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quinta-feira, 18 de julho de 2013

E quem morreu foi a outra



Por Helena Frenzel

Antes de ir parar na casa da mulher do cabelo verde, vivi um tempo em casa de uma família. Eles gostavam muito de bichos, me tratavam muito bem. Teria sido a melhor lembrança da minha vida aquela casa, não fosse uma Dona bicuda que trabalhava lá. Chamava-se Maria das Dores, Dasdor pra simplificar.
Diziam que a vida poucas vezes havia sido boa com ela. Tudo quanto é sentimento negativo parecia encontrar guarida naquele corpo magro, desnudo de compaixão. Vestígios de felicidade em seu rosto, lhe juro, nunca vi! E olhe que eu me esforçava para fazê-la sorrir. Jamais logrei tal façanha.
Nem mesmo quando a caçula da família apareceu em casa com uma pomba atropelada. A pobre teve uma das asas quebradas e jamais voltou a voar, ainda mais depois de ter criado aquela pança. Precisava de ver, minino, a pomba passava só à base de milho e ração de boa qualidade.
Dasdor era a única a implicar com os bichos: “Onde já se viu criar pombo em casa feito bicho de estimação? Já não bastam as galinhas, seis cães, quatro gatos, dois coelhos, os canários e esse papagaio fi-d’ua-égua?”.
Ensinei a pomba — eita bicha burra! —, sempre que Dasdor aparecia, a fazer um ruído assim: “eutefuroocu-eutefuroocu!” Ah, minino, que a nêga ficava doidinha; me chamava de depravado; tinha de ver.
Para desespero da caçulinha, um dia a pomba apareceu morta, prensada por trás de umas caixas de madeira na despensa, ao lado da cozinha. Ninguém sabe o que aconteceu. Por certo, um acidente — versão oficial. “Coitadinha”, dizia Dasdor. Eu apertava o fi-ó-fó de tanto medo por um destino deste ou outro pior!
Dasdor vivia mal-humorada. Dizem que mau humor pega, mas por ser caprichosa nos serviços e cozinhar muito bem, trabalhou longo tempo naquela casa, sem grandes problemas. Vai ver a família era imune a coisas assim...
Por ser uma casa de sítio, a cozinha era bem ampla e quase toda aberta, muito arejada. Por um lado, é claro que isto é muito bom. Por outro, nem tanto, pois de vez em quando apareciam umas visitas sem cartão.
Num dia desses, estavam todos à mesa esperando para tomar um café fresquinho que Dasdor estava para coar, na pia, quando de repente ouviram ela se queixar: não sei o quê havia lhe picado o pé. E não demorou muito deram com uma visita inesperada, enrolada nos canos debaixo da pia.
Foi um pega-pra-matar, minino, e no meio da confusão a cobra sumiu. A família estava mais preocupada do que a Dasdor, pois ninguém sabia se a dita cobra era ‘matadora’ ou não. E Dasdor, muito tranqüila, dizia que não tinha perigo, que logo passaria. E passou mesmo. Horas depois continuava vivinha bulindo, e na parte superior do pé só um leve arranhão.
A dona da casa mandou vasculhar o sítio inteiro atrás da cobra bandida, e por volta do meio dia um cadáver apareceu. Disseram os especialistas do sítio que era um tipo muito venenoso. Eu não sei de nada não... Só sei que no meio de toda a confusão da mordida, coitada da cobra, pois foi ela quem morreu. Há casos que desafiam a medicina? Tire você suas próprias conclusões.




Desta série, leia também:

No Restaurante - O Show da Vida, Pelo Nexo e Meio Sem Fim e Voltando à Ativa.




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domingo, 7 de julho de 2013

Voltando à Ativa



Por Helena Frenzel

Pois é, saí daquela passividade morosa dos dias em que fiquei na casa da Puta (e do filho dela), onde só de vez em quando — e olhe lá! — recebia uns dois punhados de ração. O dono e a mulher tiveram de voltar mais cedo de Mallorca. Trouxeram na bagagem um negócio de porco qualquer... Ah, uma gripe! A gripe de porco! Ainda bem que não foi um espírito de porco, desses que se tem de trazer bem amarrado, dentro de um cofo(1) pro bicho não escapar. Esse aí, dizem, demora muito mais tempo pra se deixar tratar, e quando curado, carrega seqüelas gravíssimas, podendo até levar o paciente tratador desta para uma outra — e espera-se: muito melhor que esta aqui — Quanto a isto há controvérsias... Sobre o quê?! Se a outra é melhor ou pior do que esta, oras! Eu, por exemplo,... Ah! outro dia conto como vim parar por aqui. Sim, tratado o porco e curada a gripe, o dono voltou à ativa no restaurante — e conseqüentemente: eu também — Ó vida marromenos... Todo dia show, toda noite show da vida. E eu lá, pra anunciar os entertainments. É cada uma que me acontece... Meu poleiro fica próximo a um aparelho de TV. É canal pra dedel, vice bichim?! Foi assim que aprendi a ler e entender várias línguas. Se bem que eu acho que só reativei a memória. Tenho uma impressão de que já sabia todas essas línguas. Estranho, muito estranho... Até parece que já fui humano. E essa sensação é pujante quando vejo uma dona bonita. Ah, minino, inda mais quando a dona se dana a querer brincar comigo e vem com aquela de dizer: “Dá o pé, loro! Dá o pé, loro!”. Êh-ê, se ela soubesse... Pois é, e o maître da cara caiada — só durante a noite, pois durante o dia (cara!) ele lava a cara — veio me dar de comer e mudou para um canal de notícias. Todo dia é uma briga no planeta dos macacos ignorantes... tsc... tsc... tsc... Os humanos só sabem brigar. O povo agora anda discutindo o uso de um tal de scanner nu... Diz que viajar de avião ficou muito mais perigoso. Se for para os estates, então, aí mesmo diz “Te arreda! Deus me livre! Nem P(h)odendo!”. Além do risco do bichão cair, que segundo os apresentadores do telejornal é um risco muito pequeno, que só de vez em quando acontece, há também o risco de morrer explodido por um terrorista. Por isso, nos aeroportos agora querem que todo mundo mostre suas ‘vergonhas’ — se é que alguém ainda as tem — para o pessoal da segurança. Ah, minino! Eu acho é pouco! Já pensou o vexamento?! Se o terrorista for isperto mermo... Pensando bem, essas medidas de segurança em aeroportos são todas fáceis de burlar. Já que o caboco decidiu morrer mermo, tanto faz onde ele carrega os explosivos, dentro ou fora do corpo, tanto faz. O problema é que com esse scan aí só dá pra ver o que vai por fora e... eu tinha de estar aqui pra ver a visão de raio-X do superman se tornando realidade... Ih, o maître mudou de canal! Ô cara caiada lavada, não tem nada melhor pra fazer não? Fofoca de celebridades... Vixo, tô fora! Tô fora! Humm, as meninas do espetáculo chegaram pra ensaiar... Deixa elas virem me pedir pra dar o pé, deixa... He he he he... “Currupaco! Papaco! Currupaco! Papaco!” Eita que eu adoro essa minha vida de papagaio...

*  *  *

(1) Cofo – no Maranhão: cesto de palha usado para armazenar arroz, farinha e outros grãos, também para transportar frangos e outros animais pequenos em ônibus ou carroceria de caminhão. No Houaiss: definido como samburá (cesto de taquara usado na pesca), coisa que eu até agora desconhecia... Pois num é?! Vivendo, escrevendo e aprendendo!

Terceira narrativa da série Piroco Paio, também de 2009.

Desta série leia também:

No Restaurante - O Show da Vida e Pelo Nexo e Meio Sem Fim




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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Pelo Nexo e Meio Sem Fim



Por Helena Frenzel

E de volta ao show:
Começo pelo meio, exatamente como nos relacionamentos da mulher do cabelo verde. Ela que quando conhecia um novo pretendente — toda vez! — ia logo pensando que chegara ao final da busca: “É ELE!”. Ô Coitada... A dona do cabelo verde passou por muitos momentos ‘blues’. E com ela aprendi a começar pelo meio. Não está entendendo nada? Eita gente mais sem paciência... Paciência, sim? Vou te contar, peralá...
E o filho da Puta, o que me dá de comer... Até agora nada dele! Por que será está demorando tanto? Teria acontecido alguma coisa, um castigo, uma blitz na escola? O que será que aconteceu hoje?
Não, ‘Puta’ não é palavrão. Como não sei o nome dele — porque ninguém jamais pronunciou desde que estou aqui — uso o nome da mãe. Sim, ela se chama Puta. Não, não é palavrão, eu já disse. Essa história já estou ‘careca’ de ouvir, pois é a que ela conta toda vez que se apresenta a alguém.
O pai da Puta era crédulo fervoroso, membro de uma seita ortodoxa, igreja do “Resíduo Digital”... Nunca ouviu falar nesta igreja? Pois é, dizem que existe. Eu só sei que existe, nada mais... Pois é, e nessa igreja as cerimônias eram em Latim, e ‘putare’ — em Latim — significa também “acreditar”. Imagine a cara de um visitante na hora do credo:
— Você crê?
— Ego puto! (Eu creio!) — He He He ...
E o nome da Puta vem daí, do ‘putare’ latino. E aí, “me putas?” (“Me crês?”).
Se bem que a vizinhança comenta muito o entra-e-sai de homens aqui na casa da dona Puta. Ela diz que dá aulas de francês e sempre está às voltas com umas tabelas — quase sempre pelas tabelas! — Bom, especulo então que ela ganhe a vida usando um sistema de tabelas parecidíssimo com aquele que Victor Hugo costumava usar... Quanto será que custa uma meia hora de ‘francês’ ou um “i-pisilone duplo”? He He He ... Tenho que oB-servar, oB-servar!
Sim, o filho da Puta chegou! Já era tempo... Ah, não! ‘A Caixa’ não! ‘A Caixa’ não! Scheiße, tarde demais... É hoje que eu passo mal...
— Fome! Fome! — gritava eu de cá e ele nem ‘tschuns’...  — Hungry! Hungry! — e ele nem se mexia — Hunger! Hunger! — Aí sim, o filho da Puta moveu o traseiro gordo da frente da ‘caixa’. Alemão. Pra desviar o filho da Puta da 'caixa' só mesmo usando a língua mãe... Abriu a porta do armário e me veio com um punhado — um pu.NHA.do só — de ração! É hoje que eu passo mal ...
Tomara que o dono do restaurante não demore a me apanhar. Estou aqui já há quase duas semanas. O dono e a mulher estão de férias. Parece que foram para uma ilha espanhola, Palma de Mallorca. Se eu tirasse férias iria para um lugar onde houvesse muito poucos iguais a mim... Ouvi o vizinho do 318 — o velho tarado — dizendo que em Mallorca tem muito mais “alumão” do que espanhol. Eita que os “alumão” adoram essa ilha, viu?! Por isso mesmo é que não iria para lá nas férias! He He He ...
(Trim-Blon)
Chegou o amigo do cabelo vermelho, o do 206. Do cabelo, só metade era longa e vermelha. A outra metade era branca e cortado bem curtinho, como o rabo da “Sururina de Brasí”. Se "danaram" a jogar na frente da ‘caixa’...
Não entendo — Nitendo — esses dois. Eles não querem continuar obesos, mas passam todo o tempo livre na frente da ‘caixa’. Tudo é simulado: do jogo de Tênis ao Futebol... de Botão. Até a ‘Rayuela’! Vai ver esses dois nem sabem o cheiro que tem um punhado de grama ou terra. Eu, hein? Da ‘caixa’?! Tô fora! Tô fora!
(Trim-Blon)
Ah, tomara que seja o dono! O dono!
O filho da Puta foi atender.
Era a vizinha do 201, a cínica — digo, Síndica! Síndica!
— Meu filho, está sua mãe? — perguntou a síndica.
— Não.
— E a que horas vai chegar?
— Sei não ... Disse que vai fazer um serão, com o patrão.
— Serão? Trabalho extraordinário... NOTURNO? Como pode deixar o filho assim, sozinho em casa?!
— Sei não, dona, e a senhora diz isso só porque não tem filhos ...
E eu, lá do meu poleiro, só de butuca na conversa, repetia o coro do condomínio:
— Ela não PODE! Não PODE! Não tem porque não PODE!
Só pra contrariar me prenderam neste corpo de papagaio. Pois é, de uma forma ou de outra eu tinha que aprender a observar... Ah se eu pudesse escrever!
“É a vida! E é bonita e é bonita.”

*  *  *
Segunda narrativa da série Piroco Paio, também de 2009.




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quinta-feira, 9 de maio de 2013

No Restaurante - O Show da Vida



Por Helena Frenzel

É bem capaz de você não acreditar se eu disser logo quem sou, portanto nem vou me dar ao trabalho de me apresentar. Começo logo contando a minha história, isso sim, que é bem mais interessante.
Veja bem: este é meu primeiro dia no restaurante. Estou curioso, curioso... Se tem uma coisa que aprendi num dos tantos lugares por onde passei foi sempre antes de começar uma história dizer: “Meninos, eu vi!”. E vi mesmo! Sim, já vivi com gente culta (e louca) por aí... Aprendi muita coisa interessante, interessante...
“Meninos, eu vi!”... “Meninos, eu vi!”
De meu canto cativo me pus a observar as pessoas sentadas às mesas próximas a mim. Na primeira delas, logo à minha esquerda, rente à parede, uma família com uma criança pequena, ainda de colo, sentada numa dessas cadeirinhas de bebê. Pelas roupas, bem podia ser um menino. Se bem que hoje em dia... Sei não, sei não... tudo é mais difícil nos dias atuais. Procurei um brinquinho que fosse... Hum, mais complicado ainda! Tinha um negócio brilhando num dos lados do nariz... O que seria aquilo, meu Deus? Um pier... pier... piercing! Ah, sim! Parece que é assim que chamam essas bolinhas. Aproximei um de meus ouvidos para captar um pouco do que diziam:
A mulher resmungava:
— ... sozinhos não podem, mas se os menores estiverem acompanhados dos pais então é permitido, oras!
E o homem, que devia ser o marido, tentava interpelar:
— Mas querida, você não acha que ELE — Ah, eu sabia! Era um menino! Era um menino!, pensava eu — ainda é muito “verdinho” para essas coisas?
E a mulher devolveu:
— Que verde que nada! Certas coisas quanto mais cedo se aprende na vida melhor! — e virando-se para a criança, falou com voz esganiçada: — ô meu Bilu-Bilu... olha e aprende direitinho, viu? Nada de ficar dando ouvidos ao seu pai — e olhando cinicamente de volta para o marido, acrescentou: — ... que sobre esses assuntos ainda tem mais é muito o que aprender, viu?!
— Ah-ah! Ta-ka, Ta-ka! Dá-dá-dá... — contribuiu o pequeno.
Lá vinha o maître acompanhando um casal de idosos para ocupar a mesa ao lado desta família, que até agora estava vazia:
— Por aqui, por favor — dizia o maître com um sorriso “de plástico” (moldado na cara dura caiada de pó branco) ao mesmo tempo em que puxava a cadeira para a senhora fina e elegante sentar-se.
— Oh, obrigada! Mas que gentileza... Essas coisas não se vêem mais com freqüência nos dias de hoje, não é mesmo, Harry? — falou para o acompanhante, fazendo biquinho e piscando os olhinhos de boneca.
— Querida, não exagere... — disse o homem com cara de “bundão”.
— O que vai ser para beber? — perguntou solícito o maître caiado.
— Água mineral para a senhora e para mim a carta de vinhos, por favor — solicitou o tal do Harry.
— Como assim “água para a senhora e vinho para mim”, Harry? — foi logo atalhando a velhinha.
— Eh... Hum...senão vejamos... um de nós dois tem que dirigir, minha querida... — falou o bundão, entre dentes, sorrindo para o maître, que conservava ainda no rosto o inabalável sorriso de plástico, ao mesmo tempo em que apertava a ponta do sapato da mulher por baixo da mesa, ao que ela fez um: — “Oh!” — e continuou com cara de boneca de vidro:
— É isso mesmo... você tem razão, querido. — e olhando para o maître caiado, completou: — A carta de vinhos, por favor...
— Oui, Madame! — respondeu o afetado maître, retirando-se discretamente. Outros clientes aguardavam para serem atendidos, e com aquela mesma atenção.
Foi só o tempo do maître se retirar e os finos velhinhos começaram a vociferar, baixinho, um pro outro, palavras de baixo calão. Xingavam-se (discretamente) em Bananês, imaginando que ninguém estaria por ventura entendendo o que diziam. He he he he... Eles estavam bem equivocados se pensavam que eu não entendia os “velha filha da piii...” e “velho pinguço” dentre as mais leves das expressões que ali pipocaram.
Então as luzes foram se apagando devagar. Parece que haveria um show.
Oba! Ia ter show, ia  ter show!!
Daí iluminaram uma cama quadrada, coberta de lençóis pastel, e colocada bem no centro do salão. Entrou um casal. Deviam estar usando uma dessas roupas coladas, mas tão coladas, do tipo que apelidam de “segunda-pele”. Devia ser isso, pois olhei para o “bush” da mulher e não vi nada, nadinha... Aí olhei para o do homem: também não vi nada balançando... Acho que tinha que ser mesmo essas roupas de bailarinos para encobrir “o bush” e "os balangandãs", e deixar o resto à mostra. Sim, os outros músculos e detalhes dos dois corpos dava para ver muito bem. Quando eles entraram ouvi uma "falsa" salva de palmas e uma voz dessas do tipo que comanda programa de auditório classe B, vinda não sei de onde, enchendo o lugar com a frase de apresentação:
 “We love to entertain YOU!!”
Aí os dois atores começaram a atuar.
Na mesa à minha direita estava um casal jovem. Eles riam e aplaudiam. Pouco depois que o show começou, a jovem disse:
— Ha-ha-ha! Mas o que é isso mesmo que eles estão apresentando?
— Pssit! — atalhou o jovem, simulando um pedido de silêncio — Não está vendo que estão fazendo “Arte”?
— Tem certeza? — perguntou a jovem ingenuamente — Eu achava que isso aí tinha outro nome...
— Quieta, quieta! Vamos assistir...
É, esse mundo nosso é cheio dessas coisas assim, insólitas...
Nisto, chegaram novos clientes. Desta vez, duas mulheres. Ocuparam a mesa no centro, bem à minha frente. Eu e uma das mulheres então fizemos contato visual. Ela me olhou, ela me olhou... e eu olhei para ela e eu olhei pra ela... Ela falou para a companheira:
— Olha, Teresa, que surpresa legal! Veja só o que temos por aqui. — E começou a conversar comigo numa das línguas que eu compreendia muito bem. Estranhamente era a minha língua nativa.
— Ah, você vem do Brasil, não é mesmo? Eu também. Prazer em conhecê-lo, meu nome é Mariana. Eu tenho medo de cobras. Quanto a outros bichos... tenho nada contra não! E você?
Ainda deu tempo de eu virar meu ouvido para a mesa dos velhos e ouvi-los cochichar:
— Harry, porque será que a mulher da mesa ao lado está fazendo “Loro, currupaco, papaco, paco, paco, loro, loro...” ?
— Ah, vai ver ela está imitando o papagaio...
— A troco de quê alguém se propõe a imitar um pássaro, e num restaurante?
— Sei lá, querida... Cada louco com a sua mania, não é mesmo? Vai ver eles se entendem... O papagaio parece até que está respondendo...
— Se entendem?! O que é isto, Harry, onde já se viu animal falar com gente? Eu, hein, que coisa mais sem-pé-nem-cabeça... E o que dizer de toda essa história de Evolução, hein, hein?
E o velho disse, em Bananês:
— Cala a boca, Harriet, presta atenção no SHOW...

E eu, de lá do meu poleiro, cumprindo a minha função:
— Presta atenção no show!! Presta atenção no show!! We love to entertain YOU!!



*  *  *



Para el loro del doctor Urbino.


Esta narrativa é de dois mil e nove e faz parte de uma série que há tempos vinha tentando revisitar. Quatro anos se passaram e esses velhos textos resistiram à reedição, o que muito me incomodou aliás pois não costumo ter pudores com meus escritos no que tange a revisões. Talvez exista neles alguma coisa, por isso deixo como estão. Não que sejam jóias literárias, nada disso, estão cheios de falhas até, mas para mim eles são um registro de primeiras experimentações. Como Rosa Montero, também “pienso que uno no debe alterar las novelas que escribió en el pasado: deben ser exactamente lo que fueron.” Por isso resisti à tentação de modificá-los. Com vocês então a série do Piroco Paio, de quando ainda estava perdendo a vergonha de contar.


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