sábado, 20 de dezembro de 2014

O Nascimento

Por Soraya Souto

Eles seguiam devagar em meio à agitação febril da rua. Destoavam das pessoas apressadas que entravam e saíam das lojas, carregando sacolas de presentes com as últimas compras natalinas. O seu ritmo mais lento de caminhar parecia incomodar um pouco os outros, que aceleravam o passo para ultrapassá-los como se tivessem receio de lhes tocar.

Depois de dias procurando emprego naquela cidade, tinham sido obrigados a deixar a pequena pousada onde estavam, e saído à procura de um outro lugar para ficar. O homem amparava a mulher grávida, oferecendo-lhe apoio a cada parada, e um sorriso de incentivo quando recomeçava a caminhar.

Desde aquela manhã ela sentia dores, e estava assustada com a proximidade do nascimento do seu primeiro filho. Já era quase meia noite quando ela pediu para parar.

Olhando em redor, ele a conduziu através de algumas caixas de madeira, e palets abandonadas, na entrada de um beco próximo. Rapidamente ele improvisou um abrigo, esmagando algumas caixas de papelão grandes para ela ter onde reclinar-se. Depois empilhou caixas contra o vento frio e o ruído que vinham da rua. E algumas sacas velhas, rasgadas, emprestavam alguma intimidade àquele recanto do beco onde, ele sabia, o milagre da vida não demoraria a acontecer.

O dia terminava, e a escuridão trouxe consigo uma pequena fogueira que alguém acendeu. Pouco depois, uma velha senhora surgiu oferecendo uma tigela de sopa. Aos poucos, outras pessoas que ali se abrigavam foram aparecendo. O pequeno beco revelava-se, agora.

Uma luz fraca acendeu-se, numa janela alta, iluminando mais um pouco. De uma porta que se abriu, dos fundos de um restaurante, vieram toalhas limpas. De algum outro lugar, uma velha manta de lã somou-se ao momento.

Enquanto isso, na rua as pessoas passavam indiferentes, desconhecendo o que ali se passava, e a harmonia fraterna que se estabelecia, como um laço natural entre os que dividem dores e dificuldades. Quando a hora do nascimento chegou, deram-se as mãos silenciosamente, em uma expectativa sincera pela nova vida que acontecia.

O bebê chegou com os primeiros raios do sol, e seu choro alto e forte ecoou pelas paredes do beco. Foi colocado em uma pequena caixa de papelão, sob os olhares dos pais felizes e emocionados.

E quando os sinos da igreja, na rua ali ao lado, convocaram os fiéis para a primeira missa do dia, os moradores do beco já estavam ajoelhados e fazendo uma prece pelo pequeno recém-nascido, que trouxera consigo a alegria da vida, e reunira em si as esperanças de tantos com bom coração.

Era Natal novamente.




Nota: este texto faz parte do ebook natalino a ser lançado muito em breve no site do Projeto Quintextos.


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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Ao Que Muitos Chamam Natal

Por Helena Frenzel

Do lugar do motorista, no carro parado no estacionamento, ela observava meio emburrada o vai-vem tão típico das vésperas de Natal. Não agüentava mais todo aquele consumismo. Todo ano é a mesma coisa! O clima melancólico, os lembretes de que muitos não têm sequer o que comer... E as campanhas tilintando: Compre Baton! Compre Baton! E tudo é sempre coca-cooolaa. Não, não suportava mais aquilo! Se possível, gostaria de dormir e acordar bem depois de haver baixado a poeira de todas as festas de fim de ano. Em meio às suas revoltas sazonais, contra o sistema, uma coisa naquele estacionamento movimentado chamou-lhe a atenção. Tratava-se de uma menina que, naquele momento, começava a acomodar suas compras natalinas num pequeno carro, modelo popular. Talvez aquela mocinha não tivesse mais que 18 anos... Viu quando ela, primeiro, trouxe uma caixa plástica transparente. Dentro da caixa, várias bolas douradas e outros enfeites natalinos espremendo-se e concorrendo entre si, esperando ansiosos para saber a quem tocaria a sorte de ficar com a vista mais legal da janela. Nem adiantou a briga dos enfeites, pois a menina acomodou a caixa no chão do automóvel, no banco traseiro, escondendo-a, ou melhor: protegendo-a à sombra do banco do passageiro. E ela, nossa voyeur, de seu posto, chegou a ouvir os gritos de decepção e os choros, que em nada faziam recordar os chorinhos musicais chorados com tanto gosto pelos chorões passados brasileiros. Era mesmo um berreiro! Irredutível, a menina voltou ao carrinho de compras, agora para retornar com duas orquídeas, cada uma em cada vaso. “Embora não passem de parasitas, chame uma orquídea de aproveitadora ou sanguessuga pra você ver aquilo roxo, chame! Que nada,” pensava nossa voyeur, “chiques do jeito que essas plantas são e tão delicadas... Se molhar demais, murcham; se molhar de menos, secam do mesmo jeito! Não entendo as orquídeas, tão belas e tão temperamentais. Não se fazem mais plantas como antigamente, isso sim! Todas estragadas em laboratório!”. A menina começou a acomodar as orquídeas no automóvel.
E nossa observadora chegou a ouvir o choramingar de uma das duas: “Ai, vai estragar meu visual! Depressa, depressa!”. Chuviscava. Parecendo entender suas queixas, a menina pôs uma delas sobre o banco da motorista, enquanto buscava acomodar a outra em algum lugar no banco de trás. Nossa voyeur não sabia como fizera a menina, pois as orquídeas foram engolidas por aquele automóvel, por fora tão pequeno e, por dentro, se duvidar, com compartimentos simulando buracos-negros engolidores de bagagens, ainda que fosse um sumidouro temporário só durante o deslocamento. Terminada a operação super-cuidadosa, a menina devolveu o carrinho de compras ao estabelecimento e voltou apressada à sua nave. Talvez essa pressa última tenha sido só por causa da leve chuva... Por todo o tempo que observara sua atuação, em nenhum momento nossa espia percebeu sequer uma ruga de impaciência no rosto da menina. Muito pelo contrário, a menina moveu-se tão devagar durante o carregamento de seu pequeno veículo que, caso tivéssemos que ficar ali o dia todo, por certo não nos entediaríamos com aquela dança mística, quase ritual. Enquanto nossa olheira, em seu posto, aborrecia-se pensando que todo final de ano era a mesma coisa, a menina, ao contrário, parecia estar curtindo cada segundo daquelas compras, e feitas num dia assim tão cinza, chuvoso, ranzinza. O que levou a observadora a pensar que talvez fosse aquele o primeiro Natal da menina em sua casa nova. Talvez por isso lhe desse tamanho gosto sair para comprar enfeites, e pagar com o próprio dinheiro. Quem sabe, estivesse organizando a sua primeira ceia de Natal... Poderia também estar curtindo o primeiro automóvel, a liberdade, a sua licença para dirigir, não só veículos, mas também a própria vida, seguindo a direção que bem lhe parecesse, e sem ter que dar satisfações a ninguém! A menina entrou no carro, pôs o cinto de segurança. Nesse momento, pela expressão dela, nossa observadora achou que parecia pensar: “Ôba, a vaga da frente está livre, nem preciso usar a marcha-ré. Era só ligar o motor, por via das dúvidas olhar para os lados e depois seguir”. O caminho estava livre. Naturalmente, a menina o tomou. Êpa, de repente uma freada. Não brusca, claro, para não afetar o humor das melindrosas passageiras. A observadora notou que a menina arrumava rapidamente alguma coisa no banco do passageiro, a seu lado. Um colete de segurança, uma caixa com um circuito de luzes de Natal... Pronto! Agora poderia seguir. Olhou de novo, por costume de bom motorista, seguiu por menos de dois metros, sinalizou a mudança de direção e começou a ir-se embora, devagar.
E com ela, a menina, foram-se os murmúrios das bolas douradas. E as orquídeas, como estrelas de cinema, em limusines, escondidas, iam pondo em dia, uma para a outra, os últimos lançamentos, coleções e fuxicos do mundo da moda. Talvez, para as orquídeas, tanto faz se havia ou não uma festa de confraternização, voltada principalmente ao comércio, à que muitos chamavam de Natal.

—A peça está em falta! Agora, só ano que vem! Vamos?

Aquela voz grave, o barulho da porta do passageiro se abrindo e em seguida fechando bruscamente, a esperança de que nem tudo seria sempre a mesma coisa, o olhar inquiridor, o sorriso bobo, e nem um anjo..., as mãos frias, a menina indo, o frio lá fora, olhar perdido, o fuxico das orquídeas, o choro das bolas, o vai e vem no estacionamento, e nem um anjo..., a menina sumindo, o frio ali dentro, tudo, tudo aquilo tirando a observadora de seus devaneios e trazendo-a de volta à realidade fria e consumidora daquelas vésperas de Natal...

“Os sinos soarão no dia de Natal!
Os sinos soarão no dia de Natal!

Anunciando:... (?)”


Nota: este texto faz parte do ebook natalino a ser lançado muito em breve no site do Projeto Quintextos.


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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Papai Noel


Por Henrique Mendes

Alguém de espírito previdente me enviou um cartão de Natal que já chegou. Por dentro há uma meia dúzia de linhas, com os melhores votos de “boas festas” de um antigo amigo. Por fora, uma imagem deliciosa dumas casinhas cobertas de neve muito branca, com meninos brincando na rua e fumaça saindo pela chaminé.
Sorrio, tocado pelo gesto desse amigo de sempre. Depois de tantos Natais em silêncio, e de tantos outros cumprimentando-me apenas por telefone, resolveu enviar-me um cartão à moda antiga, pelos correios. Reli o texto, e depois voltei à imagem.
Toda a paisagem por trás das casas é uma mata em verde escuro, onde todas as árvores são árvores de Natal, enfeitadas com bolas multicolores, estrelas e luzinhas acrescentando brilhos. Nos céus, lá ao longe, muito pequenino, vem um trenó puxado por renas, com um Papai Noel bem gordinho de braços abertos, como se quisesse, num gesto de plena alegria, abraçar o mundo.
Claro que este é um cartão igual a tantos outros, baratinho, que se pode comprar em qualquer lojinha da cidade. Mas, para mim, recebê-lo foi uma coisa muito especial, que me fez lembrar do tempo em que eu e precisamente aquele amigo que mo enviou brincávamos na porta de casa fazendo bonecos de neve e construindo trenós, que queríamos velozes —tão velozes como imaginávamos que era o trenó de Papai Noel.
Brincávamos na neve, rindo sem parar, até que os nossos dedinhos de criança ficassem roxos de frio, numa espécie de licenciosidade que mães e avós reservam a esses dias, em que a natureza se veste de branco para, mais uma vez, nos conseguir deslumbrar e surpreender.
E dentro de casa havia a lareira acesa, com a meia pendurada, a árvore de Natal cheia de luzinhas e enfeites de todas as cores, as guirlandas nas portas, com as bagas vermelhas de azevinho, as caixas dos presentes dos adultos, ricamente embrulhados, música da época, enfim, todos os detalhes que compõem a mística do Natal.
Havia aquela expectativa imensa, quase palpável, para ver se as cartas que tínhamos escrito para Papai Noel muito tempo antes, com as listas dos presentes que mais desejávamos, tinham sido atendidas —e se os presentes eram aqueles que tínhamos pedido.
De tudo isto me lembrei ao receber este cartão do meu amigo. E agora estou aqui pensando que eu mesmo ainda não fiz nada. Nem lhe mandei um cartão, nem lhe escrevi, nem lhe telefonei, enfim: nada.
Na verdade, custei a arranjar tempo para montar uma árvore de Natal em casa, para que a época não passe despercebida. Mas ainda bem que o fiz, pois este cartãozinho tão simples, que o meu amigo me mandou, veio mostrar-me como é importante cuidar destes pequenos detalhes.
É preciso mantê-los vivos para que a tradição não se perca, e perdure o costume de um dia no ano —pelo menos um dia, no ano —as pessoas olharem o mundo com mais alegria, com mais carinho, serem mais atentas aos detalhes da vida e aos outros, e desejarem-se mutuamente felicidades por se quererem bem. E, por se quererem bem, partilharem mais, dividirem melhor, não apenas os bens materiais, as coisas palpáveis, mas também a ternura e o afeto, bem como a atenção e a alegria. E se, para isso, for necessária alguma imaginação —tanto melhor.
E se ao cuidar dos detalhes e de tudo o que é necessário para conservá-los, fizermos nascer, ou até aumentarmos, o folclore que rodeia a quadra Natalina, isso será excelente. Porque isso é a verdadeira cultura, perpetuando-se, levando-nos a ser capazes de conviver com valores que, apesar de se apoiarem em sonho e fantasia, não podemos deixar nunca que sejam menos reais.
Olho novamente o pequeno cartão que recebi, meio anacrônico nos dias de hoje, meio fora de moda, mas desta vez olho-o com um novo respeito.
Talvez tenhamos de fazer algumas concessões, algumas adaptações, não sei bem.
Talvez seja difícil imaginar Papai Noel descendo pela chaminé para entregar os presentes, quando hoje moramos em apartamentos onde não há chaminés.
Talvez os meninos daqui da cidade estejam certos, quando falam das renas como sendo veadinhos. E é claro que não sentem o menor entusiasmo com o trenó, que não tem rodas e só é capaz de escorregar numa tal de neve, que nunca ninguém viu.
Talvez Papai Noel tenha de vir de charrete. De carroção puxado por bois dourados... e de bermuda, por causa do calor...
Mas, ainda assim, valerá a pena !


Nota: este texto faz parte do ebook natalino a ser lançado muito em breve no site do Projeto Quintextos.


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