sábado, 16 de novembro de 2013

O Causo da Vassoura


Por Helena Frenzel

Minha avó contava que lá em Fufu Lalau, quando se desejava que uma visita fosse embora, o costume era colocar uma vassoura virada ao contrário atrás da porta. E funcionava mais rápido ainda se fosse posta atrás da porta principal. Outro dia, passeando por uma rua perto de casa, vi uma vassoura virada ao contrário ao lado da porta de entrada de uma casa, e fiquei me perguntando se o fiofó tinha algo com as calças e ao ver a dona da casa trabalhando na porta, preparando as janelas com enfeites para o Natal, só não perguntei o significado da vassoura virada de cabo para baixo com medo dela não entender uma curiosidade tal. A vassoura está assim já há vários dias, vai ver é parte da decoração.

Encucada com a razão da ‘invertida’, chamei a Samara Bassi e ela me respondeu: “É vero! Sempre soube que vassoura atrás da porta é para fazer visita ir embora. Bom, acho que ela quis juntar a comemoração de Natal com a anterior: o Haloween”.

Ao que Ailton Augusto acrescentou: “História interessante essa, mas desconfio que a vizinha realmente não entenderia tal curiosidade. Só para constar, tem outra "receitinha" para espantar as visitas, muito mais discreta aliás: dê um nó em um pano de prato e jogue dentro do forno (desligado, obviamente). “ E dessa do pano de prato, pergunto-me se o nó teria de ser cego ou especial e o porquê do forno  - não serviria o refrigerador? – e o que ocorreria se ao invés de um nó só, déssemos dois, bem apertados?

Então chegou a Tania Orsi Vargas com uma receita literária: “Um dos meus cunhados tinha se mudado para a capital e recebia muitas visitas interesseiras que vinham do interior. Ele descobriu uma forma muito eficaz de espantar os chatos. Pegava o volumaço de A Montanha Mágica, que acho que é do Thomas Mann, e dizia ao outro, abrindo em qualquer parte: “escuta como isso é interessante” e se botava a ler tranquilamente. O chato não demorava a se mexer e dar o fora.”

“Boa!”, estava eu pensando nesta história quando Miriam de Sales completou: “Aqui na Bahia também é assim: com a vassoura; mas o sal no fogo é imbatível”. Mas foi Alice Gomes quem fez a pergunta nuclear: “Quem será que inventou essa da vassoura, hein? Quando era pequena também ouvia isso.” E trouxe outra receita: “E espetar um garfo atrás da porta também.“

“Espetar um garfo atrás da porta?”, pensei comigo, “Mas nem toda porta se pode espetar, não é mesmo?” “Jogar sal no fogo... humm, vou experimentar!” Então veio Lu Narbot tirar-me do intento quase maligno e trouxe-me à razão: “Minha mãe também contava esta história da vassoura. Infelizmente não funciona, ela bem que tentou com um cara chatíssimo que, em pé à porta, dizia que estava indo embora e começava a contar um caso novo!“.

“Olha, isso funciona mesmo. Sério.”, retrucou Ana Bailune, Omar Carmona confirmou e a comadre Michele também. E quando eu já estava pensando em dar nó no causo e deixar a vassoura pra lá, Tania Orsi Vargas pronunciou-se outra vez: “Mas eu lembrei de uma coisa... que a maneira de GUARDAR a vassoura para não entortar as cerdas ou a palha é virando-as para cima. Deve ser por isso que a tal senhora a mantém sempre assim. Então, gurias, isso eu também aprendi: após usar a vassoura guardá-la de cabo para baixo. Há umas que já vêm com um gancho para pendurar, pelo mesmo motivo.”

E daí eu disse: “Sim, Tania, as pessoas guardam as vassouras desse modo, mas geralmente no quintal ou dentro de casa. Acho que a teoria da decoração do Dia das Bruxas é mais provável, ou quem sabe, ela esqueceu. Um dia tomo coragem e pergunto, o mistério da vassoura virada de cabo para baixo e ao lado da porta de entrada há de se resolver!“

E resolveu-se mesmo, pois um dia perguntei não à mulher, mas ao marido: “E essa vassoura, o que faz aí?” “Ah, é minha sogra de visita!”, foi esta a resposta que ele me deu. A vassoura tem tripla função, eis o segredo.

Pois é, viajar de vassoura, além de ecológico, é uma ótima forma de economizar combustível, não?

*  *  *


Espero que tenham gostado do causo cronicado que a vassoura deu.





Copyright 2013 (c) - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão da autora.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Asdvencia Emilia


Por Michele Calliari Marchese

Esse causo aconteceu há muito tempo atrás e muitos filhos da Campina, ao lembrar, ainda sentem o medo percorrer a espinha.
Asdvencia Emilia era uma mulher de idade muito avançada e todo mundo tinha muita dificuldade em falar o primeiro nome dela, portanto, chamavam-na de Asdê. Ela era uma das benzedeiras da Campina e as pessoas sempre recorriam a ela quando estavam com alguma dificuldade de ordem pessoal ou para tirar as bichas das crianças. Usava um chapéu de palha com um forro de seda marrom, quase dourado, e lá tinha uma estranha inscrição que ninguém sabia o que era e só era vista quando ela tirava o chapéu para coçar a cabeça.
Numa benzedura de criança com “macaquinho”, Asdê desabafou com a mãe do menino dizendo que já estava cansada da lida, que tinha passado dos cento e poucos anos e que já deveria ter morrido; não fosse o chapéu que lhe dava as forças para continuar. E a mãe lhe perguntou por que não tirava o chapéu para dormir o sono eterno, e a velha respondeu que não conseguia; que era como se fosse parte do seu corpo.
Em pouco tempo o povo da Campina soube do ocorrido e as idas à benzedeira eram maiores que o normal. Foi num piscar de olhos que a comunidade relacionou a vida longeva de Asdê com o chapéu, fazendo do dito cujo um objeto de desejo. Agradava a todos a ideia de uma vida eterna.
Começou um agitamento entre os mais interessados, que ficavam de tocaia em algum mato para pegar o chapéu da velha e sumir. Tudo sem sucesso.
Um dia, já cansada de ter que ficar se defendendo das pessoas sem entender muito bem o que estava acontecendo, Asdê perguntou para o primeiro benzido: “Meu fio, que acuntece ca véia? Por causo di quê querem pegar a véia?” E o benzido respondeu que era por causa do chapéu e contou tudo o que sabia, inclusive das tocaias.
Asdê pensou, pensou e resolveu que no próximo sábado, na missa das oito do Padre Dimas ela ia pedir a palavra e pediu de fato. Foi durante o sermão e ela fez uma proposta para aplacar a ganância de alguns.
Ela contou que tinha nascido em 1815 e precisava descansar e disse que para ter o chapéu era necessário que aparecesse lá na casa dela duas mulheres e dez homens, um para cada mês do ano com o mesmo intuito em seu íntimo, que ela não disse qual era e que no fim dos doze meses entregaria o chapéu e disse também que um homem de março lhe traria a morte e depois do seu passamento as pessoas dos meses do inverno é que deveriam levar o seu caixão para o cemitério.
O Padre Dimas não parava de se benzer enquanto Asdê proferia a própria sentença de morte. Algumas beatas estavam ajoelhadas a rezar o terço e todas as crianças choravam.
E ela voltou como se tivesse esquecido alguma coisa e disse: “Ieu ispero o primero homi.”
Dessa forma o povo sabia que a pessoa do mês de janeiro era um homem, e assim sucedeu mês a mês e só em julho e outubro apareceram na casa de Asdê as duas mulheres requeridas e ansiosas pelo chapéu.
Essas doze pessoas não eram todas da Campina, tinha um homem que veio fugido de Palmas para se apresentar em novembro.
Nenhum deles sabia dos outros e ninguém sabia quem se apresentaria para Asdê. Bastava que chegassem à porta que ela dizia que o mês estava findo.
O final do ano chegou junto com a expectativa da entrega do chapéu e Asdê não entregava o chapéu para ninguém e ninguém pedia nada com medo de saber o que aconteceria depois. Sucedeu que no final de fevereiro, a velha pediu a palavra ao Padre Dimas na missa das oito só para dizer que aquele que receberia o chapéu teria uma dor que começaria no pé e explodiria na cabeça numa força de luz, e que nenhum daqueles que se apresentaram a ela era o escolhido e este, iria por conta própria requisitar o que era seu por direito.
Dias depois, já no mês de março, a mãe de um menino bichento encontrou o corpo de Asdê jogado no meio do mato. Encontrou também um homem desconhecido — aquele de Palmas — com o chapéu dela na cabeça e jazido também.

As pessoas, muito comovidas com a morte de Asdê resolveram enterrar o chapéu junto dela, não sem antes ler o que estava escrito no forro do chapéu e que se apagou logo em seguida: “E a justiça olhou do alto do céu porque o homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu.”




Copyright 2013 (c) - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão da autora.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Um Quadro na Parede


Por Beatriz Mecking

Morava no casarão — que os vizinhos chamavam de castelo — desde que nascera. Tinha-o visto cheio de gente, avós, pais, tios, primos, empregados. Aos poucos, ele foi-se despovoando, ficando mais vazias as suas peças. E, por fim, sem que quase se desse conta, acordou um dia sozinha. O marido morrera, os outros se haviam dispersado. Caminhou pelo corredor e chegou à sala, velha sala de móveis pesados, onde se destacava um Modigliani. Um Modigliani, não; preferia pensar na Modigliani, a mulher que, com seus olhos rasgados, impunha seu poder sobre o ambiente. Continuou a vistoria pela casa. Subiu as escadas, sem que o olhar se desgrudasse da figura. Aquela mulher parecia-se com ela; melhor, ela se parecia cada vez mais com a Modigliani. (Outra Dorian Gray?...) Passou as mãos pelo rosto, sentiu as angulosidades; deixou os dedos escorrerem pelos cabelos, concentrada. Aquela mulher...
Subiu ao sótão. Ali se haviam amontoado, ao longo dos anos, livros e revistas. Havia livros de arte, revistas estrangeiras, um pouco de tudo naquele esparramo. Vestígios de um tempo de fausto, época em que seus avós conseguiram coisas preciosas para decorar o casarão. Sentou-se a uma mesinha que trouxera para cima — ali estava a máquina de escrever (ainda continuava fiel a ela), papel à disposição, lãs para tricotar, etc. Sentou-se, sem vontade de fazer coisa alguma. Uns restos de sol espremiam-se pela janela, dando um calorzinho ao recanto. Encolheu-se e ficou parada, pensando na limpeza que aquilo tudo estava por merecer. A última empregada fora embora; não sabia se teria recursos para contratar uma nova.
Acendeu um cigarro. E mais outro. O foguinho crepitando para se extinguir... Estava fumando demais. Vender a casa era uma solução. Vender, desfazer-se de tudo, ir para outro lugar. Pequeno, sem passado, em que apenas ela coubesse. Apenas ela; mas, e as recordações? Haveria lugar para as recordações? Ou era melhor que não houvesse? Não saberia responder.
Deitou-se tarde. O sono foi interrompido por alguns sobressaltos. Gritos vagos se faziam ouvir. Foram tão prementes que acordou. Incêndio, pareceu escutar. Incêndio, gritaram com mais força. Ela sentou-se na cama. Já estava bem acordada. Pessoas agitavam-se lá fora.
— Abra! Olha o fogo lá em cima!
Abriu a porta e deixou que agissem. Viu os bombeiros chegarem, acompanhou a operação. O sótão, pensava, meu lugarzinho... E os fósforos? Os cigarros? A dúvida assaltou-a, penetrou fundo: teria sido ela?...

Quando foram embora, fechou a porta com a tranca de ferro. Não se animou a subir. Ficou embaixo, caminhando pela casa, ao léu. Estava um pouco mais vazia, ela própria. Seus olhos pecharam com os da Modigliani: ambas estavam inteiras, por enquanto.



Copyright 2013 (c) - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão da autora.