terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O divorciado


Por Michele Calliari Marchese

Esse episódio aconteceu quando o Vilson saiu para a lida na roça e encontrou um compadre divorciado na estrada. Conversaram um tantinho e o compadre lhe disse que uma das coisas ruins de estar separado é que não se tinha o que comer em casa. O Vilson ficou compadecido com a situação e prontamente o mandou à sua casa para comer o bolo frito que a esposa tinha recém tirado do forno. Gritou para a mulher ali da estrada mesmo, mas ela não escutou.
Quando o compadre bateu na porta e ninguém atendeu, resolveu dar uma volta por fora da casa, pois que as janelas estavam abertas e ela poderia estar em algum quarto. Encontrou-a abaixada ao lado da cama do casal fazendo um esforço inaudito para consertar alguma coisa.
Chamou a comadre que levou um susto ao ver o compadre na janela, todo penteado de brilhantina e cheiroso. Ela levantou arrumando a saia e dizendo numa rapidez melancólica que não sabia como é que a cama tinha se quebrado e o compadre, muito solícito e com fome, ofereceu-se para ajudar.
Arrumou a cama, comeu o bolo e conversou amenidades rapidamente porque ficava muito chato que ele estivesse ali justamente quando o marido estava no trabalho.
À noite, quando o Vilson foi se deitar encontrou uma chave perdida entre o pé da cama e a mesinha de por o copo d’água. Pegou a chave, mordeu os lábios e não reconheceu a dita cuja, mas mesmo assim testou em todas as suas portas e trancas. Em nenhuma serviu. Embrulhou a chave num lenço e guardou no bolso da calça. Não falou nada e engoliu pesadamente as ideias que vinham em sua cabeça. Que diabos era aquilo?
Não conseguiu dormir e custou a levantar no dia seguinte.
Resolveu que contaria ao compadre sobre o descobrimento da chave para ver se ele lhe ajudava com algum conselho. Bateu na porta da casa do homem e ouviu que era para ele dar a volta e entrar pela despensa já que tinha perdido a chave da porta da cozinha.
Pois o Vilson ficou pálido com o que ouviu e resolveu – num ímpeto – que cuidaria o momento que o compadre saísse para experimentar a chave que encontrou na porta daquele divorciado. E o compadre percebeu a raiva de cão que perpassava nos olhos do Vilson e se perguntou o porquê da visita e uma comoção passou pelo seu coração de homem sozinho: O Vilson teria descoberto alguma coisa?
O Vilson escondeu-se num mato ao lado da casa do compadre e esperou. Suava tanto que chegou a passar mal, tanto pelo calor como pelas desconfianças que estavam a um passo de serem confirmadas, e se fossem, não queria nem pensar para não ter um ataque ali mesmo. Quando o compadre saiu, o Vilson desembrulhou a chave do lenço e com as mãos trêmulas e molhadas tentava acertar a fechadura, mas estava tão nervoso que não conseguia. Tratou de acalmar-se e por fim ouviu o clique da traição.
Nem pensava o coitado, tomado de fúria incontrolável deu um coice na porta que bateu na parede e voltou a fechar indo de encontro ao seu rosto estupefato. Esse acidente fez com que o Vilson voltasse à razão e então resolveu que daria uma janta ao compadre e confrontaria a esposa e o amante na mesa da cozinha.
Avisou a esposa que preparasse um belo jantar e pediu à filha que tomasse banho e vestisse a melhor roupa que tinha.
Chamou o compadre para a ceia e quando este sentou à mesa, o Vilson jogou a chave no peito do traidor e disparou uma série de impropérios dizendo que era para ele e a esposa sumirem de suas vistas e gritou dando vazão aos sentimentos de traído que a esposa saísse de casa só com a roupa do corpo e que fossem viver aquela sem-vergonhice longe dos olhos dele e da filha.
A filha tremeu e começou a chorar dizendo não ser a mãe a amante do compadre e sim ela, iria embora bastava que o namorado se levantasse.
E o Vilson que acompanhava o desenrolar da cena, olhou para a esposa e num sentimento que passou no fundo do seu peito o fez acreditar que não era só a filha a concubina daquele divorciado.


© 2015 Blog Sem Vergonha de Contar - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do(a) autor(a).

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O primeiro automóvel da Campina da Cascavel


Por Michele Calliari Marchese
Esse causo aconteceu quando o tabelião resolveu comprar um automóvel. Foi na década de 30 e as estradas eram intransitáveis; o dito cujo levou três meses para chegar à Campina da Cascavel e veio em cima de um caminhão até Cruzeiro do Sul e depois abriram trilhas a facão e o trabalho, feito por uma dezena de pessoas, era lento e mitigado. Enfrentaram toda espécie de intempéries e muitas vezes ficavam dias parados até que o clima amenizasse.
No dia em que o automóvel chegou à cidade, o tabelião quase chorou de emoção; tinha as mãos no rosto e a boca aberta e não sabia dirigir, mas aprenderia com aqueles que o tinham trazido. Primeiro lavaria, esfregaria e poliria, depois beijaria e passaria as mãos pela lataria para sentir o gosto daquela máquina impensável.
Era o progresso. Era a felicidade.
As crianças logo ajuntaram em torno do carro e foram repelidas bruscamente pelo tabelião, ciumento de dar dó. E assim ele passou dias mostrando, averiguando – sempre de pano na mão – entrando e saindo, ligando o motor e acariciando o volante. Tinha os olhos brilhantes e remoçou no mínimo dez anos.
Aprendeu a dirigir e comprou um terno novo para desfilar de carro na cidade e sua mulher enrolou os cabelos em bóbis para parecer mais bonita lá dentro. Faziam pose e abanavam aos transeuntes. Convidaram até o Padre Dimas para uma volta, mas ele declinou do convite, afinal, era um homem de Deus e deveria manter a humildade dos votos de pobreza – assim dizia.
Aconteceu quando o Aparício, lá do Pesqueiro de Cima, vinha manso em seu cavalo para a cidade a fim de comprar açúcar no comércio e escutou um ronco diferente, algo que nunca tinha escutado em vida e então viu aquele demônio preto surgindo pela estrada e assustou-se de tal modo que desceu do cavalo em disparada para esconder-se no meio do mato.
O tabelião passou pela estrada com seu automóvel e viu aquele cavalo abandonado. Parou, verificou os freios, deu uma passada de camisa no espelho e desceu. Deu uma volta ao redor do cavalo e não se apercebeu dos “psiu” que o Aparício fazia atrás de uma árvore.
“Sai já daí seu tabelião, corra ligeiro”, disse o Aparício muito nervoso. O tabelião escutava o homem, mas não o via, adentrou o mato e ficou procurando, até que achou o Aparício acocorado, com os braços nos joelhos, suando desesperado por alguma coisa muito grave. O tabelião ficou preocupado com aquela cena inusitada e pediu-lhe se estava doente. “Não”, lhe disse o Aparício, e tremia os lábios como se a qualquer momento fosse ter uma síncope. “Se agache home, senão o demo vai te pegar”, repetiu num sussurro aterrador. O tabelião se abaixou assustado, decerto haveria por ali alguma coisa que ele não vira e da qual aquele homem estava escondido. Ficaram os dois por algum momento em silêncio. Cada um ouvindo a respiração do outro, o suor abundante, não tanto pelo calor, mas pelo medo, e isso fez com que o tabelião começasse uma conversa. Pediu o nome do assustado, o que fazia e de onde vinha e o Aparício respondia, sem pestanejar, olhando por entre o mato de quando em quando, numa verificação de aproximação.
Era tão medonha a atitude do Aparício que ele não se dera conta de que já estava deitado no chão, tremendo também, suando mais que o normal e imaginando o inimaginável. Até que por uma ordem da conversa, o tabelião pediu do que o Aparício estava se escondendo. E o homem lhe disse que fizesse silêncio, pois com o barulho que o tabelião fazia era bem capaz de serem descobertos em seu esconderijo. “Espere que a besta saia”, respondeu.
E o tabelião ficou pensando nas palavras daquele homem. “Besta? Ora essa! Que besta?” “A besta dos inferno, seu tabelião”. E o tabelião pediu como era essa besta, para se preparar para o pior, ou para se fingir de morto se o caso exigisse, mas precisava saber. E o Aparício olhava pelo meio do mato e dizia: “É preto, tem uns zóio branco esbugalhado bem na frente no lugar dos dente, ronca como o diabo e no lugar dos pé, tem roda”. E ficou olhando a reação do tabelião que esbugalhou os olhos diante da informação que batia minuciosamente com a descrição do seu automóvel. Ficou um tempo parado, sem reação, pois passara tanto medo que seus joelhos doíam e levantou-se num ímpeto, assustando ainda mais o Aparício, que temia serem descobertos.
Depois de muita discussão, um tal de puxa para baixo para esconder o tabelião e este levantando-se, foi que o Aparício começou a entender o negócio.
O tabelião puxava o braço do Aparício para mostrar-lhe o carro, e este se benzia sem parar e fechava os olhos e quase chorara implorando para que o tabelião não o levasse para a boca do satanás.
No fim do dia - porque eles ficaram escondidos a tarde inteira - foi que o Aparício entrou no automóvel para conhecer e ficou admirado com tanta inovação e tecnologia e pediu como funcionava e sacou de um lenço que tinha no bolso da calça e inconscientemente começou a lustrar todas as peças seguido dos suspiros do tabelião.
“Um dia eu vou ter um desses”, disse o Aparício ao tabelião e este lhe respondeu que um dia todos teriam um desses. Era o progresso chegando à Campina da Cascavel!

*** Conto inspirado no Livro “O velho Xaxim” da escritora Valdirene Chitollina. Fica a dica para leitura ***


© 2015 Blog Sem Vergonha de Contar - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do(a) autor(a). 

sábado, 10 de janeiro de 2015

UMA QUESTÃO DE NOME

Por Antonio Sodré

Clarice dizia que não buscava a beleza; buscava a verdade. Ainda que acredite que o nome quem faz é a pessoa, existe uma boa sonoridade, algo distinto e apreciável na junção de alguns nomes e sobrenomes. É que escritores – eu pensava - têm nomes difíceis, enigmáticos, simbólicos. É José, tão simples e belo, mas é Saramago. Poucos sabem que sem o “s” maiúsculo, o nome designa uma espécie de planta crucífera, ou seja, planta cujas flores têm corola em forma de cruz, como o agrião. Talvez exista um José Agrião em alguma parte, mas observem que mesmo que fosse um escritor respeitável, a sonoridade seria bem inferior. É Fernando, nome forte, expressivo, tanto quanto comum, mas é Sabino. E sabino é o nome de um antigo povo que habitava a Itália. Lembram-se do famoso “Rapto das Sabinas”? Pois é, mas o nosso Sabino continua sendo brasileiríssimo. Sim, continua, pois escritores não morrem, apenas ausentam-se dessa existência. Do mesmo modo, é Antônio, com ou sem acento agudo ou circunflexo, nome pelo qual tenho muita estima, mas é Calado. E entre os sentidos habituais da palavra, calado também é a distância entre a superfície da água em que uma embarcação flutua e a face interior de sua quilha. Um navio atracado está em calado. Soa, às vezes, irônico, pois Calado foi tudo menos calado. 
Alguns são atraídos pela tarefa de sondar a beleza por trás dos nomes, muitos adjetivados. Obras de teor lispectorante ou drummondiano atraem olhares curiosamente, porque nomes carregam marcas, insígnias. E muitas destas são atribuídas àlguma sorte, ou maldição. O nome Caim não é muito benquisto pelos pais... Por que será? E Lúcifer, portador da luz, não designa mais a sua origem. Satanás, o acusador, além do primeiro dono, só foi dado ao que me parece, ao perro da Bruxa do 71, Dona Clotildes. 
Se Clarice buscava a verdade, contextualizada na busca incessante de exprimir seu pensamento, sua verve literária, acabou por dar além de uma expressividade inconfundível, uma autenticidade imutável e incorruptível às suas obras, uma beleza encontrada apenas em suas histórias, em seus personagens, com nomes tantos e variados, incomuns como o nome da autora. Até hoje só conheci uma Macabéa... Tenho medo do nome Macabéa, talvez pela infeliz sorte da personagem, talvez porque é um nome sem sentido, de origem apenas onírica. Mas também me recorda uma estrela, um escarlate sanguíneo, uma redescoberta, catarse dessas que só quem conheceu Macabéa sabe.
Quem tem nome composto sabe a sina de se dirigir à muitas direções. Ora sou Antonio, o digno de apreço, o inestimável, ora sou Fernando, o ousado, o corajoso, ou em um tom mais austero e impessoal sou Sodré, de origem incerta, meio portuguesa, meio inglesa, sem sentido aparente, mas que causa até uma boa impressão; ou simplesmente, como sou menos conhecido, sou Júnior, o mais jovem entre duas pessoas. Nesse caso, entre três pessoas; o Júnior é a parte menos habitual de mim. Com os quatro nomes que possuo, posso fazer boas combinações, mas o que me agrada é que de tantos nomes, eu posso escolher ser o Antonio ou o Fernando que quiser, ou pelo menos tentar... Mas meu nome por muitas vezes assume outras nacionalidades, encarna outros gêneros, famílias, e me desafia. Que enquanto o texto não está pronto, eu sou o mote de sua criação, e me chamo por vezes Patrício, Espanca... Hoje eu fui completamente Lispector, numa dessas tantas outras licenças poéticas, que eu sei que vestindo um nome, é apenas mais um eu que pede para existir.



© 2015 Blog Sem Vergonha de Contar. Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons - Atribuição - Sem Derivações - Sem Derivados 2.5 Brasil (CC BY-NC-ND 2.5 BR). Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Para ter acesso a conteúdo atual aconselha-se, ao invés de reproduzir, usar um link para o texto original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.