quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O Abandono


Por Michele Calliari Marchese

Lenise sentou-se na cadeira de palha da varanda de sua pobre casa. Era tardinha e os filhos estavam brincando. Três ao todo e o quarto na barriga. Entregou-se àquele entardecer como se fosse o último. Fechou os olhos e acariciou o ventre com amor. Sentiu o vento no rosto a enxugar o suor da lida e do abandono.
Sentia-se fatigada de tanto pensar, com o peito em dor doou-se por inteira ao destino que se lhe abria de uma hora para outra, exatamente no momento em que o marido fora internado em algum hospital da capital pela perda do juízo. Bebia muito aquele homem e se por um lado sentia-se aliviada com a internação, por outro lado sentia-se só com todas as responsabilidades do porvir.
Sabia que não tinha condições de fazer o trabalho do marido naquele fim de mundo e a gravidez em estado avançado não lhe permitia pensar no que aconteceria com os outros filhos. A dor foi tomando conta de todo o seu corpo, como uma vertigem lenta, antecipando todos os sofrimentos que teria de passar. Já tinha avisado os parentes, dela e dele. Por certo haveriam de ajudá-la de alguma maneira, visto a situação chegar aonde chegou.
Escutou os gritos dos filhos a reclamar de fome e levantou-se num ímpeto. Esquentou o que sobrara do almoço e alimentou um a um sem pensar em si e o que restou — parcas migalhas — foi o que comeu, em prioridade daquele que viria, porém a sua única vontade era de mudar tudo e todas as coisas, ou simplesmente não comer nunca mais.
Agarrou-se ao sentimento mais profundo da vida e seguiu adiante; limpou a cozinha e tratou dos outros afazeres que exigiam urgência. “Todos tão pequenos” ela pensou, e as lágrimas lhe escorreram pelo rosto cansado da juventude.
Tentaria fazer o melhor que pudesse, até a chegada do neném.
“Quatro filhos!” Disse em voz baixa num desespero de agonia. Ainda bem que o marido estava internado sem previsão de voltar, porque se ali estivesse, lhe meteria o quinto filho barriga adentro. Não aguentava mais tanta miséria.
“Todos descalços!” E recomeçando o choro dolorido e incontrolável foi até a janela para respirar o ar que lhe faltava. Ela passou a mão no rosto para afugentar tanta fraqueza e em seu íntimo sabia que mesmo que a família chegasse seu sofrimento não terminaria ali. Não tinha condições de manter os filhos por muito mais tempo e não saberia como teria aquele que iria nascer. Era o marido que trazia a parteira, era o marido que lidava com quase tudo o que existia fora de seu mundo, não sabia como fazer para alimentar as crianças com outras coisas que não tinham em casa.
Era difícil imaginar uma caminhada a pé com todas aquelas crianças e todas descalças, inclusive ela própria, até a cidade para pedir ajuda. Era difícil a sua vida de mãe.
Foi quando ela sentiu as dores do parto e as crianças choravam que apareceram seus familiares, dois irmãos e um cunhado. Sem muitas explicações, ajudaram-na durante o parto, deram de comer aos pequenos e trataram de cuidar o que jazia abandonado.
Vieram com um taxi da cidade, colocaram todos dentro, quase nenhum pertence fora levado e o bebê estava enrolado num lençol surrado e muito velho.
Naquela noite, na casa de uma irmã de Lenise, tudo estava bem e morno como um aconchego. Os filhos dormiam com os primos, tinham tomado banho e comido muito bem e então chegou a hora da verdade. Ficaria ali para sempre se pudesse, porém não podia. A irmã disse que conseguiria criar um dos filhos da Lenise sem problemas, inclusive dando-lhe educação, e ela arregalou os olhos diante daquela proposta impensável.
Era muita dor em seu coração quando o cunhado disse que levaria dois para o Paraná — onde morava — e o outro ficaria com o outro irmão de Lenise até que a situação melhorasse para que pudesse então juntar seus filhos. Não poderia vender aquele pedaço de chão sem a assinatura do marido. Teria que trabalhar em algum lugar até que ele voltasse da internação, se é que voltaria algum dia.
Segurou o bebê junto de seu coração, acordou os outros filhos e despediu-se deles sem chorar, sem lamentar e sem se desculpar. Precisava mostrar que a mãe deles era forte o suficiente para aguentar tantas provações e eles precisavam saber disso e tinham que esperá-la.
Foi-se embora no meio da noite, porque sabia que se ficasse não teria coragem de deixar os filhos com os outros. Escutou os gritos e os choros e pôde sentir as lágrimas deles dilacerando a sua alma. Não conseguiu olhar para trás.
Precisava fazer aquilo para poder ajudá-los e para que pudesse continuar vivendo. Foi dormir na casa de uma mulher sua conhecida da infância e no dia seguinte, com os peitos vazando leite, porque não tinha mais como dar de mamar, porque seu bebê havia ficado, porque ele não conseguiria resistir à dura empreitada consigo, porque ela os amava demais para deixa-los morrer à míngua e foi pedir emprego de casa em casa, de comércio em comércio e no fim de uma semana conseguiu. Dormiria no emprego, porque não tinha lugar para dormir e olhou admirada aquela alma auxiliadora trazendo um par de chinelos para calçar.
O marido nunca mais voltou e um Juiz concedeu-lhe, quinze anos depois, o direito de vender as terras que tinham, e foi o que ela fez. Tentou a todo custo que seus filhos voltassem para junto dela, mas o que conseguiu foi uma casa vazia. Completamente vazia.
Nenhum dos filhos quis voltar. Os dois menores não a reconheciam como mãe mesmo sabendo que ela era a mãe deles e os dois maiores não entenderam nunca a atitude dela naquela noite de abandonos.

E então Lenise sentou-se em sua cadeira nova de palha na varanda. Respirou pela última vez o entardecer. Fechou os olhos e acariciou o ventre daqueles quatro filhos que nunca esqueceria em sua vida. Sentiu o vento em seu rosto, mas ele não foi capaz de enxugar as lágrimas do seu coração.



Copyright 2014 (c) - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão da autora.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Saiu para comprar cigarros - agora em ebook!


Os contos da rodada do cigarro num só volume, para baixar e 'tragar' com gosto. 




Em tempo: Causos da Campina - Volume I , baixe aqui.






© 2014 Blog Sem Vergonha de Contar. Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons - Atribuição - Sem Derivações - Sem Derivados 2.5 Brasil (CC BY-NC-ND 2.5 BR). Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito aos autores originais (Para ter acesso a conteúdo atual aconselha-se, ao invés de reproduzir, usar um link para o texto original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Um Causo de Amor



Por Michele Calliari Marchese

“O Teixeira era um jagunço dos diabos e vivia por aqui, matando, assaltando e deixando todo mundo assustado. A morte dele deu-se ali na cidade de Catanduvas. Ficou dentro de uma cabana, armado até os dentes. Nenhum polícia conseguia tirar ele de lá e não conseguiam acertá-lo. Num determinado momento e querendo matar a polícia, saiu da cabana com um revólver em cada mão e atirando sem parar. A polícia, que tinha ido preparada, sacou de uma metralha e foi só assim que o Teixeira morreu. Tiraram uma foto dele com o par de revólveres cruzados em seu peito.”
E o Padre Dimas mostrou para todo o povo da Campina a foto do jagunço jazido e olhou de atravessado para o Juvenal. Fora este, o Jacó e o Padre Dimas, ninguém entendeu porque ele estava falando de jagunço morto em Catanduvas, mas ninguém perguntou nada. O padre falou e estava falado e também porque era um prenúncio de morte.
O povo ficou impressionado.
Acontece que o Jacó tinha várias filhas e uma delas, já com 17 anos, estava enamorada de um rapaz de Capinzal que o pessoal achava tratar-se de um jagunço daqueles bem brabos. O nome do moço era Juvenal e tinha um cavalo crioulo muito lindo e não olhava para moça nenhuma que não fosse a Iracema, uma das filhas do Jacó.
O Juvenal ia e vinha, e ninguém nunca soube o paradeiro dele, se tinha família e se trabalhava no quê. Era um mistério. A única coisa que se sabia certo era que queria casar a todo custo com a Iracema. E ela com ele.
Iracema chegou a sugerir uma fuga, mas Juvenal não aceitou. Tinham que casar bem certinho, na Igreja, com a benção do Padre Dimas e tudo o mais. Já tinham até as alianças, mas o Jacó não aceitava nem por misericórdia.
Foi no domingo que o Padre Dimas falou em seu sermão sobre a morte do bandido Teixeira e o Jacó achou por bem falar com o Juvenal. Assim, de homem para homem e entre tantas coisas que foi falado e que nunca se soube, foi que o Juvenal partiu de volta para Capinzal naquela mesma hora e nunca mais voltou.
À pobre da Iracema restou chorar amargamente e casar com o primeiro que apareceu.
E assim como na vida, tudo passou. O padre Dimas morreu, as coisas mudaram de lugar e de espaço, o Juvenal ficou viúvo e a Iracema, também.
Aconteceu bem quando eles estavam esperando a morte chegar, quando já tinham vivido e não tinham mais nada para viver e os dois se viram e se encontraram na missa das oito, aqui na Campina e justamente na hora que o Padre Ivo disse:
“O bando do famoso bandido “Facão do Penacho” só pôde ser capturado depois que os assaltados conseguiram dar uma bebedeira nos assaltantes, e aí então, depois de dormindo foi que conseguiram dar o cerco na casa e prenderam os meliantes, sem direito de defesa e tampouco de vida, desapareceram no caminho da penitenciária de Curitiba, no Paraná.”
E foi a coisa mais linda que ouviram, porque era o prenúncio de uma nova vida, a vida deles juntos, mesmo que durasse outro tão pouco tempo quanto àquele de sessenta e cinco anos atrás e também porque o Padre Ivo não sabia nem porque tinha comunicado à população sobre a captura, já que o ocorrido tinha acontecido uns 30 anos atrás.
Então Juvenal e Iracema resolveram se casar, imediatamente. Sozinhos os dois, com o Padre. Sem padrinhos, sem família, sem ninguém, com aquelas velhas alianças que o Juvenal tinha guardado e que não cabiam mais nos dedos, mas que serviram em seus corações.
Assim como devia ter sido em 1932 e não foi. E eles sabiam também que quando o padre falasse de novo em jagunços e bandidos jazidos há muito tempo atrás, era porque era a hora da despedida.
Era a hora da morte do amor.




Copyright 2014 (c) - Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão da autora.