segunda-feira, 3 de junho de 2013

Pequenos Escritores da Canastra - Apresentação



Queridos Leitores,

Este mês teremos aqui um pouco sobre um pequeno grande trabalho. É o trabalho de Maria que se encantou por João e agora se esforça para passar adiante um pouco do que dele aprendeu: amar a terra e a vida, deles extrair contos e ensinar o valor do antigo às novas gerações. Essa Maria arretada vive em Minas, na Serra da Canastra, um lugar muito especial. Ela se define como “uma onça pensativa”. E eu diria que ela é uma onça sim, corajosa, que aposta no presente e nas futuras gerações. Com vocês, a louvável iniciativa Pequenos Escritores da Canastra.
Trata-se ainda de um projeto pequeno mas muito importante para o futuro do Brasil. Como eu já disse, é uma iniciativa que vem sendo tocada lá na Canastra, Serras de São Roque de Minas, terra boa dos Gerais e de João, autor do sertão lingüístico mais rico que já se ouviu falar. E é mantida por Maria Mineira, que adora o João Guimarães e nele encontrou inspiração para a vida, bem como aprendeu a valorizar a riqueza popular de sua região. O pseudônimo é apenas para preservar sua família, que não gosta de exposição. Passemos então aos efeitos de seu trabalho, o que é mais importante mostrar.
Maria Mineira tem 47 anos, dois filhos adolescentes, ambos herdaram da mãe o gosto pelos livros e, no sangue, um bichinho contador de histórias, mas só em 2011 ela tomou coragem e começou a publicar alguns textos seus. Criou uma escrivaninha no site Recanto das Letras sem grandes expectativas, mas a recepção foi tão positiva que ela se sentiu motivada a escrever e publicar cada vez mais, também a pôr em prática o antigo sonho de lecionar, pois para isso havia voltado aos estudos. Maria Mineira não fala com facilidade de si mesma. “Sou uma pessoa tímida por natureza, sou sonhadora, bem humorada e amo os livros desde criança. Sou apaixonada por Guimarães Rosa.” — ela me contou.
Contou também que no início de 2012, quando conseguiu seu primeiro emprego na escola onde trabalha, ela não escolheu o local onde queria trabalhar, estava no último ano de Letras e Literatura e qualquer coisa estaria bom para começar, desde que fosse numa escola. Por coincidência, lá estavam precisando de bibliotecária e professora para ‘A Hora do Conto’. Ela ficou encantada, pois era exatamente o que sempre quis fazer. As aulas de conto até então não tinham o formato atual, a duração era de apenas 30 minutos. Maria falou de seu projeto para a diretora da escola e esta lhe disse que estava querendo algo novo, algo que motivasse mais os alunos a ler e escrever. Maria solicitou que aumentasse o tempo das aulas de 30 para 50 minutos, a diretora atendeu prontamente e deu a ela carta branca para trabalhar.
Maria mudou então o formato da aula. “Ponho um tema em debate com cada turma do fundamental 1 e cada semana discutimos um assunto.” — ela conta — “Assombração, animal de estimação, um aniversário, um medo, uma alegria, uma saudade, o tema da terceira idade rendeu textos incríveis! A turma do quinto ano, que saiu do fundamental 1, ficou triste por sair do projeto. Eu não queria deixá-los, mas não havia tempo na grade para encaixar aula de conto no fundamental 2, aí pedi à diretora que deixasse que eles viessem à tarde, eu arrumei uma horinha para eles. O mais incrível é que está vindo quase todo mundo, mesmo não sendo obrigado. Faço esse trabalho por minha própria conta. É que dá uma pena abandonar essa turma depois do trabalho que deu pra botar pra escrever, e eu nem sinto o tempo passar. Eu uso um truque para que a aula fique mais animada: se todos trazem os textos, eu conto histórias, e eles adoram causos antigos de assombração, como aqueles que minha avó contava. E incentivo também que eles procurem os avós e pesquisem causos antigos da nossa região. Pena que eu tenha pouco tempo e habilidade para digitar, meus alunos têm produzido muito. Vou corrigindo os errinhos mas nunca mudo as frases, não se pode mexer na essência das histórias que as crianças escrevem. Também dou aula para os pequeninos da educação infantil, conto historinhas para eles. Trabalho na escola o dia todo, eu amo o que faço. Além o serviço normal de bibliotecária, dou as aulas de conto à tarde. De manhã leciono Literatura para o ensino médio. Também conto histórias para esses alunos, eles pedem às vezes. Eu sonho com um projeto de incentivo à leitura levado a sério e sendo implantado além das Serras de São Roque de Minas, fiquei feliz com seu interesse em divulgar.
Maria trabalha na Cooperativa Educacional de São Roque e além do Recanto das Letras, algumas de suas histórias estão no Espaço do Produtor e no site Gândavos, outra louvável iniciativa sem fins lucrativos que visa resgatar histórias da cultura popular.
Ao falar-me de seu trabalho com os Pequenos Escritores da Canastra, Maria acabou omitindo muitos outros aspectos do seu trabalho. De outra fonte, eu soube que:
“Maria é antenada com o presente, passado e futuro e, a meu ver, faz essa ponte entre os três muito bem. O projeto ajuda a vivenciar o presente ajudando a criar bons hábitos alimentares através das apresentações do palhaço na Semana da Alimentação, por exemplo, trabalhando a linguagem oral através do reconto de clássicos 
infantis e tem olhos no futuro fazendo versos relacionados com temas atuais, como Sustentabilidade, e divulgando-os na Rádio local; Maria também participa da cooperativa de artesanato da Feira de Empreendedorismo da escola, trabalha a terceira idade, etc.”
Perguntei então a Maria porque não me havia contado toda a história, ao que ela respondeu: “Quanto a falar muito do meu trabalho na escola, fico com medo de acharem que quero aparecer às custas dos meus alunos. Fico sem saber o que fazer, pois aparecer não é o meu objetivo, você sabe.”


Foto: arquivo pessoal privado -  usada com permissão -
Maria Mineira e três alunas vestidas para as festas juninas.

Pois é, Maria, ‘aparecer’ também não é o nosso objetivo, e sim: MOSTRAR o que há de bom e merece ser conhecido nesse Brasilzão. Alegramo-nos em poder divulgar o seu pequeno grande projeto aqui em nosso blog. É uma honra! É de pequenino que se aprende a amar os livros, a valorizar as letras e a cultura regional. Esperamos que outras pessoas possam reconhecer o valor deste trabalho e que ele cresça e dê muito mais frutos, para Minas e para o Brasil.
Nossos convidados de honra do mês de junho, queridos leitores, são os PEQUENOS ESCRITORES DA CANASTRA. A cada semana teremos variados textos deles para que vocês confiram, comentem e, quem sabe, ajudem a incentivar.
Helena e Michele.


NOTA: esta postagem é o resumo de várias conversas que eu, Helena Frenzel, tive com Maria Mineira via email e facebook.


Quem desejar entrar em contato com Maria Mineira e saber mais detalhes sobre seu lindo trabalho, pode fazê-lo por aqui:


Veja também a matéria Cooperativa Educacional Mineira é exemplo para o Brasil e conheça Leandro, um dos Pequenos Escritores.






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6 comentários:

  1. Bom dia, Helena. Conheço Maria Mineira e seus textos deliciosos do Recanto das Letras, e gostei de saber mais sobre seu trabalho e seus projetos. Achei a ideia de contos temáticos maravilhosa, e uma pena que não haja projetos assim em todas as escolas. Adorei o post!

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  2. É sempre um alento para o espírito saber que existem pessoas que se doam a um ideal e, muito além disso, multiplicam seu tempo para fazer desse ideal um instrumento para que outros menos favorecidos alcancem aquilo que lhes é de direito. Neste caso, a instrução, a cultura, o direito ao saber, o direito de ter meios para mais tarde "produzir" por conta própria esse conhecimento e cultura.

    Conheço outros projetos semelhantes, e faço festa sempre que leio sobre pessoas que mostram o gosto da leitura e da produção textual para crianças. Sempre tive para mim que o melhor jeito de se fazer gostar de ler é, justamente, ensinando a gostar de escrever. E é de criança que se faz isso. E meu Deus, os contos e causos são os mais apaixonantes para esse intento.

    Aplausos para a Maria e, claro, para você também, Helena. Todo esforço nesse sentido deve ser divulgado e apoiado. Ando um tanto afastado das redes sociais, mas se possível, gostaria de divulgar também, de alguma forma, o que você deixar por aqui. Será um orgulho poder ajudar de algum jeito.

    Abraços.

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  3. Obrigada pelo apoio! Estou sem palavras para dizer o quanto sua ajuda está sendo importante para esse projeto. Voltarei mais vezes!

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  4. A Maria merece esta homenagem e muito mais, pela dedicação, com amor e desprendimento, não só ao nobre ofício de ensinar, mas, sobretudo, ao despertar nos petizes o gosto pela leitura e escrita. A ela dediquei um texto e ardentemente desejo que a história criada venha a se transformar em realidade. Impossível não é. A Maria trabalha duro para isso. uhttp://www.recantodasletras.com.br/contos/3660604

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  5. E nesses momentos as palavras correm como num regato num caminho reto na montanha aonde somente se houve o canto dos pássaros, o borbulhar da água cristalina e a felicidade do que se vê na retina! Parabéns!

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  6. Venho conhecendo Maria Mineira aos poucos, através de seus textos que tenho acompanhado, como parceira que somos no blog Gandavos e nos livros da série Gandavos e muito recentemente, por conversas via web, e já admirava pelo talento e principalmente pelo compromisso dela de preservar as nossas origens mineiras, a nossa cultura, sempre com muito carinho.Entretanto, ao ler essa entrevista, deparo-me aqui com mais essa grata surpresa de descobrir muito mais qualidades nela, do que eu pudesse supor e que a torna ainda mais encantadora. Trabalho lindo! Parabéns Maria! Parabéns Helena e Michele, pela iniciativa de divulgar o que há de bom e saudável por esse mundo afora.
    Um grande abraço para todas vocês.
    Celêdian

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