segunda-feira, 8 de abril de 2013

O SONHO NÃO ACABOU





Parada na porta do seu quarto, ali estava ela. Angelina Jolie. Por um momento, Ernesto Olívio sorriu como se estivesse consciente de que era apenas um sonho. No entanto aquela mulher deslumbrante continuava ao alcance de suas mãos, perfeita, numa pose sensual. Impossível resistir.
Antes, porém, só por garantia — afinal, além de neurótico, era um homem precavido —, correu para o banheiro. Queria se certificar de que era ele mesmo do outro lado do espelho, e não o Brad Pitt.
Neste exato instante, ouviu o som do despertador. Num ato reflexo de ódio jogou o relógio, que, por um triz, não acerta a cabeça de sua esposa. De volta ao banheiro, ao lavar o rosto, o terrível susto. Brad Pitt ria da sua cara no espelho. 




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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Hirsuto entre as cobertas



Por Michele Calliari Marchese

Esse causo aconteceu com a Dona Edite casada com o tal de Victor Hugo.
O dito era pedante, perdulário e impossível, transformou a vida da mulher num inferno psicológico e numa prisão tenebrosa. Naquela época, o divórcio não era possível, tanto que a separação nem passava pela cabeça da esposa.
Quando morreu de tanto beber naquela noite no bar da Dona Luiza, levou tudo consigo. Para as graças da mulher.
Quando a Edite soube da morte do peçonhento, ficou estática como num sonho. Pediu mais de mil vezes se era verdade e não acreditando em nenhuma das vezes que lhe contaram, foi até o bar para ver com os próprios olhos e com os nervos em frangalhos. Não soube o que fazer naquele momento. Estava tão feliz e livre do Victor Hugo que abandonou o corpo do morto ali mesmo na estrada e foi para a casa que agora era sua. Começou abrindo portas e janelas, ergueu as cadeiras, soltou o cachorro e passou a limpar freneticamente a casa. E o povo a esperar pelo enterro.
O morto ficou ao ar livre, largado no meio do pó, porque ao pó haveria de retornar e nada da mulher aparecer. Por fim, o Padre Dimas mandou que a chamassem para dar início às exéquias.
Acontece que a morte se deu enquanto era noite fresca e ninguém imaginaria que não houvesse um velório imediatamente após o passamento do infeliz e foi quando a catinga tomou conta da cidade que ninguém mais se atreveu a encostar um dedo no morto. A Dona Edite que olhava tudo impavidamente resolveu tomar as providências muito a contragosto.
Pegou a carroça do vizinho, dois cobertores de casal, pediu ajuda aos transeuntes e levou o maldito sem ninguém saber onde; sem as rezas de fim de vida, sem velas e sem choro.
Só ela em cima da carroça, num galope de asno que parecia um passeio de namorados, ela e o marido hirsuto. A única diferença era que as rédeas tinham trocado de mãos.
Soltou os cabelos e a guia e resolveu entrar num mato que tinha atrás do cemitério. Largou o corpo de chofre e partiu.
Um velho que morava nas cercanias da desova, viu tudo e resolveu enterrar o pobre diabo, deixando as cobertas dobradas e arrumadas. Daria destino a elas e avisaria o delegado depois, se lembrasse. Cansado da lida, esqueceu-se delas e do delegado.
No dia seguinte, quando acordou sóbria daquele funesto, deu-se conta de que nada lhe faltava, tampouco o ar quente da manhã. Um arrepio passou pelo seu corpo e resolveu que daria uma última olhada no ex-marido e pensando melhor o enterraria num caixão. Tudo bem certinho, como manda o figurino e para não lhe pesar a consciência.
Foi a pé analisando cada hora passada ao lado do Victor Hugo e a cada passo que dava maior era a sensação de alívio.
Quando chegou ao lugar encontrou as cobertas dobradas, como era o hábito do falecido e o corpo tinha desaparecido. Ficou apavorada e uma taquicardia lhe podou os movimentos e o pensamento.
Era vivo o Victor Hugo?
A essa ideia, a visão turvou e sentiu a dormência anterior ao desmaio. Recuperou-se bravamente e torcendo as mãos começou a olhar ao redor, esperando que a qualquer momento aparecesse o homem pelo meio do mato rindo sarcasticamente e batendo palmas.
Correu sem direção e não soube como chegou a casa e parando abruptamente na soleira da porta questionou como é que tudo estava aberto se o Victor Hugo não gostava daquilo.
Louca, tratou de fechar tudo e de manter tudo no mesmo lugar de antes e sentou desesperada numa cadeira em frente à porta a esperar o marido que haveria de chegar sem demora.
Muitas coisas fúnebres passaram pela cabeça da Dona Edite que inconscientemente começou a balançar-se com as costas na cadeira e a torcer as mãos.
Foi encontrada morta uma semana depois pelos vizinhos preocupados com o claustro e disseram irresponsavelmente a todos que o passamento deu- se pela saudosa e sofrida falta que ela sentia do marido.





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segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Motivo




Josefa era moça pobre do interior. Moça, mas já não tão jovem. Bonita, nunca fora. Claudicava um pouco, resultado de um acidente na infância. Praticamente sozinha no mundo, pois os pais já haviam morrido e ela não se dava muito bem com os irmãos. Uma amiga aconselhou-a a tentar um emprego na capital. Disse que conseguiria para ela trabalho em casa de família, onde ela pudesse morar. Em sua situação, tanto fazia morar aqui ou acolá, então decidiu-se: vou.
Começou a trabalhar. Honesta, séria, conquistou a confiança dos patrões.
Profundamente religiosa, não perdia o culto em sua congregação. Embora analfabeta, tinha a Bíblia Sagrada sempre à mão.
Porém... Sempre há um porém! Mal-humorada pertinaz, gemia e suspirava o dia todo, enquanto trabalhava. Revoltada com a vida que levava, queixava-se o tempo todo da tal “vida madrasta”. Às vezes tornava-se insuportável. Mas, como era honesta e a patroa precisava de alguém assim para olhar a casa e os filhos enquanto ia ela própria trabalhar, tolerava o mau-humor de Josefa e esta ia ficando.
Sabia-se que Josefa estava namorando um rapaz lá da igreja. Ainda assim não parecia feliz. O rapaz era filho único de mãe doente e dominadora. Dizia que, casamento, só depois que a mãe morresse. O que deixava Josefa cada vez mais ranzinza e mal- humorada.
Uma segunda-feira, contrariando todos os seus hábitos, Josefa acordou alegre, cantando. A manhã passava e ela trabalhava cantarolando. Não resmungou nem suspirou uma só vez.
A patroa, que a conhecia bem, e estava estranhando aquela alegria, não sem uma dose de malícia e ironia, perguntou: e aí, Josefa, sua sogra morreu?
Josefa, espantada, respondeu: como a senhora adivinhou? Quer dizer, morrer não morreu, mas está muito mal. Eu ia até pedir licença à senhora, para ir visitá-la no fim da tarde.
Licença concedida, lá se foi Josefa visitar a sogra doente.
Voltou à noite, mais rabugenta e mal-humorada que nunca. Entre gemidos e suspiros, descobriu-se que a velha havia melhorado, estava bem. Ainda não seria agora que o casamento iria sair.
Alguns meses depois, o tal namorado, mesmo com a mãe viva, casou-se com outra...



Obrigada, Lu Narbot, por participar outra vez aqui no blog. Estou muito feliz em saber que você está, a cada dia, desbravando novos caminhos. Parabéns pelo blog Bonecas no meu coração, volte sempre.

Abraços letripulistas,
Helena.



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