segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Num Certo Carnaval




Estava de odalisca e eu de pirata, carnaval de 1976, São José dos Campos, antigo salão de bailes na Rua Quinze de Novembro. Todo mundo pulando, alegria, fantasias, confetes, purpurinas, animação e lança perfume.
Tinha um jeitinho encantador de dançar, mexia os braços, pulava, requebrava como ninguém. Eu era e sou uma lástima, nem sabia o porquê de estar lá. Culpa dos amigos, que te convencem com possibilidades disso ou daquilo, principalmente se a possibilidade se refere a mulheres. Tá bom, aceitei. Até porque tinha levado um fora meses atrás.
E lá estava eu, ela também, no meio do salão, aglomerados de gente cantando, dançando e gritando. Foi ela que me viu feito peixe fora d’água, perdido na multidão. Parou na minha frente começou a brilhar, parecia vaga-lume piscando sem parar uma luz rosa. Sem jeito eu sorri, retribuiu. Tomou minha mão e saiu a me puxar pelo salão. Não tive como escapar, me encontrava bobo dançando com a menina.
Que canseira! Eu bufava mais do que ela. Convidei pra bebermos alguma coisa. Concordou. Meus amigos felizes pulando na fantasia dos irmãos Metralha. Uma cuba libre? Bom, muito bom, me respondeu. Única bebida que bebia quando saia nos fins de semana, hoje em dia ninguém gosta de cuba libre. Bons anos setenta.
Emitia o brilho rosa, aos poucos trocou por violeta mais forte, fraco e médio. Ficava mudando de cor a cada palavra que falava.
—   Estranho...

—   O quê?

—   Você, parece um vaga-lume cheio de luzes.

—   Tem medo de mim?

—   Eu? Imagina. Nunca encontrei alguém que emitisse luzes.
—   Tudo tem sua primeira vez.

É, tinha razão, eu era tão anormal quanto ela.

— Vem!
Puxou de volta pra dançar. Dançamos. Ficamos coladinhos, quando a beijei brilhou luz amarela e depois verde claro, esquecemos tudo ao redor, não ouvimos mais nada, acho que senti meus pés suspensos no ar, de olhos fechados não queria abrir pra confirmar.
Chamei pra sair, pra casa. Tinha discos da Nara Leão, Tom Jobim, Chico Buarque. Topou. Nem despedi dos amigos. Saímos correndo.
Nem arrancamos as roupas direito. Cama, caímos na cama. No começo estranhei aquele corpinho magro brilhando em luz rosa. Deitei sobre ela, beijo e assim começou pra durar minutos.
Minutos depois estávamos na cama escutando Nara Leão. Cigarros nas mãos, olhando para o teto. Cansados? Sim. Olhava-a, pensativa, o corpo não exibia luzes. Que coisa, na hora da transa foi arco-íris, terminado, deixou de exibir. Até o semblante mudou, o rosto, o corpo... Não, o corpo era o mesmo, magrinho, porém não a mesma menina que conheci no salão.
Era tão sem graça. Preferia de antes, com luzes. Pois diante de mim, uma moça normal, de pele branca, cabelo escuro, estatura alta me encarou.
—   Acabou carnaval.

— Sim. Acabou a alegria. — Respondi.
Mas queria dizer que as cores também se foram, que a menina que conheci não estava mais do meu lado e que minutos antes me amou. Tragou o cigarro, levantou, vestiu-se logo. Não enxergava mais um corpo bonito, igual às outras, que se vê por aí andando pra cima e pra baixo. Cinderela de carnaval?
— Adeus.
Disse baixinho, mal deu pra ouvir, também dei meu adeus sem energia. Virei-me de lado, triste, sentindo vazio, arrependimento. No outro dia seria quarta-feira, quarta-feira de cinzas. Nara Leão cantava, talvez quisesse me acompanhar na tristeza. Maneira estúpida de encerrar o próprio carnaval.
Amanhã, quarta-feira de cinzas, só haveria o cortejo e nada mais.







* * *

Se existe Céu e existem Anjos, pelo menos um deles entoa um cântico sempre que alguém na Terra se aventura a passar adiante o que viu, viveu ou imaginou.

E é por isso que, neste canto, damos espaço a todos, iniciados e iniciantes, interessados na fascinante arte da 'contação'.


Rodrigo Arcadia, muito obrigada por participar em nosso blog, volte sempre!

Helena e Michele.


Copyright 2013 (c) - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Ascendendo



Por Helena Frenzel


Chamou o elevador. Era só cansaço e o final daquele turno prometia-lhe o melhor: a cama enorme, macia. Sonhava com o prêmio dos lençóis cheirando a limpo e ansiava por um sono bom; também pelo bolo que a faxineira deveria ter batido, pois a mais, para esse e outros mimos, concordara ele em pagar. Tinha direito!
Era de manhã. Seu turno encerrava-se às oito e ele ficava sempre mais um pouco, cerca de uma hora, arquitetando o futuro e medindo os pulsos do coração do capital. Com muito esforço e exatos contatos havia chegado lá. E dera muito trabalho armar o circo: o colega desistiu não só do cargo, também do emprego, e mudou-se para outra cidade, pequena, no interior. Sem ele no páreo e ninguém mais preparado para assumir: bingo! as portas do futuro se abriam no compasso das do elevador.
Na vida, pra subir, a gente desce, com elevadores nem sempre isso se dá. Queria o subsolo, mas alguém que viera de baixo e ali já não estava, apertara o botão de um andar mais alto que o seu. Cento e dez andares, ao todo, e ele estava quase a meio caminho do topo, no andar da firma. Elevador pequeno, andar fantasma, não havia viv’alma quando ele o tomou.
No circuito interno, versos de What a Wonderful World fizeram-no lembrar de 1968 quando, aos sete anos, ouviu-a pela primeira vez. De repente, a impressão de que o prédio balançara fê-lo voltar ao presente e esquecer de Armstrong. Devia ser o cansaço, pensou. Um relógio mostrava 09:03 e ele, atraído pela força dos dígitos, balançou a cabeça especulando a boa fração de vida a gastar ainda na Itália, às custas de duras escaladas em mais de vinte anos de corporação.
A promoção era merecida, estava certo, em seu dia-a-dia só havia trabalho, planos, cálculos, transações e Elisa, de quando em vez. “Ai, Elisa, tivesse você mais ambição ou fosse você mais sórdida...”
Perdido em pensamentos, esquecera-se das luzes que iam mostrando os progressos do ascensor, estava a um passo do destino desejado quando sentiu um solavanco, ouviu um estrondo e tudo parou de funcionar. Sem energia e comunicação, sem rede, sem nada. Tudo tentara para escapar daquela caixa mas certas coisas só dão certo em filmes de ação. E como contava carneiros em criança, quando não conseguia dormir, 50 minutos mais ou menos contou do tempo para fugir de estar no escuro e no silêncio, do pânico de estar consigo mesmo, tortura sem igual.
Tudo o que sobe, desce, e em poucos segundos a vida se esvai: “Elisa, querida, tenho tudo, tenho o mundo para dar, tudo pago, sou rico e pobre de amor; paraíso e putas, não tive, saudade, só de mãe, deixada, deixou-me o pai, e dói. Ai, Elisa que sonha com Lorca, tivesse eu você agora aqui... Compro, vendo, não dou nem troco, compro-compro, vendi-vendi, vi vendi e vendo: mais vale aquele que não se vende do que aquele que se dá. “La Aurora” e  “las aguas podridas”, Elisa, ai, Elisa, jamais saberei, dinheiro, só dinheiro, trabalho, dinheiro, din-din, capital ganhei, dinheiro, na torre do mundo, dinheiro, nada herdei, dinhei-, capitalismo e moral, dinhei- calculo se Deus din-din... e perco! Hoje faço quarenta anos, setembro, quarenta anos de solidão. Estou cansado, estamos todos perdidos. Não fui imoral.”
“What a wonderful world!” foi seu último suspiro, a canção de Elisa, a que ela gostava mais.
Tivesse ele já não perdido os sentidos lembraria também da queda, do ferro, do pó e dos detritos, da torre e dos sonhos cobrindo-o, desabando, da tão desejada cama e dos limpos lençóis. Desejos de aniversário se realizam. Ele queria o subsolo e ansiava por um sono bom.




Copyright 2013 (c) - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão da autora.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A Procissão dos Vivos



Por Michele Calliari Marchese

Já fazia uma semana que o Padre Dimas vinha falando na organização da Procissão de Corpus Christi para a quinta feira santa. As mulheres da Campina seguiam de casa em casa para pegarem tudo o que podiam para fazerem os tapetes por onde passaria a procissão.
Estavam todos empenhados e esperando a vinda do Bispo Dom Joaquim da capital, que prometera a visita uns dez anos antes e que tinha confirmado por carta no Natal do ano passado, deixando a população em polvorosa.
A Dona Lídia que era auxiliar na catequese dos pequenos sabia que em dia de quinta feira santa o Bispo, ou seja, nenhum Bispo podia sair de sua Diocese, e aqui na Campina e na região, mesmo em Palmas, não tinha nenhuma Prelazia autorizada pela Igreja. A Dona Lídia insistia que o Bispo não poderia vir, pois poderia acontecer alguma desgraça. Aqui ou lá.
O Padre Dimas não deu atenção, mas deveria ter dado.
Na quarta-feira, dia 18 de junho, o Padre verificou se os tapetes estavam prontos e viu a coisa mais linda que nunca tinha visto em dias de procissões, pois estava tudo muito colorido, muito vivo e de uma criatividade sem tamanho e chamou o fotógrafo para bater algumas chapas. As mulheres que estavam por ali abriam e fechavam as bocas diante de tão belo espetáculo que seria pisado no dia seguinte.
Todos ficaram esperando o Bispo chegar, mas como a noite ia avançando e estavam todos cansados, desistiram da recepção e foram dormir.
No dia seguinte, o Padre badalou para a Santa Missa e ficou um pouco decepcionado com a ausência da visita ilustre, mas mesmo assim continuou. Quando saíram para dar início à procissão, encontraram o Bispo em cima do tapete, vestindo as vestes propícias, com seu manto escarlate e seu turbante branco; rezava de cabeça baixa com as mãos cruzadas em seu peito.
O Padre Dimas ficou felicíssimo e foi lá dar as boas vindas ao Bispo que dizia chamar-se Dom José Joaquim e vinha em substituição àquele que viria, mas que não veio porque nenhum Bispo podia ausentar-se de sua Diocese.
E assim, seguidos de toda a população da Campina teve início as estações da procissão. A Dona Lídia ficou bem para trás porque tinha um pressentimento dentro de si que não soube explicar às comadres. Um pressentimento ruim.
Foi quando acendeu a sua vela na do marido e o vento fez com que o véu que usava caísse no chão. Estava pisando no tapete, mas assim que trocava o passo todo aquele colorido que ficava para trás transformava-se num pó escuro que se misturava com a estrada de chão batido. Mostrou ao marido e resolveram andar mais rápido e ver a coisa de lado. E viram que o tapete ia sumindo assim que a última pessoa passava por ele e ficaram muito assustados e sem coragem de contar às pessoas o que viam e resolveram comunicar ao Padre Dimas e ao Bispo o que estava acontecendo.
Quando conseguiram chegar lá na frente e ficar perto do Padre foi num momento de oração e tiveram que ajoelhar para acompanhar a procissão e não assustarem os outros. O Padre ouviu atento sob os olhos curiosos das beatas prostradas atrás dele e pediu que esperassem o Bispo terminar a última estação. Estavam quase apavorados, porque viam o tapete desaparecer diante de seus olhos e o cheiro das velas era insuportável.
O Bispo, visivelmente emocionado, encerrou a procissão. A população que queria beijar a mão do Bispo logo se aglomerou em torno do Padre e pediam onde estava o Bispo e o Padre dizia que ele estava por ali e a Dona Lídia pediu que Bispo era aquele que não tinha participado da Missa, ao que o Padre respondeu que era o Dom José Joaquim, mas aí um susto perpassou pelos seus olhos e percebeu o que deveria ter lembrado antes, que a visita ilustre estava morta há mais de cem anos.
E todos ouviram isso e em seguida viram que o padre olhava para o chão a procurar alguma coisa e também olharam para o chão e então perceberam assustados que não havia tapete algum por ali.
Havia só a terra batida. As mulheres compreenderam tudo, porque quando foram preparar os tapetes deram de cara com eles prontos e todas achavam que as outras tinham feito. E o Padre pediu ao fotógrafo que revelasse as fotos imediatamente.
Um mês depois aparecia um fotógrafo assustado na igreja a mostrar as fotos tiradas na quarta-feira que antecedera a procissão.
Apareciam nelas o Padre Dimas, algumas crianças que não estavam lá na hora das fotos, e o Bispo ajoelhado na estrada, com a mão estendida como a colocar alguma coisa ali.



Copyright 2013 (c) - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão da autora.