Por Michele Calliari Marchese
Todos conheciam o
Olavo pelas turras que tinha com seu compadre, o Rui. Viviam discutindo
supostos textos do suposto escritor e o compadre sempre dava um jeito de dizer
que nunca estavam bons. Aconteceu no dia em que descobriram o corpo do Inácio
dentro do bar — já fechado — da Dona Luisa, e o Rui mandou o Olavo fazer o
início de um conto. O primeiro parágrafo somente, que o resto ele lhe ditaria
entre uma cachaça e outra.
O conto versaria sobre
o abandono daquele corpo numa bodega. Horrível por si só e com o enredo
criativo do Rui bastava o Olavo começar. E ele começou:
“Naquele fatídico dia
oito, entre a avenida principal e a prefeitura, mais precisamente no
estabelecimento da Dona Luisa, foi encontrado na penumbra, um corpo.”
O Rui não gostou. Esse
negócio de por dia, hora e local eram coisas da paróquia e que o Olavo tomasse
jeito e inventasse outro nome para a dona do bar, porque poderia ser que a
própria Dona Luisa lesse e ele não gostaria de ver o fim daquilo. E botaria a
culpa no Olavo. Sem dó nem piedade.
“Fazia um lindo dia de
sol, o ar quente e abafado daquela tarde primaveril, trouxe à tona um cheiro
despropositado. Acharam o defunto do Romero.”
Nem teve conversa. O
compadre rasgou tudo em picadinho, dizendo que de tanto calor que tinha
naquelas frases ele suou só de ler. Que o outro imaginasse o resto, se
continuasse daquela maneira iriam queimar as mãos ao pegarem o papel. Mas,
Romero ficou um bom nome.
“Acharam o defunto do
Romero. Ninguém entendeu como é que ele foi parar lá, dentro de um bar fechado,
sem móveis nem nada. Só a poeira a lhe fazer companhia.”
O Rui gostou da frase
da poeira, o resto que se eliminasse por si só. O Olavo começou a bufar.
“Acharam o defunto do
Romero com a poeira a lhe fazer companhia. O mistério que envolve o corpo encontrado
dentro de um bar segue sem explicações.”
O compadre mandou
continuar. “O delegado busca, intrépido...”
— Intrépido? E o Rui
caiu na gargalhada. Disse ao Olavo que esse início mais parecia notícia de
rádio dando as explicações sobre um caso de polícia. Não tinha nada contra o
delegado, mas que colocasse outras palavras já que a perspicácia do dito cujo
era conhecida até na lua. O escritor que era compadre de casamento do delegado
não gostou do cinismo exagerado do Rui e comprou briga na hora. Entre a
discussão sobre os quesitos investigativos do delegado e os rascunhos terem
sido mastigados e engolidos pelo Olavo foi meia hora.
Foram embora do bar
sem terminar o jogo e sem pagar a cachaça.
Na semana seguinte, com os ânimos em
ordem e a discussão esquecida, apareceu o Olavo com vários inícios para aquele
conto do Rui. Era apenas uma questão de conversa para escolher qual deles
ficaria melhor no contexto geral.
E o Olavo leu com todo
o amor que sentia em sua alma de escritor:
— Esse é o primeiro: “O Romero foi
encontrado morto, abandonado no chão de um bar, tendo a poeira como última acompanhante de
sua vida.”
— O segundo: “Ninguém
imaginaria que o cheiro que empesteava aquela cidade esquecida por Deus, era do
Romero. A porta arrombada permitiu que os últimos resquícios de vida daquele
lugar — a poeira — pudessem vislumbrar a luz do sol.”
— Esse é bom: “Romero
jazia com a poeira. O bar havia sido sua última morada, o seu último adeus. As
paredes foram as únicas a escutarem tão assombroso suspiro de fim de vida.
Jazia sozinho, estendido no chão, putrefato.”
— Agora o último: “No
bar, um corpo. Sozinho, lânguido, sem o sofrimento do amor e tampouco as
saudades de outrora. Romero estava morto e foi encontrado porque seu cheiro
empesteou a pequena cidade.”
Depois da leitura,
Olavo fechou os olhos e suspirou como se tivesse empreendido grande esforço em
mostrar seus sentimentos naquele primeiro parágrafo daquele conto secreto que o
Rui lhe ditara.
Pois o Rui, que
baixava as sobrancelhas e erguia um olho de desconfiança pediu ao compadre que
porra era aquela e o Olavo, incrédulo, lhe explicou tudo o que haviam combinado
e que estava esperando o resto do conto, e o compadre, dando uma gargalhada
interminável, lhe disse não lembrar patavina do que iria ditar e que tampouco
tinha alguma ideia na cabeça para tanto e que era para ele sentar que iriam
começar o jogo logo ele pagasse a conta da semana passada ao dono do bar.
* Sobre a morte do
Inácio no bar da Dona Luisa, leiam: "Último Pedido"
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