domingo, 24 de agosto de 2014

O Comissário do Governo


Por Michele Calliari Marchese

Levara um tiro.
Tinha lembrança disso além de sentir o sangue quente empapando sua roupa. Fechou os olhos e uma lágrima correu, não sentia dor alguma apenas um formigamento geral num estado de semiconsciência. Ouvia muitos gritos vindos de todos os lados que retumbavam em seus ouvidos sem dó nem piedade. Tentou reagir, mas o que via era muitas pernas e sapatos a correrem ao seu redor e os gritos que não paravam de acontecer. O pó entrou em seu nariz e teve uma vontade irrefreável de espirrar, porém não pôde fazê-lo; alguma coisa cortou no meio de sua carne e a dor foi insuportável.
Ele sabia e sempre soube que um homem só não poderia pelejar com dois homens armados. Não acreditava que aquele seu desafeto traria o amigo para emboscá-lo no bar. Um entrou e o outro ficou lá fora, de tocaia para o caso do plano dar errado. Nunca desconfiou disso. Tinha certeza de sua bravura e nunca fugiu dos problemas. Achavam que ele estaria desguarnecido de proteção. Enganavam-se decerto e era feliz por isso.
Levou um susto quando viu o amigo do desafeto na porta do bar com o revólver estendido em sua direção, apavorado por encontrar o outro morto no chão. Só entrou porque ouviu os disparos e uma grande correria. Tinha o rosto transtornado quando atirou no comissário e ele ainda tinha os pensamentos em ordem quando ao cair atirou no seu assassino. Morto os dois. “Ou nós três”, pensou.
O desafeto não queria pagar os tributos exigidos e sabia que nesses casos, bastava que ele telegrafasse para a capital que o dito teria tudo confiscado com multas altíssimas devido às ilegalidades de seu comércio. Combinou no meio da tarde um encontro no bar do Hotel para acertarem a quantia e, como comissário, enfrentaria um mar de lamentações sobre a precariedade de dinheiro daquele sem vergonha. Odiava quem não pagava impostos. Mas amava a mulher dele.
Havia saído da cama de amor para encontrar o marido traído no meio da rua. Tinha tudo planejado: Se ele não pagasse, contrataria um jagunço para dar fim àquele pobre diabo. Casaria com a esposa do futuro morto em outra cidade e viveriam bem e felizes e tinham um vasto horizonte de amor à sua frente.
Conheceu a Margarida atrás do balcão do comércio do marido onde fora fiscalizar numa quinta-feira de verão. Nunca esqueceria aquele dia que viu o amor pela primeira vez na sua vida e sentiu o perfume dela que fez um rombo em seu coração. Das conversas de balcão para a cama ardente foi uma semana, estava desgostosa do casamento, a coitada.
Tinha casado pela conveniência dos pais e isso entristeceu ainda mais a existência do comissário que lutava contra a paixão que sentia por ela. Num desses encontros furtivos, encontraram uma vizinha que ia visitar a Margarida. Quando ela foi bater na porta, ele saía por ela com o riso leve e a frouxidão de depois do sexo. A Margarida comentou no dia seguinte as suas impressões e achava que todo mundo já sabia que eles eram amantes, pois que o marido estava diferente no trato com ela.
Nunca imaginaria que ao chegar à Campina da Cascavel teria todos os seus sentidos postos à prova. Um amor periclitante e um comerciante fraudulento. Estava fazendo as férias de um colega seu na região e chegara com a triste impressão de que um dia as coisas acabariam mal. Tentaria se aposentar antes de tudo e sairia de lá assim que seu amigo voltasse. Não tinha as adaptações necessárias para viver em cidades pequenas, ermas; gostava de cidades grandes com movimentações e lugares para onde ir quando não se tem aonde ir.
Agora estava ali. No chão sujo de terra, se esvaindo aos poucos e com lembranças que jamais esqueceria. O comerciante sentado do seu lado esquerdo com uma arma apontada para a sua barriga. Pegou-o de surpresa quando atirou com a mão direita em seu peito fazendo-o cair morto na hora. Aquela confusão de gentes correndo e o rosto transtornado do amigo do morto na porta de entrada a lhe mostrar a morte iminente.
Fechou os olhos e pensou na Margarida. Ela ficaria viúva do marido e do amante ao mesmo tempo e a esse pensamento expirou pela última vez com um sorriso nos lábios.



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terça-feira, 17 de junho de 2014

A morte mais misteriosa que se teve notícia


Por Michele Calliari Marchese

Foi quando o delegado morreu. Encontraram o corpo jogado no meio de uma mata nativa, próxima da cidade. Quem achou o delegado foi o dono daquela terra, a mando do Padre Dimas, pois havia dois dias que o homem estava desaparecido e a mulher dele, a Dona Celina, procurou o Padre com o desespero estampado em seu corpo.

A população fez um mutirão de buscas e incluiu um moderno sistema de comunicação, trabalhado por jovens a cavalos que montaram guarita nos pontos principais da cidade e do interior. Não havia vivalma que não estivesse procurando pelo delegado. Todo o comércio fechou e as grávidas que não podiam sair na busca, ajudavam nas guaritas fornecendo comida, água e conforto.

Tudo fora abandonado para a procura do delegado, e durante a noite houve revezamentos constantes e de logística surpreendente. A cada meia hora um mensageiro trazia notícias ao tabelião que marcava no mapa os locais varridos pelas pessoas, todos sem sucesso.

As beatas faziam novenas com seus terços intermináveis e choravam pelo triste destino daquela população esquecida por todos, e tão guardada pelo delegado. Jazia em algum lugar aquele protetor ardente? Rezavam para que estivesse vivo ou sequestrado ou ferido. Com as buscas eles o encontrariam de qualquer modo, independente de sua condição física; e o autor do sumiço do delegado seria punido, sem dó nem piedade e por todos os justos e bons que deviam a tranquilidade de sua vida àquele homem da lei.

Passava das quatro do segundo dia quando chegou um dos mensageiros a passo lento, trazendo na mão um resto de pano preto, rasgado de suas próprias calças, anunciando mesmo sem dizer uma palavra, que o delegado era morto. O tabelião fechou os olhos numa atitude de negação, bateu com a cabeça naquele papel de tantos cálculos que jazia sobre a mesa e com as mãos foi amassando pelas bordas todo o insucesso da investida. Levantou-se com o rosto muito vermelho de tristeza e vestiu-se de luto.

Ele juntou-se à multidão que aguardava em frente à Igreja para a chegada do delegado. Em seguida chegaram os mensageiros em seus cavalos trazendo atrás de si uma turba de pessoas que caminhavam lentamente, como se tivessem morrido também.

Ninguém levou flores para não haver resquício de alegria, não enfeitaram o caixão para que não se lembrassem de adornos naquele dia que foi o dia mais triste da cidade de Xanxerê. E quando o esquife adentrou o átrio da igreja, carregado por todas as almas enlutadas, o sol ficou muito forte, como se fosse o sol do meio dia, e iluminou o recinto de tal maneira que o coroinha munido de uma coragem sobrenatural resolveu por conta própria apagar as luzes. Levaram uma cadeira para a Dona Celina sentar-se ao lado do esquife e não houve mais espaço para o velório do delegado.

O Padre Dimas quase não podia conter a emoção durante as exéquias e não havia mais palavras a serem ditas, pois aquele corpo jazido de tiro dispensava qualquer manifestação de apreço ou da recordação dos feitos de homem honesto e bom.

Quem achou o corpo não achou rastro, tampouco vestígio de luta — se é que houve alguma — e os revólveres do delegado foram encontrados em sua cinta, sem faltar bala e sem estarem engatilhados. Deduziu-se que ele fora pego de surpresa, sem chance de defesa, sem chance de ver seu assassino, pois o tiro tinha sido de covardia, daqueles que se dão pelas costas. Não havia pegadas no chão daquela mata e nenhum galho quebrou-se quando o corpo fora jogado ali. Ninguém notou movimentação de jagunço foragido e mesmo tendo seus desafetos ele era a pessoa mais querida da cidade.

Todas as perguntas ficaram sem resposta, pois saiu para trabalhar e nunca chegou lá, segundo o imediato.

Quando ergueram o caixão para levar ao cemitério, centenas de pessoas acompanharam a caminhada mais comprida de suas vidas e tinha gentes de todos os lugares e cidades vizinhas, todos vestindo preto e assoando seus narizes.

As crianças iam logo atrás do Padre Dimas, carregando inúmeras velas para iluminar ainda mais os caminhantes pesarosos e abandonados à mercê dos bandidos e das intempéries e também das assombrações que assolam a Campina da Cascavel.

O assassino nunca foi descoberto.






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quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Causo do Rádio


Por Helena Frenzel

Diz a lenda, lá em Fufu Lalau, que foi mais ou menos assim o causo: Mariazinha morava com a tia Noca e um dia quis passar um tempo na casa da Dina, uma tia que vivia numa outra cidade. Tia Noca brigou e brigou, foi do contra, moveu céus e infernos e que a Mariazinha fosse com a Dina ela não ia permitir! Mariazinha via na tia Noca um modelo de mulher arretada, mulher de fibra e de palavra estava ali. Mas a Noca era doidinha para ter um rádio e sonhava com o dia em que o dinheirinho desse para comprar um. Já a Dina tinha mais recursos e até um rádio, havia acabado de comprar um segundo modelo mais caro e de última geração. Mariazinha queria ir com a Dina era mais pela chance de ver o mundo um pouco mais largo do que as esquinas de Fufu Lalau, coisas de jovens, apelos da novidade. Mas Noca não ia deixar nunquinha, nem por cima do seu cadáver! Ao que Dina pensou um pouco e achou uma solução: “Quer ver como ela deixa tu vires comigo? Dou meu rádio velho pra ela e se acaba a confusão...” Mariazinha não acreditou na história e não quis crer na reação de Noca, mas foi só a Dina falar no rádio que ela logo amoleceu: “Se for pra passar só uns tempos... então vai!”. Mariazinha ficou de boca aberta ao ver que Dina tinha razão, Nora se vendera pelo rádio velho, e aos pés de Mariazinha ficou o corpo do mito no chão e os cacos do mundo caído, correu a arrumar suas coisas e foi com Dina viajar, aprender o mundo. Voltou pra Fufu Lalau mas nunca mais viu a tia Noca com os mesmos olhos e desse rádio em diante passou a prestar mais atenção nas letras do que nas músicas, pra não se deixar enganar nem pela Noca nem pela Dina nem por ninguém mais!

Então, o que parece que acontece na Bruzundanga, é que como a tia Noca há muitos por lá, que quando vêem um rádio, um carro ou uma bola são capazes de esquecer tudo o mais. E tem gente, que como a Dina, sabe disso e se aproveita, e se aproveita muito bem. O causo é que a Mariazinha, depois que foi com a Dina, nunca mais conseguiu ver a gente fufulalina com o mesmo olhar, pois que se vendiam fácil por qualquer bola, e aí o problema não foi nem a bola nem o rádio, o problema foi e continuará sendo a falta de moral.

“J’accuse!”



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