sobre esse segredo que venho alertar a nobre população da Campina da Cascavel cujos campos abrigam imensos cemitérios indígenas, suplantando o mísero Vale dos Reis, no Egito, onde foram encontradas grande parte das tumbas dos faraós de suas esposas e dignitários, digo grande parte porque acredito que os arqueólogos ainda têm muito a desenterrar. Enquanto que aqui na Campina deve-se mantê-los todos enterrados para não correr-se o risco de nossa linda cidade sumir do mapa e virar um grandioso, esbelto e radiante canteiro de obras apinhado de arqueólogos de todos os países, ladrões de tumbas, escravos e algum casal em clima romântico.

Enquanto lia o dito livro me vinha à mente a simples ideia de que todas aquelas tumbas achadas e desenterradas e suas múmias devidamente qualificadas em algum museu pelo mundo afora fossem extraterrestres.

Sei que pareço insistente sobre esse assunto, pois eu mesma não acredito na existência deles, ou acredito, não sei. O fato é que pode ser que eles se recolheram em suas tumbas, que são verdadeiras moradias, com suprimentos, bibelôs, muitos tesouros e diários escritos hieroglificamente em lindos papiros capazes de sobreviver eternamente para depois voltarem, algum dia, num tempo remoto e fazer renascer aquela ordem de pessoas faraônicas, cujo Estado era rico e produtor com muita tecnologia e serviço braçal.

Imaginem Tutmés III reviver do nada e rasgar suas ataduras, olhar em volta e pedir pela tia. Ficaria irado com a situação e chamaria por telepatia todos os seus asseclas, ancestrais e sucessores para numa ordem eliminar tudo o que foi feito após o descanso de todos, cujas naves partiram numa linda tarde primaveril sem ninguém perceber.

Creio que os primeiros a assustarem-se seriam os guardadores das referidas múmias, depois, é lógico, o restante da população; que perceberia tardiamente não ter nenhum conhecimento básico sobre como resolver o imbróglio, e o imbróglio atingiria proporções inimagináveis, tendo Osíris como comandante supremo e praticamente único solapando aqui e acolá a desencavar os mortos enterrados a mais de sete palmos de fundura nas ilhas Fiji.

Claro que suas esposas também estariam andando pelas principais ruas de Paris, procurando ataduras de outras cores para adornar o corpo de cinco mil anos e joias, muitas joias. Decerto desvendei o grandioso mistério do gosto que as mulheres têm por joias, muitas joias, de todos os tipos, para usar e para guardar. Não esqueçamos os sapatos que elas arrematariam sem dó nem piedade em alguma lojinha de Cingapura com um simples olhar enviesado; quem em sã consciência enfrentaria a ira de uma Karomama? Mesmo sendo dessa última esposa de faraó encontrada (e ainda atordoada pelo seu desenterro) em dezembro de 2014, em Luxor no Egito? Ninguém.

Alerto a população não conspurcarem seus mortos e enterrados debaixo de nossas humildes casas, e se, num momento inexato da história, esses mesmos extraterrestres que formaram uma das maiores civilizações do mundo, também quisessem formar uma das menores? Os índios da Campina da Cascavel. Quem haverá de dizer o contrário? Quem poderá iluminar nossas mentes?

Pensem comigo: Estavam cansados de alguma coisa, e não precisa de muita coisa para se cansar, eles, os índios da Campina, resolveram em comum acordo guardar seus pertences, seus corpos e utensílios debaixo da terra para que ninguém mexesse e para que quando voltassem encontrassem a casa organizada tal e qual deixaram e iriam simplesmente utilizar os corpos outrora dormitando e seguiriam em seu curso natural da vida, mesmo tendo-se passado uns três mil anos.

Pois quando chegam a casa direto para seus corpos e abrem os olhos, dão de cara com milhares de pessoas olhando-os e analisando e conversando em línguas inexistentes na época que saíram para o veraneio. Enlouquecedor, eu penso. Fora os flashes de máquinas fotográficas e o choro convulsivo de alguma criança que jurou ter visto a múmia olhando para ela. E estava, de fato.

Deixemos nossos sítios arqueológicos em paz. Para o nosso próprio bem, pois ninguém me tira da cabeça que os extraterrestres estão perdidos quando fazem os círculos ingleses em Ipuaçú, eles estão de fato procurando suas tumbas (aqui na Campina) deixadas outrora em descanso para retornarem a seus lares bem felizes, porém estão errando de direção em alguma curva calculada erroneamente por algum piloto inexperiente.





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quarta-feira, 7 de junho de 2017

Uma agulha no coração


Por Michele Calliari Marchese

Quando eu era criança e me deixavam participar de alguma conversa de adulto, ouvi várias vezes a respeito de mulheres que morriam por causa de alguma agulha invasora. Acredito que hoje esse papo é furado.

A conversa era assim: “Você conheceu a Maria Luiza? Não? Morreu. Morreu por causa de uma agulha que ela espetara em sua roupa enquanto cosia alguma coisa e a agulha andou pelo corpo indo parar no coração.”

“Coitada!” Diziam as outras e eu também. Credo em cruz uma agulha percorrer o corpo e parar bem certeira no coração. E toda vez que contavam essa história, porém com protagonistas diferentes, eu perguntava se era aquela mesma que tinham falado no outro dia e me diziam que não, que era outra e lembro-me de ter ficado penalizada com a quantidade de mulheres que morriam em decorrência de agulhas que andavam dentro do corpo.

Doía-me o peito. Juro. Cheguei a questionar minha mãe se eu mesma não tinha uma a andar dentro de mim. Minha mãe com a delicadeza pertinente a todas as mães me dizia: “Mas que bobagem” e seguia rindo pela casa. Eu chorava pensando nisso e ao mesmo tempo achava estranho porque eu costumava costurar roupinhas para minhas bonecas e várias vezes espetei o dedo com aquela maldita, que espera que a gente pisque para entrar em nossas carnes, e ficava apavorada só em pensar no mísero pique doído que recebera um pouco antes e o que dirá entrar no corpo pinicando sem parar o coração? Para não perder a agulha passava-a pela roupa, ora na barriga, ora no peito, epa epa epa no peito não, vai que entra aquele metal pontiagudo matador de mulheres distraídas.

Bom, o fato é que cresci com a ideia fixa de que tinha uma agulha dentro de mim e que dentro em breve bateria as botas e ninguém saberia o porquê.  E continuei escutando conversas desse tipo e ainda piores, muito piores e que não escrevo aqui para não assustar quem está lendo.

Quando me mudei para a Campina da Cascavel nunca mais ouvi conversas desse tipo e calculei que as mulheres que morriam de agulha no coração residiam somente na minha cidade natal. Mas eu jurava que tinha uma e era somente uma questão de tempo.

Não pulava muito nos folguedos de criança para que a agulha não andasse muito rápida e quando eu caía sentia uma dor atroz no coração. Era a agulha! Ninguém sabia desse meu medo infantil e que tinha até tamanho: 4 centímetros. Quatro centímetros! Era muita coisa para um ser do meu tamanho. Deveria estar atravessando as paredes do meu frágil coração e em alguns minutos extinguiria minha consciência e eu finalmente iria para o céu. Todas as mulheres que morrem com agulha no coração vão para o céu. Fiquei bastante tempo deitada esperando ir para o céu quando minha irmã me chamou para jogar no novíssimo vídeo game Odyssey um jogo chamado “Senhor das Trevas”. Como não tinha morrido até aquele momento eu fui jogar.

Passados trinta e tantos anos, nós ainda chamamos um de nossos tios por esse nome de jogo. Mas isso é irrelevante.

Passemos às agulhas invasoras de coração.

Como o tempo traz o esquecimento temporário eu esqueci também – em dias alternados – a dita molestadora do meu coração. Tinha ocupação aquela devastadora de artérias coronarianas. Ou meu coração tinha as paredes tão duras que estava difícil de ela me matar, ou quem sabe, tinha enferrujado e eu estaria com ferro suficiente no organismo para uma futura gravidez, o que de fato confirmou-se muitos anos depois. Deve ter sido isso. Mas naquela época eu não cogitava em ser mãe de modo que esse papo de ferro e ferrugem é balela.

Comecei a trabalhar e o primeiro salário que recebi guardei-o para um belíssimo raio-X. Pedi para a minha mãe ir atrás disso, porque agora eu era uma trabalhadora com uma agulha no peito e também com treze anos eu nada podia e eu tinha que saber se tinha ou não e ela tinha que me ajudar. Porém, com toda aquela delicadeza que só as mães têm, ouvi-a dizer pela enésima vez “quanta bobagem” e rir também pela enésima vez. Gastei o dinheiro num colete de lã bege, muito em voga naquela época e quando cheguei a casa com a sacola da compra eu disse: “pelo menos morro de roupa nova”.

Alguns anos depois escutando o jornal na televisão, tinha uma reportagem que mostrava uma pessoa com uma tesoura dentro do seu corpo. Pelo amor de Deus. A minha agulha de estimação não era nada comparada àquilo, cheguei a pedir perdão para ela, pois era uma presa cativa e eu realmente gostava dela e de todos os momentos que passamos juntas.

Tive que fazer vinte e um para poder finalmente fazer o bendito do raio-X.

Claro que não havia nada além dos ossos e tive que me despedir friamente de minha amiga imaginária. Ou não.








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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Quem descobriu a Campina da Cascavel?


Por Michele Calliari Marchese

Estive às voltas com o livro “1434” de Gavin Menzies. Além de recomendar a leitura, recomendo que abram a mente antes de ler, pois a infinidade de explicações complexas sobre como os chineses descobriram as latitudes e longitudes para nortearem-se ao mar é de tirar o fôlego.

Uma das coisas mais impressionantes é a riqueza dos detalhes cartográficos chineses e de como, naqueles tempos, os únicos que sabiam que a terra era redonda eram eles, elaborando um minucioso mapa múndi, redondo, é lógico, para presentear os soberanos europeus em troca de alguns míseros trocadinhos anuais. Coisa impensável nos dias de hoje.

Lá, naqueles lindíssimos mapas, aparece nosso país, cujo nome europeizado era “Brazilis”. Então Ilha de Vera Cruz, Terra de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz do Brasil e etc., que, segundo o livro, é tudo invencionice de Portugal para dizer que conseguiram descobrir alguma coisa. Estão tentando modificar a história mundial dentro em breve e torço para que consigam logo, para que as próximas gerações saibam a verdade sobre os descobrimentos.

Dentro da fertilidade da minha massa cinzenta ousaria dizer e afirmar que a Campina da Cascavel também foi descoberta pelos chineses lá pelos idos de 1313 quando a frota do impiedoso Zeng He já circunavegava os mares. Creio que uma de suas embarcações sofreu com algum cataclismo exacerbado e impossível, fazendo com que ondas de mais de mil metros de altura e velocidades enfartantes erguessem a nau chinesa, fazendo com que o junco chegasse são e salvo aqui, na Campina da Cascavel. Esse imenso navio que abrigava mais de três mil homens e outro tanto de concubinas aportou ali, próximo à Femi.

Ficaram deveras extasiados com a natureza nauseante de nossos lindos bosques e terras produtivas. Desmancharam a nau para construírem casas, pois sabiam de antemão que se encontravam a quilômetros e quilômetros de distância do mar e naquela época não existia celular para pedirem socorro. Em seguida executaram os funerais tradicionais daqueles mortos em combate com o mar ou que não resistiram à dura empreitada de serem arremessados cruelmente por sobre imensidões de terra. Foram dias tristes.

Porém, como todo mundo sabe, as cascavéis da Campina da Cascavel mostraram suas pegajosas e venenosas entranhas naquele universo chinês abortado sem dó nem piedade para levar outros tantos homens e mulheres para morrerem à míngua. E elas sumiram depois de picarem essa gente estranha e alheia; eu, particularmente, nunca vi uma por aqui ou soube do aparecimento de alguma. Creio que elas duraram até o aparecimento dos índios que aqui se instalaram.

Os chineses remanescentes tomaram por esposas as concubinas destinadas aos soberanos europeus para constituírem famílias, porém acredito que muitos entre si eram parentes e assim sendo as relações eram estéreis.

Com os mortos no imbróglio e outros por veneno, outros ainda por disputas internas de poder e mulheres, foram-se matando um a um, chegando talvez a uma população de no máximo trezentas pessoas. Os juncos apodreceram no primeiro dilúvio que registraram em seus diários de papiro, porque infelizmente eles não conheciam as intempéries de nossa cidade e não basta ser chinês, tem que ter brio para viver aqui. Os poucos filhos nascidos dessas relações morriam em seguida por não terem condições de alimentação; seus víveres de outrora foram arremessados pelo vento inclemente de um dos primeiros vendavais que eles presenciaram agarrados e amarrados em tocos de árvores para não saírem voando e tenho certeza que muitos deles se aventuraram nesse pormenor, achando que a velocidade daquele vento os levaria de volta à pátria amada. Nunca se soube deles, se chegaram ou não ou se caíram por terra em Abelardo Luz ou Bom Jesus.

Muitos anos depois a população estaria reduzida a míseros vinte capacitados para viver nesse solo primaveril utilizando-se de tudo o que encontravam para poder sobreviver e tinham – tenho a certeza – dentro de si a calma e tranquila esperança de serem encontrados algum dia por algum forasteiro conquistador e explorador, podendo ser de qualquer nacionalidade, já que naquela altura do campeonato os borrachudos deixavam chagas purulentas que não tinha espaço para predileções de salvamento.

Nesse ínterim aparecem os caingangues, bravos guerreiros indígenas que chegaram chegando, empunhando machadinhas e pedras pontudas gritando num dialeto inverossímil que se rendessem em paz, matando primeiramente as cascavéis depois esfumaçaram com um pestilento remédio os borrachudos e fincaram o primeiro pau da oca bem onde o junco antes altivo e predador havia atracado por algum motivo que nenhum dos sobreviventes lembrava mais e nem tinham como dizer isso para aqueles selvagens que pinicavam suas costas para fazê-los reféns e por fim, incorporaram-nos à aldeia.

É isso. E é esse triste presságio secular que nos tirou dos mapas múndis em 1400 e onde antevejo em sonho e em letras góticas, pontuando na cartografia o que jamais aconteceria: “Ultimum Refugium Venenata”, referindo-se à nossa gloriosa Campina da Cascavel.



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quarta-feira, 17 de maio de 2017

Um rosto só


Por Michele Calliari Marchese

Quando entrou no restaurante tinha a desgraça estampada no rosto. Fundas olheiras; uma perda, um desagravo, alguma doença, nunca ninguém saberá. Caminhava com a cabeça baixa para não cumprimentar ninguém mesmo que havia pessoas conhecidas olhando-a para cumprimenta-la e então passou num vento gélido de morte a pensar se comeria ou se fugiria resignada à fome, se tivesse fome.

Pegou o prato como se salvasse algo ou alguém, mal olhou para a atendente ao seu lado que a cumprimentava com seu mais lindo sorriso e pegou a salada com um suspiro de alheamento como se o seu corpo tivesse atitudes as quais ela jamais teria em sã consciência. Era uma cena triste vê-la servindo-se de tomates tenros e vermelhos, maduros como a vida dela, porém vivos, numa contradição com aquelas mãos trêmulas, talvez do frio que os pegavam, eram mãos brancas com as veias muito aparentes e azuladas dando uma impressão de que a qualquer momento cairia ali desfalecendo imediatamente com seus tomates que jamais seriam comidos.

Serviu-se um pouco aqui e outro pouco acolá sem nunca levantar a cabeça de mulher sofrida e saiu do Buffet indo parar na primeira mesa vaga que tinha por ali. Suspirou outras dez vezes mais antes de pegar o saleiro e enquanto salgava a comida estava a ponto de chorar desconsoladamente e a mão que repousava na mesa foi parar em sua cabeça num assomo lógico de espantar os pensamentos que lhe impediam de olhar para os outros. O que afinal fazia ali? Por que se servira? Nem gostava de tomates e por que pegara?

Tinha na mente mil resoluções, talvez, mil iniciativas ou a morte iminente.

Salgou demais enquanto engolia o choro e aquela compulsão em chacoalhar o saleiro a fez olhar para o lado como a pensar no que fizera e porque fizera, tinha tanto na vida e não conseguia ser feliz, mesmo com os tomates salgados à sua frente numa disposição ímpar, um ao lado do outro, tudo separado, tudo no seu lugar e ela ali prostrada com a falta de alegrias em seu viver.

Pediu água e teve que repetir três vezes, pois o garçom não a escutava naquele sussurro de convalescente falando ao prato e jamais ao garçom. Tomou um gole daquela água e remexeu em seu arroz, tão sozinho, tão separado dos outros e talvez ela estivesse contando os grãos ou pensando no cachorrinho que havia deixado dentro do carro para almoçar.

As olheiras ficaram mais profundas ainda quando um homem sentou à sua frente. Grossas lágrimas banharam seus olhos escuros e sem viço, porém foram apanhadas pelo guardanapo numa rapidez de desgraça.

Não o cumprimentou, seriam as dores do amor? Seriam as dores de uma partida? Seriam somente as dores por aquele homem que se sentara a sua frente com o prato lauto sem salgar, tudo misturado e sendo engolido vorazmente pela fome atrasada e que sequer notara que a mulher à sua frente enxugara os olhos com o guardanapo e ainda não tinha comido nada. Ele lhe piscou como fazem os amantes de uma vida e bem poderia ter sido um recomeçar e ela ensaiou um pequeno sorriso e olhou para cima como a pensar na impertinência daquele ser esfomeado que cumprimentava todo mundo e não perdia nada do que se passava ao redor, mas não à sua frente, pois o guardanapo molhado e dobrado cuidadosamente num canto da mesa lhe pareceu apenas o que era e nada mais.

Talvez essa discrepância entre o piscar de olho e o guardanapo no canto da mesa a fez cortar enfim os tomates.

Não trocaram uma palavra durante o almoço, mas ele buscou um pratinho de sobremesa para ela e ficou esperando o “muito obrigada” que nunca saiu daquela boca retorcida de dor e abatimento. Decerto que sofria tanto que seu corpo esqueceu-se das boas maneiras, ou quem sabe já tinha dito tantos “muito obrigada” àquele homem que agora era totalmente desnecessário dizê-lo assim naquele silêncio entre as piscadas, os risos e o bater de talheres dele. Jamais entenderia o guardanapo molhado no canto da mesa ou o cachorrinho dentro do carro e também os tomates em seu prato. Jamais olharia para as suas olheiras profundas das noites mal dormidas ou do choro sufocado na garganta, e tudo isso talvez porque ela nunca em sua vida chamou a atenção para esses pequenos detalhes mortíferos, venenosos e sem volta.

Saíram os dois juntos e de mãos dadas do restaurante, ele dando adeus a todos, ela de cabeça baixa como a querer fugir dali para sempre, da vida dele, daquele cachorrinho que latia abanando a cauda no banco do frente do carro, dos milhares de guardanapos molhados e cuidadosamente dobrados amontoando-se na desgraça dos cantos da sua vida.

Decerto que chorou muito ao chegar a casa. Talvez tenha vomitado as metades dos tomates vermelhos e tenha gastado muito tempo em retocar a maquiagem da infelicidade.


Talvez ela tenha dito “muito obrigada” àquele homem que lhe piscava ou talvez nunca o faria e ele continuaria a lhe piscar nos arroubos da paixão.



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