quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Despedida





Deu uns passos pela sala, mediu o pouco espaço de que dispunha, refez o trajeto, tão minúsculo, tão reduzido quanto lhe facultava aquela sala, peça maior de uma pequena casa, estancou. Sim, tinha parado junto da mesa, a velha mesa ao redor da qual estavam dispostas seis cadeiras já gastas, as cadeiras que haviam suportado, mais ou menos galhardamente, a sua infância e a de seus irmãos.
O momento lhe pesava como chumbo sobre os ombros. Não havia sido ele, propriamente, quem tinha decidido. Por ele haviam falado seus pais, aqueles pais que mourejavam na roça, dia após dia, e agora, diante das dificuldades crescentes, só viam uma solução para proporcionar-lhe um futuro: sair. Era o mais velho, chegara o momento de continuar a caminhada que começara na escolinha distante dois quilômetros, a escolinha que lhe havia ministrado as primeiras letras e já não tinha condições de lhe oferecer muito mais.
A saudade lhe doía antecipada. Partir, embora significasse escapar da dura lida do campo, também queria dizer deixar a família, os pais, os irmãos, o lar. As galinhas, os cachorros, a vaquinha. Despedir-se daquele verde que o rodeava, das corridas pelos campos, das brincadeiras com a gurizada, dos ruídos familiares, de tudo o que fazia parte de sua vida. O que lhe traria – de bom, de mau – esse mundo novo para o qual, de certa maneira, se sentia arremessado?
A mãe apareceu na soleira da porta, olhou-o rapidamente e falou num jato só:
— O padre chegou.
Intuiria ela o turbilhão que se passava dentro dele? Ou estaria agindo rápido, para evitar maiores sofrimentos? Ele procurou reter-lhe o olhar, mas ela já rumava para o quartinho dos filhos, a fim de vistoriar a trouxa que ele havia preparado.
— Vou dizer tchau para o pessoal.
Correu para fora, agoniado, sabendo que não podia fazer nada. Fosse o que fosse, era o seu destino. Um tanto sem jeito, abraçou o pai, os irmãos, voltou e caiu nos braços da mãe. Tudo em ritmo veloz, o padre estava ali, pronto para conduzi-lo a sua nova vida.
Ele nunca mais se esqueceria das palavras da mãe:
— Nós te esperamos nas férias.
Virou as costas e saiu, pisando duro, não queria que percebessem as lágrimas que lhe marejavam os olhos.



Texto publicado com a gentil permissão da autora.



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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A Menina e o Jardineiro





A mãe e a amiga conversavam. Sentada em um cantinho, ouvia desfiarem os assuntos de sempre. Na cidadezinha do interior, eram comuns as longas visitas. Deslizou para a peça contígua e foi abrindo os olhos às novidades que apareciam a sua frente. Passou pela sala de jantar, pela cozinha e chegou à porta do pátio. Lá fora, o sol queimava, atenuado apenas pelas árvores imponentes. Espichou o olhar e deu com um homem, que lhe sorriu.
— Vem cá.
Perscrutou o rapaz moreno, roupa de trabalhador, que dava uns passos em sua direção. Sentiu um arrepio de medo, não o conhecia, o que desejaria?
— O que tu estás fazendo aqui? — arriscou, na dúvida se entrava ou levava adiante a conversa inesperada.
— Sou o jardineiro, estou podando as árvores. E tu?
— Eu estou com a minha mãe.
Ela observou o ambiente ao redor, havia plantas por todo o lado. O rapaz chegou-se mais.
— Quero te mostrar o quintal. É muito bonito.
Apontou para os fundos:
— Lá atrás, tem uma gruta. Tu conheces?
Não, ela não conhecia. Conhecia apenas a gruta que se encontrava num recanto do pátio, no colégio. Gostava de ficar sentada diante da santa, na hora do recreio. Às vezes, até se esquecia de brincar. As colegas chamavam: "Não queres jogar?" E ela...
O jardineiro continuava a sua frente. Insistiu:
— E então, vens?
Estava naquele impasse quando ouviu, muito perto, a voz da mãe: "Cristina!" E a mãe falou mais alto o seu nome, quase gritando.
Foi então que deu meia-volta, sem mesmo dizer tchau ao rapaz.
— Fica aqui — disse a mãe, parecendo nervosa.
Ela sentou-se num canto do sofá e, por mais um bom tempo, ouviu as conversas das duas. Quando saíram, a mãe disse-lhe que era perigoso falar com estranhos. Não perguntou por quê.


Texto publicado com a gentil permissão da autora.


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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Agosto, no SVC


A você que prestigia nosso Blog, muito gratas pela companhia. 

Iniciamos agosto com uma seleção especial de textos no SVC NR 7, já pronto para baixar. 

E este mês é dos convidados, pessoas que nos honram com suas participações aqui no Blog. Prestigie. 

Voltamos em setembro com nossas próprias publicações.

Em tempo: baixe também o SVC NR 6, dedicado aos PEQUENOS ESCRITORES DA CANASTRA e ajude a espalhar a sementinha por todo o Brasil.

Grande abraço,

Helena e Michele.



Observação: veja todas os números do SVC no Quintextos.